A Academia Francesa acaba de anunciar o falecimento do antropólogo Claude Lévi-Strauss. L.-S. reuniu as fantásticas qualidades de errar com frequência, bolar teorias malucas mas nunca ter medo de continuar fazendo estas coisas. Apesar de reconhecidamente ser incapaz de incorporar a história (diacronia) às suas análises, é um dos poucos antropólogos que permanecem leitura obrigatória para historiadores. Eu achava, e ainda acho, que ler O Pensamento Selvagem é uma daquelas experiências que te fazem mais inteligente. Na faculdade, o mundo se dividia entre os que leram e os que não leram esse livro.
O prêmio vai para o diretório central do partido Republicano (RNC), com a expressão “inartfuly worded”. Numa semana em que PT, PSDB, PMDB, DEM, PV, O Globo, FSP, Estadão, Jornal Nacional, ou seja, todo mundo fez questão de se candidatar para mico king kong isso não é um fato desprezível. Um survey sobre a reforma do sistema da saúde que Obama está tentando aprovar sugeriu que o governo democrata irá identificar e discriminar quem votou no partido de Rush Limbaugh (não que haja algo de errado nisso!). Quando questionada, a porta-voz do RNC disse que a pergunta foi “inartfully worded”. Show de bola.
E por falar no Antiguidadees Romanas (ver post abaixo), coloquei lá um artigo escrito pelo Fábio Morales, da USP, sobre a política em Atenas nos séculos V e IV d.C. Vale a pena conferir.
Estou neste momento trabalhando em um projeto para financiamento conjunto da FAPESP e do DFG (governo alemão). Se der certo o futuro sorrirá mais próspero. A idéia foi do de um colega alemão, de que estudássemos a cultura epigráfica da Itália e África no final do período romano. Estas regiões eram muito ricas na Antiguidade Tardia, as cidades eram muito ativas, e o número de inscrições latinas é enorme. Curiosamente, não existe nenhum estudo compreensivo deste material, apenas publicações localizadas.

Nesse meio tempo estou lendo Porphyrius the Charioteer, do Alan Cameron. O livro é uma edição de duas inscrições em verso que foram encontradas no hipódromo de Constantinopla, em bases de estátuas (foto acima) celebrando um corredor de bigas (Porfírio) que por volta de 500 d.C. reinou supremo no meio atlético bizantino. O que faz a publicação ainda mais interessante, se você for chegado nestas coisas, é que os versos haviam sido publicados independentemente na Antologia Grega (também chamada de Antologia Palatina), o que permite ao Cameron fazer um estudo excepcional da cultura literária bizantina. Quando terminar de ler, farei a resenha no Antiguidades Romanas.
O Idelber Avelar e o Pedro Doria deixaram seus blogs de lado. Se o Hermenauta fizer o mesmo vai ser uma catástrofe, se o NPTO seguir a onda eu volto pra Alemanha. O problema, eu acho, é que o modelo brasileiro de internet ainda é extremamente amador. Isso não é ruim, pois é possível para caras como o Na Prática e o Hermenauta competirem com blogs grandes como os dois que acabaram de fechar. Poucos blogs seguem o modelo americano de um Andrew Sullivan, ou Ezra Klein; dois exemplos no Brasil são o Nassif e o Noblat, para ficarmos na letra N. O PD e o Idelber seriam estrelas em qualquer blogosfera, mas – e isso se deve principalmente às suas escolhas profissionais – prefereriam tirar o time de campo para batalhar em outras áreas. Mas é fato que se a blogosfera fosse uma alternativa profissional mais viável, existiria uma chance grande de mantê-los na área.
… versão Afeganistão. Resenha do livro In the Graveyard of Empires, de Seth Jones, cientista político da RAND Corporation no New York Times. Como quase tudo que diz respeito ao fiasco das operações militares americanas nos anos Bush II, a conta é colocada na administração do Pentágono de Donald Rumsfeld: a decisão de mandar poucas tropas, a falta de investimentos e gestão na reconstrução do país, e o início das operações no Iraque são as causas principais. Permitiram a reorganização do Taliban, da Al-Qaeda, o envolvimento do Paquistão, a perda de apoio popular, a perda de apoio dentro da OTAN, etc etc. Eu concordo com tudo, mas tenho uma dúvida. Será que estas análises não são excessivamente confiantes que seguindo o recituário que conhecemos agora as coisas teriam dado certo? Que Rumsfeld e cia estavam errados desde o início é um fato, e muita gente boa já havia avisado. Mas será que uma intervenção nos anos Clinton, ou Obama, ou Roosevelt, teria tido resultado diferente? O autor (e a maioria dos comentaristas) parte do princ[ipio de que sim, mas não custa lembrar que invadir o Afeganistão é uma coisa, controlar o país e dar uma cara civilizada ao governo é algo bem diferente. Britânicos e Russos fizeram o primeiro, falharam no segundo.