A Academia Francesa acaba de anunciar o falecimento do antropólogo Claude Lévi-Strauss. L.-S. reuniu as fantásticas qualidades de errar com frequência, bolar teorias malucas mas nunca ter medo de continuar fazendo estas coisas. Apesar de reconhecidamente ser incapaz de incorporar a história (diacronia) às suas análises, é um dos poucos antropólogos que permanecem leitura obrigatória para historiadores. Eu achava, e ainda acho, que ler O Pensamento Selvagem é uma daquelas experiências que te fazem mais inteligente. Na faculdade, o mundo se dividia entre os que leram e os que não leram esse livro.

O NYT tem uma matéria interessante sobre o The Onion.

O prêmio vai para o diretório central do partido Republicano (RNC), com a expressão “inartfuly worded”. Numa semana em que PT, PSDB, PMDB, DEM, PV, O Globo, FSP, Estadão, Jornal Nacional, ou seja, todo mundo fez questão de se candidatar para mico king kong isso não é um fato desprezível. Um survey sobre a reforma do sistema da saúde que Obama está tentando aprovar sugeriu que o governo democrata irá identificar e discriminar quem votou no partido de Rush Limbaugh (não que haja algo de errado nisso!). Quando questionada, a porta-voz do RNC disse que a pergunta foi “inartfully worded”. Show de bola.

Esta semana que passou estive em SP, para resolver uns assuntos do trabalho. Na volta, peguei o ônibus para Niterói, o bom e velho 1001 executivo. Ao entrar no ônibus, bateu o desespero: espalhados pela cabine estavam monitores, sina inconfundível de tortura audiovisual. E não deu outra. Um dos filmes escolhidos foi Fireproof, um fime sobre um bombeiro vivendo uma crise conjugal e que tenta salvar seu casamento enquanto a mãe da esposa está doente e um médico mal carater dá em cima dela (da esposa, não da mãe!). O  filme é uma empreitada cristã, produzido como um instrumento da pastoral de algumas igrejas americanas. O bombeiro estava cheio de vícios (uma cena envolve destruir o computador…), sua mulher era boazinha mas não ia à igreja, etcetc. O  que mais me irritou é que quando eu paguei pela passagem ninguém me disse que eu estaria exposto à doutrinação cristã! Para falar a verdade, nem sei se a 1001 pertence a algum bispo ou católico fundamentalista, e me parece que o dvd só foi colocado porque era barato (o outro filme foi Os irmãos Id & Ota!). Mas assistir a uma coisa destas na mesma semana em que foi aprovado na Câmara o acordo entre o Brasil e o Vaticano – um acordo que, ao invés de condenado pelos não católicos foi complementado para incluir todas as outras religiões, bom, isso tudo me parece um sinal do lado mais irritante do obscurantismo. Ou seja, a doutrinação.

Os filhos de um amigo, 10 e 12 anos, são ateus. Vira e mexe voltam para casa com uma nota da escola, dizendo que eles desrespeitaram a religião de um coleguinha dizendo que Deus não existe. É nesse ponto que a gente está vivendo.

E por falar no Antiguidadees Romanas (ver post abaixo), coloquei lá um artigo escrito pelo Fábio Morales, da USP, sobre a política em Atenas nos séculos V e IV d.C. Vale a pena conferir.

Estou neste momento trabalhando em um projeto para financiamento conjunto da FAPESP e do DFG (governo alemão). Se der certo o futuro sorrirá mais próspero.  A idéia foi do de um colega alemão, de que estudássemos a cultura epigráfica da Itália e África no final do período romano. Estas regiões eram muito ricas na Antiguidade Tardia, as cidades eram muito ativas, e o número de inscrições latinas é enorme. Curiosamente, não existe nenhum estudo compreensivo deste material, apenas publicações localizadas.

Base da estátua de Porfírio

Nesse meio tempo estou lendo Porphyrius the Charioteer, do Alan Cameron. O livro é uma edição de duas inscrições em verso que foram encontradas no hipódromo de Constantinopla, em bases de estátuas (foto acima) celebrando um corredor de bigas (Porfírio) que por volta de 500 d.C. reinou supremo no meio atlético bizantino. O que faz a publicação ainda mais interessante, se você for chegado nestas coisas, é que os versos haviam sido publicados independentemente na  Antologia Grega (também chamada de Antologia Palatina), o que permite ao Cameron fazer um estudo excepcional da cultura literária bizantina. Quando terminar de ler, farei a resenha no Antiguidades Romanas.

O Idelber Avelar e o Pedro Doria deixaram seus blogs de lado. Se o Hermenauta fizer o mesmo vai ser uma catástrofe, se o NPTO seguir a onda eu volto pra Alemanha. O problema, eu acho, é que o modelo brasileiro de internet ainda é extremamente amador. Isso não é ruim, pois é possível para caras como o Na Prática e o Hermenauta competirem com blogs grandes como os dois que acabaram de fechar. Poucos blogs seguem o modelo americano de um Andrew Sullivan, ou Ezra Klein; dois exemplos no Brasil são o Nassif e o Noblat, para ficarmos na letra N. O PD e o Idelber seriam estrelas em qualquer blogosfera, mas – e isso se deve principalmente às suas escolhas profissionais – prefereriam tirar o time de campo para batalhar em outras áreas. Mas é fato que se a blogosfera fosse uma alternativa profissional mais viável, existiria uma chance grande de mantê-los na área.

Bom, já vamos completar um mês de Brasil (sexta-feira). O Amianinho completou ontem 3 meses de vida.  Vale alguns updates:

1. Nesse meio tempo estivemos procurando apartamentos em SP, já vimos vários. Uma coisa interessante é como as fotos colocadas em sites de imobiliárias~prestam um desserviço aos apartamentos. Uma coisa desanimadora é como está caro o aluguel em São Paulo.

2. O Amianinho está mais rechonchudo, sorri pra todos (especiamente morenas que nunca sorririam para o pai nas CNTP) e está desenvolvendo gosto pela arte da conversação, especialmente com a estrelinha no berço dele (este item justifica meu desaparecimento deste blog por tanto tempo). Já achamos pediatra em Niterói, já tomou a BCG (que não dão na Alemanha, onde a tuberculose é coisa de romance do século XIX).

3. Esta semana fomos todos pra Sampa, de carro. Levou 11 horas, com as paradas pro bacuri mamar. Foi um inferno, mas valeu a pena. Vimos alguns apartamentos, e em breve podem pintar novidades. A localização é perfeita para a retomada de um hábito antigo, desenvolvido no Starbucks de Oxford, que envolve substâncias negras e a discussão de temas candentes como o Homem Aranha, o Bourdieu, e a interpretação de sonhos.

Notado pela Sra Amiano:

1. O sujeito trabalhando na obra aqui do lado estava assobiando uma ária de Carmen ontem à tarde.

2. A barraca da praia onde compramos água de coco está tocando música clássica a pelo menos uma semana.

… versão Afeganistão. Resenha do livro In the Graveyard of Empires, de Seth Jones, cientista político da RAND Corporation no New York Times. Como quase tudo que diz respeito ao fiasco das operações militares americanas nos anos Bush II, a conta é colocada na administração do Pentágono de Donald Rumsfeld: a decisão de mandar poucas tropas, a falta de investimentos e gestão na reconstrução do país, e o início das operações no Iraque são as causas principais. Permitiram a reorganização do Taliban, da Al-Qaeda, o envolvimento do Paquistão, a perda de apoio popular, a perda de apoio dentro da OTAN, etc etc. Eu concordo com tudo, mas tenho uma dúvida. Será que estas análises não são excessivamente confiantes que seguindo o recituário que conhecemos agora as coisas teriam dado certo? Que Rumsfeld e cia estavam errados desde o início é um fato, e muita gente boa já havia avisado. Mas será que uma intervenção nos anos Clinton, ou Obama, ou Roosevelt, teria tido resultado diferente? O autor (e  a maioria dos comentaristas) parte do princ[ipio de que sim, mas não custa lembrar que invadir o Afeganistão é uma coisa, controlar o país e dar uma cara civilizada ao governo é algo bem diferente. Britânicos e Russos fizeram o primeiro, falharam no segundo.