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Não, esse não é um post para expor minha visão contundente e super cheia de insights sobre o Wikileaks ou seu guru-mor, Julian Assange. Essa opinião, o dia em que eu formar, eu discuto aqui. É só para linkar o interessantíssimo (e longuíssimo) artigo deBill Keller, editor executivo do New York Times, sobre as relações do NYT com a organização de Assange. Cheguei aí via o Daily Dish, que tem um post que (para variar – acho que porque Sullivan está de férias) defende o NYT. Na época dos vazamentos dos documentos diplomáticos muita gente boa ficou de má vontade com o Times (às vezes exagerada, apesar de não injustificada), mas o artigo (apesar de obviamente parcial) é interessante até por isso: por apresentar as razões para o comportamento do NYT.

Um artigo interessantíssimo de Paulo Costa Lima no Terra Magazine (via blog do Nassif), sobre “Wave”, do Tom Jobim. Eu não entendo nada de música, então não posso julgar a análise feita. Mas de uma coisa eu tenho certeza: Pelé e Jobim são nossas maiores contribuições à civilização. Como se Shakespeare e Da Vinci tivessem vivido no mesmo país, atuando nos mesmos anos. Poucos países podem bater isso. É uma coisa estranha o Brasil (e não, não estou numa onda de otimismo – já faz tempo que eu acho isso): enquanto outros países têm grandes batalhas e mortandades como suas ‘datas nacionais’, as nossas são as conquistas na copa do mundo. Não é pouco…

Arqueólogos descobrem artefatos que podem sugerir que os primeiros homens já estavam andando por lá 125 mil anos atrás.

É difícil dar uma dimensão do quanto o mundo acadêmico brasileiro mudou nestes últimos 10 anos. É muito mais dinheiro, muito mais gente, muito mais qualidade, uma produção muito maior. Alguns dos comentários aos posts abaixo (sobre educação) foram, para mim, surpreendentemente pessimistas, então acho que está na hora de injetar um pouco de otimismo nesta discussão. Meus exemplos serão específicos, da minha área, mas tenho certeza de que eles podem ser generalizados. Aliás, nas ciências “hard” esse progresso é ainda mais antigo, especialmente em São Paulo, mas não só: eu me lembro de meus compatriotas cientistas em Oxford, dizendo que no final das contas estavam vendo que a distância entre as condições na Europa e no Brasil, apesar de grandes, não eram tudo o que pensavam – e mais importante ainda, não eram intransponíveis.

No caso da História Antiga, o progresso é evidente. O número de estudantes e pesquisadores é muito maior do que quando eu fazia o mestrado, no final dos anos 90. O número de centros expressivos também: UFRJ, UFF, UERJ, USP, UNICAMP, UFOP, UFES, UNESP-Franca, UFG, UNB, UFRGS, UEL – isso para ficar só nas que eu conheço. O número de encontros é absurdo: meu grande espanto é como os colegas fazem para ir a todos os encontros – e com mais financiamento, estes vão mais longe, interagem e trocam idéias de maneira mais frequente (nos anos 90, a gente só se encontrava no encontro da Associação Nacional de História, a cada dois anos). É claro que nem tudo é bom: tem muita bobagem sendo apresentada, mas tem muita coisa legal também. A crítica intelectual livre e franca ainda não é comum, como alguns comentaristas notaram, mas já acontece – e as pessoas que participam de congressos sabem disso e se preparam tendo isso em mente: ‘provavelmente ninguém vai me criticar, mas por via das dúvidas…’ Nesse sentido, já existe gente o suficiente fazendo boa história antiga no país, o que falta é integração. Mas tendo dinheiro, isso chegará com o tempo (e é claro, com os esforços que já vêm sendo feitos).

Existe a dificuldade em ter acesso a material de pesquisa: eu não conheço nenhuma biblioteca além da USP que tenha o CIL completo (quase: faltam os volumes novos sobre Roma e a Hispania), e nenhuma que assine o Année épigraphique. Mas qualquer pessoa que tenha apresentado um projeto pro CNPq sabe que pode inserir livros no orçamento, e muitas bibliotecas têm crescido de maneira expressiva com isso (a UFOP que o diga!). A Finep também financia expansão de bibliotecas, e nem vou falar da FAPESP e o espetacular FAP-livros, que quando bem utilizado pode levar uma biblioteca em poucos anos a se tornar um centro de referência (caso da área de medieval na biblioteca da FFLCH-USP, que digamos a verdade era uma porcaria 10 anos atrás). Falta muita coisa, e nunca seremos capazes de competir em bibliotecas com Harvard ou Princeton – mas dá para manter a biblioteca atualizada e diversificada.

Existem problemas: a própria expansão das bibliotecas é feita nos moldes errados. Ela aqui depende das pesquisas individuais dos professores, o que significa que nenhuma biblioteca no Brasil tem o Lexicon Topographicum Urbis Romae, quanto mais os volumes sobre o subúrbio. O dinheiro deveria ser regular, deveria ir para a biblioteca, e os bibliotecários deveriam ter alguma especialização na área, mas isso é um ideal – do jeito que está, já melhorou muito. Outro problema é algo apontado em comentários abaixo: a questão das línguas. Isso é válido tanto para as chamadas ‘fontes’ quanto para a bibliografia secundária. Faltam traduções, e eu fico surpreso em ver que poucas pessoas estão se envolvendo nisso. Por outro lado, com a Amazon e a Abebooks o estudante de mestrado já pode comprar muito mais livros do que eu podia. Aprender línguas é um desafio sim, mas não é impossível. Rigorosamente NADA impede um aluno de uma universidade com um departamento de letras de ir falar com o professor de Latim e pedir umas dicas, seguir o curso como ouvinte. Ou de comprar os livrinhos do Paulo Rónai para começar a estudar por conta própria.

O que falta no Brasil, e vai continuar faltando por pelo menos dois séculos, é tradição. Mas criticar os historiadores brasileiros por isso seria o mesmo que criticar um adolescente de 15 anos por ser novo. Não faz sentido.

Pode um livro sobre a alta Idade Média, escrito por um marxista interessado em modos de produção, publicado no início do século XXI, ser interessante? A resposta é óbvia (sim!!), e para explicar o porque eu resenhei o livro de Chris Wickham lá no Antiguidades Romanas.

Orhan Pamuk levantou dois pontos interessantes em um discurso feito na feira de livros de Jaipur. O primeiro é o de que ele se sente ‘rotulado’ por ser turco: quando ele escreve uma estória de amor, ele fala, ela não é só uma estória de amor turca – ela se refere a toda a humanidade. Esse rótulo reduz não só o apelo de sua obra (como se ele só escrevesse para turcos), como também restringe o alcance de sua mensagem. O outro ponto é o de que como as editoras inglesas e americanas traduzem pouco uma boa parte da literatura mundial é marginalizada – e com isso deixamos de conhecer boa parte da experiência humana. Esse é um ponto interessante, mas aí ele força a barra. Traduzir custa caro, pois requer mais do que contratar um tradutor. Esse tem que estudar, aprender uma língua, estudar sua cultura, e isso custa tempo e dinheiro. Traduz-se hoje mais do que em qualquer outro momento da história. Eu acho que poucos países podem se vangloriar de tantas traduções novas por ano quanto os EUA e o UK. Seria ideal que mais coisa fosse traduzida (eu preferiria para o português), mas o que Pamuk poderia fazer é usar sua posição de força – professor da Universidade de Columbia, em NY – para divulgar escritores de línguas minoritárias, e a partir daí aumentar o interesse por eles.

[Copiado do Facebook de um amigo irlandês]

Confused by the Irish political situation? Fear not: a letter in today’s Irish Times sets out the situation clearly: “If I understand the current situation, we now have a minority government led by a Taoiseach who was not elected by the people, but who became Taoiseach because he was elected leader of his party, but who is now no longer leader of his party. Is that correct? Is it legal? Is it constitutional? If so, do we need a new constitution? Does anybody know? Is this an Irish version of a French farce?”

Hoje, 25 de Janeiro, comemora-se o aniversário de Robert Burns, genial poeta nacional escocês. O Guardian tem uma matéria sobre o prato preferido de Burns, o Haggis. Eu escrevi algo sobre essa data e esse prato alguns anos atrás (na versão 1.0 do Amiano Marcelino). Em homenagem a Burns, e aos bebedores de whisky (acostumados a ver tudo dobrado mesmo), reproduzo aqui:

Hoje é o aniversário do poeta Robert Burns (nascido em 1759), o “bardo nacional escocês”. Burns escreveu poemas sobre diversos aspectos da vida escocesa, e é muito popular na Irlanda, Irlanda do Norte e Inglaterra. É claro que meu interesse aqui não é poesia, mas sim a celebração do aniversário, que normalmente envolve festas, jantares, e leituras de sua obra.

Em 2002, logo que eu voltei do Brasil pra Oxford (depois do Natal), meu orientador me convidou para almoçar no seu college. Lá chegando, quando vimos a comida, ele abriu um sorriso enorme e falou “Hoje é dia de Haggis!! É o aniversário de Burns!”. Ele então descreveu o tal Haggis, o prato que teríamos pro almoço, e eu não entendi nada. Comi feliz, tinha gosto de carne moída, e até gostei. Achei estranho que todos os fellows do college estavam bebendo whisky, e ele me ofereceu uma dose – é claro que eu recusei, está pensando o quê, quer me testar? A gente ia ter uma reunião logo depois do almoço!

Bom, é claro que depois fui me informar, e descobrir que Haggis, o prato preferido de R.B., consiste de miúdos de carneiro cozidos com cereais diversos, ervas, temperos, tudo dentro do ESTÔMAGO do carneiro! Só aí eu entendi o porquê do whisky – não tem nada a ver com Burns ser escocês, mas é para desinfetar a boca depois de comer essa gororoba! É claro que depois disso nunca mais me aventurei a comer Haggis, apesar de ter gostado do sabor. Mas da próxima vez será com whisky. [Depois de ter escrito isso já voltei a comer outras vezes, e posso afirmar: é uma delícia. Na Escócia você pode comer até Haggis fritters, que são fantásticos. Ah sim, o whisky realmente realça o sabor do prato, como o vinho faz para outros]

Anyway, a BBC tem uma página especial sobre a Burns Night, com muita informação. Para quem quer saber mais sobre Burns, existe uma enciclopédia online aqui , como toda a sua obra [o link não está mais funcionando, infelizmente; mas tem a wikipedia]. Por fim, para quem quer saber mais sobre a fina iguaria escocesa, tem um verbete na Wikipedia, com receita e história (aqui).

Enquanto eu digitava estas linhas, Terry Wogan, meu apresentador preferido na BBC 2, leu o seguinte poema, de Robert Burns [o Wogan já se aposentou - eu to velho, mesmo]:

Address To A Haggis

1786
Type: Address

Fair fa’ your honest, sonsie face,
Great chieftain o’ the pudding-race!
Aboon them a’ yet tak your place,
Painch, tripe, or thairm:
Weel are ye wordy o’a grace
As lang’s my arm.

The groaning trencher there ye fill,
Your hurdies like a distant hill,
Your pin was help to mend a mill
In time o’need,
While thro’ your pores the dews distil
Like amber bead.

His knife see rustic Labour dight,
An’ cut you up wi’ ready sleight,
Trenching your gushing entrails bright,
Like ony ditch;
And then, O what a glorious sight,
Warm-reekin’, rich!

Then, horn for horn, they stretch an’ strive:
Deil tak the hindmost! on they drive,
Till a’ their weel-swall’d kytes belyve
Are bent like drums;
Then auld Guidman, maist like to rive,
Bethankit! hums.

Is there that owre his French ragout
Or olio that wad staw a sow,
Or fricassee wad make her spew
Wi’ perfect sconner,
Looks down wi’ sneering, scornfu’ view
On sic a dinner?

Poor devil! see him owre his trash,
As feckles as wither’d rash,
His spindle shank, a guid whip-lash;
His nieve a nit;
Thro’ blody flood or field to dash,
O how unfit!

But mark the Rustic, haggis-fed,
The trembling earth resounds his tread.
Clap in his walie nieve a blade,
He’ll mak it whissle;
An’ legs an’ arms, an’ hands will sned,
Like taps o’ trissle.

Ye Pow’rs, wha mak mankind your care,
And dish them out their bill o’ fare,
Auld Scotland wants nae skinking ware
That jaups in luggies;
But, if ye wish her gratefu’ prayer
Gie her a haggis!

Qual universidade queremos? Qual aluno? Esse papo rola há um tempo aqui no blog, e voltou semana passada (sim, meia dúzia de comentários é um indicador de best selling post neste blog). Vamos por partes:

1. Eu usei a expressão ‘aluno crítico’, e diferenciei do aluno ‘preparado para o mercado'; acho que fui infeliz, ao menos em parte. Todo aluno que sai da universidade deve estar preparado para o mercado, algum mercado (e não só as automobilísticas). Quando nos séculos XV e XVI a elite mandava seus filhos estudarem em Padua ou Oxford, e eles só aprendiam latim, isso é porque quando voltavam para casa esse conhecimento era util para sua  inserção em seu círculo social/profissional. Ou seja, preparar para o mercado é um truísmo. Mas não pode ser só isso, e é esse “mas” que faz a universidade importante – algo mais do que uma escola técnica. Não existe nenhum motivo pelo qual um professor de história não deva saber música ou astronomia, ou que um engenheiro de produção não possa ser capaz de emitir alguma opinião inteligente sobre o sistema político brasileiro.

2. O problema é, como se forma esse aluno? Quem souber que me diga, mas isso não é o professor quem ensina. A universidade deveria ser o lugar onde o estudante vai aprender uma ciência (no sentido de conjunto de conhecimentos), e o papel do professor é justamente garantir isso. Se eu estou ensinando história romana eu vou passar um trecho da Guerra de Jugurta, de Salústio, para discussão em sala de aula, pois é lendo documentos como este que o saber histórico é construído. Mas eu vou também dar horas de aula expositiva sintetizando a pesquisa de diversos historiadores sobre a República romana, sua expansão imperialista e seus efeitos na sociedade itálica e mediterrânica. Eu, como professor de história antiga, não formo o tal ‘estudante crítico’, eu ensino história antiga. Mas na universidade, nos seminários, nas discussões em sala, no uso da biblioteca (e isso tudo é igualmente parte integral da universidade) o aluno deve ser estimulado e encontrar os recursos para aprender a olhar as coisas de maneira crítica. Isso não quer dizer ser de esquerda, nem discordar do professor, mas aprender a não aceitar o conhecimento como um “dado”. Eu posso dizer isso na sala de aula, mas ensinar isso na prática é outra coisa – e eu acho que o papel do aluno aí é mais relevante do que o do professor.

3. Nesse sentido, a minha experiência universitária no Brasil é muito desestimulante. Eu e meus colegas chegávamos na universidade, assistíamos as aulas, uma parada na xerox para pegar os textos, uma visita à biblioteca, talvez uma parada no bar, ou no bandejão, e depois trabalho/casa. Nesse sentido eu acho mesmo que precisamos de uma carga horária maior. Eu gostaria de poder ensinar mais história antiga, dois semestres ao invés de um, mas nem é por isso. Isso me leva à minha idéia de qual é a universidade onde eu gostaria de trabalhar (ou de ter estudado).

Uma universidade onde o aluno encontrassse condições e estímulos para passar o dia inteiro – se puder. Nem todo mundo pode; muitos têm que trabalhar, por exemplo. Mas esse é um dado de fato, o Brasil é uma sociedade assim. Mas mesmo quem trabalha, no dia em que tem condições, não vê estímulo para enfrentar a barreira do cansaço e ficar na universidade. Que tenhamos mais seminários interdisciplinares abertos ao público acadêmico (e não só matérias para alunos inscritos – ô obsessão com esses créditos!); bibliotecas decentes, limpas e bem ventiladas, com espaço para convívio e livros recentes; centros de aprendizado de línguas (Oxford tem um espetacular, onde além de poder fazer cursinhos regulares e intensivos você pode ir lá e aprender por conta própria, com cds, dvds, k7s, etc). Isso seria um incentivo enorme, os alunos estariam se qualificando para seus estudos e também para o mercado de trabalho. Isso seria importante para os professores também: eu ficava deprimido durante meu mestrado na USP, por ver que quase nenhum professor frequentava a biblioteca para ler livros (todos usam para retirar livros). Isso é uma lástima, perde-se a oportunidade de reunir num único prédio diferentes professores de diferentes disciplinas – desperdiça-se a oportunidade de interação, cafezinhos, discussões, projetos interdisciplinares, papos com os colegas e os alunos, enfim. Mas não é só isso. Se eu tivesse um escritório decente na minha faculdade (e não um dividido com 8 colegas), com boa internet e estantes para trazer meus livros de casa, não tenho a menor dúvida de que eu passaria meus dias no campus. Eu estaria lá para usar a biblioteca, conversar com amigos e colegas, etc etc.Eu iria querer assistir aos seminários onde dicsutiria com colegas convidados, na verdade esse seria um motivo para estar na faculdade.

4. Como bem observou o JP em comentário ao post anterior, os professores universitários já tem trabalho demais. Eu argumentaria, baseado na parca experiência própria e em observações dos outros, que os professores universitários trabalham em condições nas quais seus esforços são ineficientes. O nosso trabalho não é só a hora-aula, mas também tudo que está ao redor dela: ler, corrigir, preparar, arguir, redigir projetos, artigos, dar parecer, etc. Isso não vai mudar, e nem pode mudar.

 

Por algum motivo bizarro não estou conseguindo ler o post que eu escrevi hoje cedo, Sobre Educação E Humanidades. Se isso esiver acontecendo com você também, clique aqui – e deixe um comentário.

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