Esse não é um blog de política internacional, mas nas últimas semanas tem acontecido muitas coisas em países nos quais a Amiano Marcelino Corporation tem interesses diretos. No caso da Líbia, bom, minha tão sonhada viagem para visitar Lepcis Magna e Sabratha, que já era improvável, está ainda mais distante. E tem a Irlanda, onde a AmMarcCorp (como os investidores carinhosamente chamam esta empreitada) tem investimentos sérios em capital humano e dor de cabeça domiciliar (i.e., a patroa).
Domingo aconteceram as tão esperadas eleições para o parlamento irlandês, uma vez que o governo do Fina Fáil derreteu com a crise econômica, passando de uma maioria estável de anos para apenas 20 deputados (tinha 78 antes da eleição). A atenção da mídia e dos comentaristas políticos está a formação de uma coalização (ou não) entre o Fine Gail e os Trabalhistas (estes sim algo diferente, mas nunca fortes o suficiente para tomar um número expressivo de assentos).
Mas a coisa mais interessante em minha opinião foi a entrada do Sinn Fein na política da República. O Sinn Fein era o braço político do IRA, e seu líder Gerry Adams, por anos uma pessoa procurada, foi um elemento fundamental nas negociações que puseram fim aos ‘troubles’ nos anos 90, trazendo paz para a Irlanda do Norte. Mas o ressentimento contra os ingleses nunca passou, e Adams continua sendo uma figura controversa, especialmente na República (caos você esteja se perdendo, o Sul), onde a maioria da população via as ações do IRA com maus olhos. Mas raposa velha não tem esse nome à toa, e Adams aproveitou a crise política no vizinho do Sul para fazer com que o Sinn Fein ganhasse força na República também (13 deputados, contra o mainstream Fina Fáil e seus 20). O mais interessante é que Gerry Adams deixou seu assento no parlamento inglês para concorrer pelo condado de Louth, e foi eleito. Esse blog, seguindo a opinião de todos os irlandeses que conhece, vê esse movimento com uma certa preocupação (ao contrário da Time, que escreveu essa bobagem. Mas até aí, parece que os americanos pensam isso aqui da Irlanda). A entrada do Sinn Fein como um ator político expressivo na Irlanda – especialmente por ter sido arquitetada por Adams – representa a volta da República aos debates que esta havia deixado para trás nos anos 1970, quando começou a se modernizar e parou de apoiar veladamente o IRA. É um bruta retrocesso, ainda mais em época de crises econômicas.

4 comentários
Feed de comentários deste artigo
março 3, 2011 às 1:24 pm
João Paulo Rodrigues
Oi,
Por que um “retrocesso”? O Sinn Fein não tem uma plataforma baseada em certo soit disant igualitarismo economico? Isso não faria um bem para uma Irlanda deslumbrada demais com a via Tatcherita? Algo assim como lembrar aos irlandeses da sua história de exclusão da Europa e passagem para trás frente aos interesses de outras potências?
Abraço.
março 3, 2011 às 3:23 pm
gutomachado
Rapaz, eu acho um retrocesso porque – apesar da plataforma política dos caras nunca ouvi falar de nenhuma tentativa de fazer reformas sociais na Irlanda do Norte. Porque enquanto a República deixou a violência e o ódio de lado, a Irlanda do Norte permaneceu liderada por políticos e terroristas que exploravam a situação de lá para ganhos políticos pessoais. Fez parte da estratégia desse povo usar o ódio com a Inglaterra para dificultar qualquer avanço que reduzisse a violência. Gerry Adams e o pessoal do Sinn Fein fizeram isso. Quando eles largaram seus ex-companheiros e abraçaram o processo de paz (o IRa tem vários grupos ainda ativos, entre eles o Real IRA) eu achei que era uma grande coisa. Mas para eles largarem Westminster, onde podiam fazer algo para melhorar a situação de seus conterrâneos, para entrarem no dáil (parlamento) em Dublin eu acho que é porque eles querem aproveitar a crise política para tentar recolocar a unificação na pauta da República. Eu não conheço nenhum irlandês que não tenha horror a essa idéia. E olha, eu espero estar errado sobre tudo o que eu escrevi aqui. tudo o que eu sei é de conversar muito com família, vizinhos, amigos (meus e da mulher) e ler os jornais. Quanto aos irlandeses se lembrarem de sua história, não se preocupe – e não compre a idéia de que eles se converteram ao tatcherismo. Eles sempre se lembram dos problemas de sua história, são obcecados por isso.
março 3, 2011 às 9:18 pm
João Paulo Rodrigues
Oi Amiano (nunca sei qual nome usar aqui),
Eu escolhi mal as palavras. Evidente que a generalização que usei não é válida, mas eu somente quis especular superficialmente, algo assim no vácuo, sabe? Só para ver se de um contra-raciocínio, vc, que obviamente conhece muito mais da Irlanda que eu, avançava mais no tema.
Eu, por exemplo, achava que o pessoal do Sinn Fein tinha uma boa penetração na Irlanda, apesar deesta não querer a unificação (e, bem, a maioria dos norte irlandeses tampouco o quer). Mas, e aqui especulo livremente de novo, em direção ao incerto futuro, e era um pouco isso que eu pretendia, já que uma vez, pelo menos até os 40 (certo?) uma boa parte dos irlandeses tinham em certa conta a unificação; especulo e pergunto: será que uma crise que se aprofunde não pode levar a repopularização dessa ideia, na base meio “clássica” (aspas à vontade) dos irredentismos nacionalistas como respostas às crises “liberais” (sim, entendi a puxada de orelha do próximo post, mas me parece que há certa identificação da crise com as medidas de ajustes ortodoxas, não é mesmo)?
Outro abraço.
março 4, 2011 às 12:31 am
gutomachado
Oi João Paulo, talvez o que tenha me feito escrever o post seja o fato de que, olhando para os últimos 5 anos, o número de votos que o Sinn Fein conseguiu, e principalmente a movimentação do G.Adams foi sim uma surpresa. Mas o ponto que você levanta é interessante sim, e eu agora vou ter que começar a olhar para isso. Colocando de maneira menos sofisticada do que você, antes a República olhava para o Norte e pensava “você está na merda, eu tô saindo/já saí”; agora é “estamos na merda”
A i´déia pode ganhar em popularidade sim. E eu nem excluiria a possibilidade de que isso dê em algo bom. Acho que não é o que está acontecendo agora, com estes caras, mas eles não vão estar aí para sempre!