Matéria muito interessante no New York Times de hoje, sobre o departamento do governo inglês que cuida de medicamentos e seu uso pela seguridade pública, o National Institute for Health and Clinical Excellence, ou NICE. Uma sigla idiota, mas a discussão importante. O instituto foi criado pelo governo inglês para fornecer orientação para que tipos de remédios e tratamentos podem ser custeados pelo NHS, o serviço de saúde pública de lá. A questão é moralmente complicada, e é difícil formulá-la sem parecer um mostro: até que ponto vale a pena gastar dinheiro público para financiar um tratemento que não se sabe se terá algum efeito, ou cujo efeito será apenas limitado? Um bom exemplo é dado na reportagem: se você tem câncer, está à beira da morte, e uma droga pode estender sua vida por mais seis meses, ela será a) certamente comprada, se o tratamento custar até 10 mil libras; b) provavelmente comprada mas isso vai ser analisado, se o tratamento custar até 20 mil; c) esquece e chama o padre, se custar mais do que isso (ok, não é exatamente assim, mas essa é a idéia).

É interessante, porque a reportagem menciona o governo brasileiro como tendo sido influenciado por essa política (mas não dá exemplos específicos). O problema com a reportagem é que ela coloca o foco da controvérsia no ponto errado, na minha opinião. O governo brasileiro ameaçou quebrar a patente de medicamentos ligados ao combate à AIDS, e com isso conseguiu enormes descontos. Essa é uma questão política importante, e eu sinto muito, mesmo o liberal mais renhido (este que vos fala, por exemplo) tem que admitir que governos estão cumprindo seu dever quando colocam esse debate – ou, para usar uma linguagem mais precisa, botam o pau na mesa. A reportagem do NYT chega a falar de um medicamento cujo preço aumentou 30 vezes conforme seus benefícios ficaram mais evidentes, mas apresenta a opinião dos donos das empresas com a mesma frieza que oferece a opinião dos chefes do NICE. Eu entendo isso, mas o fato é que algumas coisas precisam ser definidas como um problema político (até que ponto a nossa comunidade pode deixar seus membros morrer e empresas privadas lucrar com isso) ao invés de um problema puramente econômico (oferta x procura).