Uma coisa perturbadora da língua alemã é que ela não é nem exótica o suficiente para ser impenetrável, e nem familiar o suficiente para ser absorvida automaticamente. Isso é uma coisa que tem me incomodado muito nos últimos tempos. Existem diversos graus de opacidade de uma língua, e isso é uma das coisas mais legais de se viajar ou se mudar de um país pro outro.

Explico: enquanto na Turquia a língua é completamente incompreensível para mim, o fato de os turcos usarem o alfabeto latino torna tudo mais fácil. Se eu sei o nome de uma rua, eu consigo encontrá-la no mapa, e depois identifico na plaquinha na esquina. As palavras podem ser incompreensíveis, mas a ‘palavra’, o que está escrito, pode ser ‘lido’, mesmo que o significado não seja entendido. É o oposto do chinês, onde os símbolos apresentam variações tão sutis que qualquer coisa que esteja escrita parece ser qualquer coisa. Aos poucos você começa a identificar alguns sinais, como Beijing, nas placas de carros, e Tianjin, e aí percebe que o Jin (ou Jing) têm o mesmo símbolo. Mas a língua é completamente incompreensível.

O problema com o alemão é que a língua não é incompreensível. Eu estudei alemão por uns dois anos quando era adolescente, e me esqueci de quase tudo. Eu consigo ler com um dicionário, e quando ouço uma palestra sobre meu assunto consigo acompanhar. Mas quando as pessoas falam na rua, a língua passa da categoria de ‘difícil-mas-administrável’ para a categoria ‘mas-que-porra-é-essa’. Meu cérebro, que já não precisa de muito incentivo pra isso, se desliga, e a língua vira chinês.  De uma certa maneira os alemães já esperam por isso: cada vez mais livros são publicados em inglês, eles anunciam empregos acadêmicos enfatizando que o professor não precisa saber alemão, etc. Mas isso não ajuda a longo prazo, e coloca o problema de qual será o futuro da língua deles.