Está rolando aqui em Heidelberg o concurso para professor titular de arqueologia bizantina. O departamento é um dos mais importantes da Alemanha, e o concurso atraiu bons candidatos. Segunda-feira assisti as provas de aula do Franz Alto Bauer, que escreveu um livro importantíssimo sobre espaços públicos em Roma, Constantinopla e Éfeso na Antiguidade Tardia, e do Jonathan Bardill, cujo livro sobre os tijolos de Constantinopla (é sério!) é tão chato quanto é importante (muito).

A dúvida que eu tenho é se realmente vale a pena o esforço. O departamento de História Antiga e Epigrafia, daqui, é o mais prestigioso da Alemanha. O governo alemão elegeu Heidelberg centro de excelência, então a biblioteca é estupenda. Os alunos são inteligentes, e não falta dinheiro. O problema é que para manter essa estrutura funcionando, existem basicamente 2 professores titulares e 4 privatdozenten (sem contrato), e 4 Mittarbaiter (basicamente, pós-doutorandos). Ou seja, só dois (os titulares) são permanentes. A pressão sobre estes caras é enorme: o financiamento na Alemanha é feito através de projetos, que precisam cada vez maiores e mais complexos. Os titulares, que  dirigem estes vários projetos, precisam assim trabalhar como administradores a maior parte do tempo, pois os prazos são curtos, existem os bolsistas, e as conferências e livros que devem sair daí.

Os titulares colocam enorme pressão nos pós-doutorandos, pois não têm influência sobre os sem contrato. Os sem contrato são aqueles que depois do doutorado já fizeram a Habilitação, uma segunda tese, completamente diferente do doutorado, que te dá o direito de se candidatar pra um emprego permanente. O problema é que para não perder esse título você precisa dar aulas ao menos 6 meses por ano, virando assim mão de obra barata (se vc não trabalha, vc perde o título), e algumas universidades nem mesmo pagam estes pobre coitados. Os pós-doutorandos são os que recebem uma bolsa por 5 anos para escrever suas teses de habilitação, mas precisam ensinar, e acabam sendo forçados pelos titulares a assumir várias funções administrativas, o que (literalmente) os impede de escrever qualquer coisa.

O inferno é pior porque o sistema alemão é muito hierárquico: os pos-doc são inferiores aos sem contrato, que são inferiores aos titulares. Ninguém se chama pelo primeiro nome: é Herr Professor pra cá, Herr Dr pra lá. E olha que Heidelberg é uma universidade moderna, a maioria do pessoal aqui estudou por um período na Inglaterra ou EUA. E são todos simpáticos, e abertos a novas idéias. Mas o sistema se impõe, e é triste ver que ninguém aqui diz ser contente com o que faz, quando eu pergunto.