Bosta, depois de tanto tempo sem escrever aqui a primeira coisa que encontro na minha lista de “a fazer” é esse meme que ex-mestre agora doutor NPTO mandou pra mim. O objetivo é listar seis segredos, coisas que eu preferia que o mundo não soubesse sobre mim. É sério. Então vamos lá.

Clique abaixo para ler a humilhação

1. Vamos começar com o pior, que assim eu já me livro disso; essa estória anda me atormentando há muito tempo: segundo ano do científico, lá no ABEL, prova de química. Apesar de meus pais serem químicos, eu sempre fui um prodígio na arte de não entender a tabela periódica. Mas eu vinha estudando, e estava confiante do meu taco. Parte da prova era múltipla escolha, e foi a primeira que eu fiz. Faltou uma questão, e eu achava que a resposta era a letra C. Eu estava cercado de amigos, e todos tinham a mesma ineptitude química que eu. Foi então que ouvi alguém sussurrando “22 – C”. Era o que eu queria ouvir, mas quem disse foi um amigão cujo conhecimento de ciências não passa de colocar redoxon na água. Eu sabia quem era a fonte de informação, o Sérgio, que não gostava de dar cola. Eu perguntei pra ele: “Sérgio, a 22”. E nada. “Sérgio, a 22”. E nada. Na quinta tentativa, “Sérgio, a 22”, veio a resposta, “É”. E o idiota aqui tacou a letra E. O pior é que meus amigos depois, conferindo a prova, me perguntaram o que eu tinha marcado, e eu tirando onda avisei: “Foi o Serjão quem disse”, e ele “Não, sua mula, era C!!!”. Eu já tentei esquecer essa estória, mas as testemunhas ainda insistem em me lembrar disso. Ao menos, no dia em que eu encontrar a cura pra AIDS e pro câncer, resolver a crise no ORiente Médio, ganhar o Nobel de Economia das mãos do Krugman e for eleito presidente da liga intergalática com voto do Sarney e da Marina da Silva, essa estória vai me ajudar a lembrar quem eu realmente sou.

2. Eu tenho medo de Vampiros. Mesmo. Não tinha quando adolescente, li A Hora do Vampiro, tradução ridícula de Salem’s Lot do Stephen King, achei Drácula meia boca, mas hoje em dia perco o sono e acendo a luz. É uma merda. Eu sei, é ridículo, irracional, etc. Eu costumava acordar gritando quando estava lendo The Historian, da Elizabeth Kostova.  A Liz me sacaneia muito por isso. Mas se você que está lendo for um vampiro, por favor, eu sou um cara legal e respeito muito sua espécie, viu? Numa boa!

3. Terceiro período da faculdade de administração (aliás, esse é outro segredo, eu abandonei aquela bosta), 1992, eu e uns amigos fomos passar o carnaval em Guarapari. Meu apelido na época era Aiatolá Comeninguém, e vocês podem imaginar porquê. Guarapari. 1992. A Espanhola. Lambada.  O povo dançando. Uma loura linda, olhando para mim, deixando meus amigos com inveja. E eu não comi ninguém. Você cresce, aprende as coisas, mas não muda a natureza.

4. Início do segundo ano científico (aquele foi um ano glorioso), eu e uns amigos de Resende (minha cidade natal) resolvemos passar o carnaval acampando no Parque de Itatiaia. Nosso objetivo secreto era escalar as Agulhas Negras sozinhos (algo de que eu francamente duvidava, mas enfim). Levamos comida, duas barracas, etc. O pai de um amigo nos deixou num vale belíssimo, com um riachinho por perto. Colocamos a comida no riacho, dentro de sacos plásticos amarrados a pedras (“Assim a manteiga não derrete”, disse o Hugo). Fomos passear. Começou a chover. E choveu. E choveu. Voltamos pras barracas, ensopados, e tivemos uma visão dantesca. Tudo revirado, panela amassadas, objetos quebrados, e cocô de vaca por tudo quanto era lado. Estávamos acampando em um pasto, ou algum louco tinha levado suas vacas para acampar. Uma das barracas estava furada, e estava frio demais para dormirmos em barracas separadas. Obviamente, nenhum Daniel Boone no nosso grupo, ninguém trouxe saco de dormir. Além disso, estava frio. Muito. Fomos dormir 5 pessoas numa barraca para 3. E o frio continuava. De manhã, quando consegui abrir os olhos, ouvi um ruído de como se eu estivesse ao lado do rio Amazonas. Tchooooooooooo. Abro a barraca, e vejo que o riachinho virou um rio mesmo. E o rio levou nossa comida. A humilhação só terminou, no entanto, quando eu e um amigo (o Hugo, da manteiga) fomos sorteados para procurar um telefone para ligar pro pai dele (vem buscar!) e um restaurante para comprar quentinhas. Achamos uma pousada, muito romântica, e quando entramos os dois cobertos de barro e jorrando água, todos os casaizinhos ao redor da lareira pararam e olharam para nós, em uma cena digna de Sexta-Feira 13.

5. Eu não consigo mais dormir longe da Liz. O que é um problema, porque ela mora na Itália e eu moro na Alemanha. Mas hoje à noite ela virá pra cá🙂

6. Meu primeiro contato com a História Antiga foi patético, e ainda me envergonho disso. Primeiro semestre da faculdade, História Antiga do Ocidente na UFF, final do período. Eu tinha adorado a matéria, não tinha idéia do que era a vida além do primeiro período, mas tinha as palavras “fazer pesquisa” ressoando em algum canto da minha cabeça. Tomei coragem, esperei a professora do lado de fora da sala, e quando ela chegou eu disse a ela que havia gostado da matéria, que queria fazer pesquisa em História Antiga, e se ela podia me ajudar. Ela parou, gelada, e disse que isso era muito bom, que estava muito feliz, mas que seria melhor eu esperar mais um pouco antes de pensar em pesquisa. Problema 1: isso foi dito quando a turma inteira resolveu chegar na porta pra ver o que eu estava fazendo ali, e todos viram que a situação foi muito embaraçosa, constrangedora mesmo. Problema 2: no final da aula ela anunciou pra turma que tinha recebido 3 bolsas de iniciação científica do CNPq, e fez na frente de todo mundo os convites para três dos meus colegas mais próximos se eles queriam participar da sua pesquisa. É claro que eles toparam, mas depois ficou aquela mística de que eu era um fracasso. Se isso me marcou? Terminei a faculdade, fiz mestrado na USP, doutorado em Oxford e pós-doutorados em Roma e Heidelberg. Meus colegas? Uma virou professora de História da África na UFF mesmo, a outra secretária de planejamento da prefeitura de Niterói (não mais), e o outro foi ser político se candidatou a prefeito do Rio recentemente. Provavelmente as escolhas deles também foram motivadas pr aquela pesquisa…