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Não tem muito que resta ser dito a respeito da discussão que aconteceu ontem em reunião do Supremo Federal. O Noblat postou todo o bate-boca, inclusive o vídeo.  Agora ele observa que Barbosa disse o que muitos pensavam, e com isso a crise chegou ao Supremo, quando já estávamos acostumados à idéia de que era monopólio do Congresso. Pedro Doria celebra, mas reclama que a briga tinha que ter continuado, ou tudo ou nada: o perigo, segundo ele, é que de uma vestal adotemos outra.

Um modo de ler essa briga é dizer que a corrupção existe em todos os lugares, que o Supremo é tão sujo quanto o congresso, e que todo brasileiro é corrupto, como o Bolívar Lamounier disse em uma entrevista ao Pedro Dória. Essa entrevista tem me incomodado muito, e acho que vale a pena discutir estas idéias com mais calma, depois do pulo.

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Enquanto o mundo está à beira do colapso financeiro, nações do Oriente Médio continuam em guerra, o aquecimento global é cada vez mais sério e irreversível, cá estou eu, lendo as cartas de São Jerônimo. Não que isso seja irrelevante nesse contexto: Jerônimo é pródigo em comentários sobre o final dos tempos e a virtude de vestir túnicas de lã baratas e viver com os pobres.

Conitnuando o relato de minhas andanças pela Itália. A secretária da escola britânica marcou minha visita a Spello e Terni para o mesmo dia, no início de Março passado. Por incrível que pareça, o sistema de trens italianos é excelente. É claro, atrasos abundam, trens são cancelados, os vagões são sujos, etc etc. Mas quando vc pensa no número de trens circulando, a variedade de linhas, ligando lugares obscuros a lugares desimportantes, e o preço final de uma passagem, as vantagens são impressionantes. Os ingleses são incapazes de fazer algo igual.  Tanto Spello quanto Terni ficam na Úmbria, a Nordeste de Roma (mais Norte que Leste). Contra todas as previsões minhas e de meus amigos, foi possível visitar as duas cidades no mesmo dia sem carro, só de trem (e um ônibus).

Spello é… (clique no link para ler o resto, vai!)

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Pratica di Mare é parte do comune di Pomezia, uma cidadezinha perto de Roma: dirigindo, você pega a via Pontina e depois de 30-40 minutos pega a saída pra Pratica di Mare-Pomezia. Eu não fui ver a cidade principal, mas sim visitar a coleção de inscrições que, segundo minhas fontes, estava no Palazzo Borghese. A Sra Amiano estava comigo, e como chegamos muito cedo, decidimos ir até o pequeno museu da cidade. Segundo a tradição romana antiga, e até Virgílio, foi ali que Enéas, o cabra que fugiu de Troia e levou os troianos para a Itália (aventuras narradas na Eneida) antes de virar cardiologista, maluco de carteirinha e político no Brasil, finalmente aportou com seus barcos, depois de navegar por Cartago, Sicília e Su da Itália (no que deve ter sido um excelente cruzeiro do Mediterrâneo, com paradas no Hades e jantares com ciclopes canibais).

O museu é pequeno mas legal (vou falar do sítio arqueológico no Antiguidades Romanas), mas o mais legal foi visitar o Borgo, a fortaleza medieval pentagonal planejada por ninguém menos do que Antonio da Sangallo, um dos maiores arquitetos do século XVI italiano (especialmente para fortificações). O Borgo hoje possui uma pequena igreja, dois restaurantes excelentes, e parte da fortaleza é o chamado palácio Borghese. Eu achava que o nome fosse meio genérico, tipo a villa Borghese em Roma, que pertenceu à família Borghese. Os Borghese saíram de Siena, onde são atestados já no século XIII, e vieram para Roma, onde viraram cardeais, nobres e papas, além de terem se casado com a família de Napoleão quando este conquistou a Itália.

Mas qual não foi minha surpresa quando fomos recebidos por um senhor grisalho e mal humorado, o príncipe (os italianos ainda usam os títulos!) Borghese em pessoa. A princípio não querendo que a gente entrasse nos seus jardins para ver as minhas inscrições, ele foi logo dizendo que não tinha nada ali. Mas depois foi relaxando, até que ele virou pra dona Amiano e perguntou de onde ela vinha. Aí, foi a festa: italianos adoram os irlandeses, porque adoram falar inglês, porque a Irlanda tem um gênio nas relações públicas, e porque gostam de falar mal dos ingleses. Ficou tudo mais fácil. Até visitar o interior do palácio a gente conseguiu, o que foi espetacular.

No fim, um lauto almoço regado a vinho e voltamos pra Roma. Acho que não seria difícil me acostumar à vida de arqueólogo…

Está lá no Grobo: dois bandidos armados assaltaram uma turma do 8o período de Nutrição enquanto faziam prova no prédio do Centro de Ciência e Saúde, no Fundão. Eu acho que o Grobo, assim como a Óia, deveriam ser proibidos de falar das mazelas das universidades públicas, uma vez que são sempre os primeiros a subir no bonde do “ensino superior público é desperdício de dinheiro”. Mas essa notícia na verdade me lembrou de outra coisa: em 1997, ensinando à noite no IFCS-UFRJ, lá no Largo de São Francisco, eu comecei um período sem saber onde seria minha sala de aula. O instituto estava cogitando me colocar no terceiro andar, ou coisa que o valha, e os alunos me avisaram que lá não iam por medo de assaltos; eu teria que negociar com os traficantes e usuários de drogas que frequentavam a área. É óbvio que não negociei, e nem subi as escadas. Não sei nem se a estória era verdadeira, mas o fato é que sair do prédio à noite era como entrar numa cena de Blade Runner: crianças sem teto correndo nuas ao redor de uma fogueira, mulheres miseráveis de olhar vazio, uma festa.

Um interessante comentário postado no blog do Nassif.

Hoje de manhã, no ônibus, vi algo que não esperava fora de Niterói, a cidade onde urubu voa fazendo acrobacia pra chamar atenção (como diria o Stanislaw). No meio do trajeto, o motorista parou num ponto de ônibus, se evantou, saiu do coletivo, esperou o sinal abrir, atravessou a rua, foi à farmácia, pegou a encomenda da esposa e voltou. Isso é algo que só me acontecia no saudoso 47 da viação Araçatuba, o ônibus com maior coeficiente de moça bonita do estado do Rio, e na época o único que tinha rádio (permanentemente sintonizada na 98 fm). Bons tempos.

Como é que os romanos fizeram para acabar com o problema da pirataria no Mediterrâneo? Mary Beard discute o assunto.

(para mostrar que lembrar que gente boa também morre)

Continuando uma antiga série (lá no blog antigo), aqui vai mais um: o túmulo de Gramsci, no Cemitério Protestante, em Roma.

Túmulo de Antonio Gramsci

A foto está meio descentrada porque havia um grupo de estudantes visitando o cemitério, e o professor tinha cara de ser um velho marxista que, ao contrário do Boff, sabe das coisas. Que nem o Na Prática, que bem que podia voltar com sua série sobre o cara!

…escreve um artigo sobre o encontro do G-20 e as saídas oferecidas para a crise. As soluções visam apenas reparar o sistema, não representam um repensar ou reinventar da sociedade. Os graves problemas: a crise do meio ambiente e a crise social, não foram resolvidos. Eu não conheço os escritos teológicos de Leonardo Boff. Mas se forem do mesmo nível argumentativo, do mesmo rigor intelectual e tão inspirados quanto seus escritos políticos, o Ratzinger pode ficar tranquilo. Esse é o drama da velha esquerda brasileira. A revolução não veio, o sistema continua se reinventando, e os grandes líderes dos países centrais quando se reúnem estão preocupados com a crise financeira. Revolução por delegação também não dá certo. Talvez quando Boff entender que o Neoliberalismo não é a expressão política do capitalismo, as coisas comecem a andar para a frente.