Para quem não sabe, o que me mantém aqui em Heidelberg é um projeto financiado pela fundação Humboldt, para estudar a prática de dedicar estátuas em público no final da Antiguidade. A idéia é a seguinte: as cidades antigas eram cheias de estátuas (uma pequena fração é vista nos museus), e isso era mais forte nas áreas mais fortemente romanizadas. Estas estátuas não eram apenas ornamentos ou adereços (apesar de também embelezarem), mas representações materiais de relações sociais – entre clientes e um patrono, súditos e imperadores, homens de fé e seus deuses, entre oficiais e as cidades que governavam. Essa prática durou por quase toda a antiguidade, mas declinou e desapareceu por volta dos séculos VI e VII d.C. Não existe nenhuma estátua dedicada a uma pessoa viva no Ocidente, por exemplo, antes do século XIII (voltarei a isso quando falar de Cápua). O desaparecimento das estátuas, ou melhor dizendo da prática de erguê-las em locais públicos, marcou o desaparecimento de um tipo específico de sociedade e vida cívica.

O problema para esse tipo de estudo é que estatisticamente falando, apenas uma fração ínfima do número de estátuas deste período sobreviveu às destruições da Idade Média e do Renascimento. O que sobreviveu bem mesmo foram as bases sobre as quais estas estátuas eram dedicadas, geralmente blocos de mármore ou outra pedra calcárea com uma inscrição recordando o nome da pessoa homenageada, quem homenageou, porque, quando, etc. Meu estudo consiste em analisar estes objetos, como uma forma de entender a dinâmica social por trás de sua produção.

O mais interessante, para mim, é que meu projeto, que compreende todo o Ocidente romano entre 280 e 650 d.C., faz parte de um projeto muito maior, com base em Oxford, com o título The Last Statues of Antiquity. Foi esse projeto que pagou minha ida pra lá em Fevereiro, para encontrar Bryan Ward-Perkins e R. R. R. Smith e discutir os rumos do trabalho – além de mostrar serviço, pois conto com eles para pagar minhas vindas à Europa depois de retornar ao Brasil.