No fim do ano passado recebi uma grana para passar um mês na Itália visitando museus e sítios arqueológicos, para fotografar inscrições latinas, especialmente bases de estátua (como essa, da foto). O tema é obscuro e desinteressante, e é por isso que alguém está disposto a me dar dinheiro para viajar estudando esse troço – ninguém mais teria ânimo para fazê-lo. Meu plano era passar o natal na Irlanda com a patroa e família, e depois passar o mês de Janeiro em Roma, para visitar museus ao redor da Itália.

Doce ilusão! Desde a época do Renascimento estudiosos e colecionadores têm copiado, cataogado, e publicado inscrições latinas, e isso tornou-se sistemático a partir dos anos 1870, quando a Academia de Ciências de Berlim começou a publicar o Corpus Inscriptiones Latinarum, um catálogo com todas as inscrições latinas, de todo o Império Romano. Esse assunto é altamente nerdístico, mas eu recomendo olhar o site do projeto, que continua progredindo (lentamente): trata-se de um monumento à erudição e ao trabalho duro de gerações de estudiosos que se dispõem a passar horas em sítios arqueológicos espetaculares e museus eplendorosos ignorando tudo o que está em volta na esperança de entender se aquela marca naquela pedra é um A ou um B ou só uma marca sem sentido.

Bom, uma coisa que eu descobri é que meus ilustres predecessores não tomaram nota de tudo o que era útil: por exemplo, onde estão os objetos que eles viram. Outro problema: mesmo quando tomaram nota, isso foi feito 100 anos atrás, e isso é um problema em países como a Itália, onde tudo muda o tempo todo. Resumindo: ao invés de passar Janeiro viajando, fiquei trancado na Biblioteca da Escola Britânica, procurando catálogos de museus, revistas e jornais locais, qualquer coisa que pudesse me dar uma informação qualquer sobre onde estariam estas inscrições.

Ao final do processo, dotado de uma enorme lista de objetos para ver e museus para visitar, fui até a secretária da Escola Britânica tentar conseguir as permissões para examinar estes objetos – porque para fotografar antiguidades você precisa de autorização oficial, seja do museu ou da superintendência arqueológica do lugar. Resposta: volte no mês que vem. E assim começou a minha peregrinação dos meses que passaram.