Ontem sexta-feira santa, a patroa e eu fomos à Heiliggestkirche ouvir a Paixão segundo São Mateus, de Bach. A Paixão é realmente uma obra prima, mesmo para quem tem pouca paciência com o barroco (como eu), e especialmente a abertura (com coro) é emocionante:

A primeira coisa em que fiquei pensando é como, realmente, a Igreja tem razão em argumentar que o Cristianismo é um dos pilares da civilização ocidental. O quanto de nossa melhor produção artística, intelectual e científica estão ligados à Igreja e a ambientes eclesiásticos. É claro, pode-se falar de Galileu, Copérnico, Darwin, as diversas igrejas cristãs possuem um senhor currículo de cagadas e mostruosidades, de impressionar qualquer Hitler ou Stalin. Mas ainda assim, existem S. Tomás, Francis Bacon, Michelangelo, e Bach que jogam no time cristão. Eu estava nessa, quando chegamos à passagem em que Jesus é levado a Pilatos, e o governador romano discute com o povo se Cristo deve ser crucificado ou não, quando o coro canta “Sein Blut komme ueber uns und unsere Kinder” (“O Seu sangue venha sobre nós e nossas crianças”). Isso é uma citação literal do Evangelho de Mateus (27:25), e um tema favorito entre fascistas, Mel Gibson e filhos da puta do gênero. E é uma demonstração formidável do peso nefasto que o cristianismo traz consigo para nossa cultura. O século XVIII foi um período de várias paixões compostas para a sexta-feira santa, e a de Bach é apenas uma das mais famosas. Tocadas em uma igreja (pelo menos na Alemanha imagens de Cristo na cruz não eram tão comuns quanto nas igrejas barrocas italianas), na frente da paróquia, em um dia tão carregado emocional e espiritualmente, essa mensagem não podia levar a nada de bom.

Alguns meses atrás, meu amigo Na Prática causou certa controvérsia em um post rebatendo as afirmações de alguém que usou o argumento de que os judeus forçaram a crucificação de Cristo para dizer que existiriam razões históricas para persegui-los. Veja bem, o autor do post nao estava defendendo a perseguição aos judeus, só estava dizendo que existiam razões que explicavam isso. O Na Prática, que apesar de marxista e sociólogo mantém sua fé (o que merece meu respeito e também incompreensão🙂, argumentou muito bem, que não é isso o que o Evangelho quer dizer, etc. Mas o problema é que é isso o que o Evangelho diz, e é sobre esse tipo de fundamento que a Igreja católica e não só foi construída.

Eu não sou religioso, mas sou um apreciador de igrejas, cemitérios, Renascimento, Barroco (tirando a música), etc etc. Mas não há como negar que nossa herança foi constituída ao redor de ensinamentos interessantes que estão nos Evangelhos, mas também de coisas horrorosas que estão lá também. Bento XVI é tão crápula quanto Santo Agostinho, os caras que excomungaram a menina estuprada que abortou no Nordeste são monstros, mas estão todos na mesma tradição que nos deu Michelangelo e Bach. Isso não é exclusivo do Cristianismo. Os judeus têm seus monstros, e os muçulmanos podem ter produzido a melhor literatura do século IX d.C., mas o Corão tem passagens que fazem o autor do Levítico parecer um moderado.

O problema do Cristianismo não está em Cristo. Eu sou historiador da Antiguidade, e me irrito muito com meus colegas que ganham dinheiro escrevendo livros sobre o Jesus Histórico, e debatendo se foram os romanos ou os judeus quem condenaram Jesus à cruz, etc etc. Isso é non sense historiográfico. Existe UM bom argumento que me convence que existiu um cabeludo que liderava um movimento meio religioso meio hippie naquela parte do império romano (nem parte do império era direito, ainda tinha status diferente pra complicar). É o argumento de que o cara morreu na cruz. Veja bem, se eu quisesse inventar um deus, eu diria que o cara morreu lutando contra o mal, depois de dar uma surra no capeta. Dizer que ele morreu que nem um criminoso pobre é uma vergonha tão grande que só pode ser verdade.Mas o mais importante é que se Jesus existiu ou não, do ponto de vista do historiador isso não tem a menor relevância. A judéia era cheia de cabeludos com idéias esquisitas, e gente era condenada à cruz dia sim e dia não. Os evangelhos são exatamente uma resposta a este problema: como é que a gente vai fazer ess estória especial? Vinho, pão, milagres, cuidar dos pobres, das crianças, tudo isso era comum nas narrativas da época. O que vem depois, meus caros, é o que os homens fizeram com essa estória.

O que estou tentando dizer nessa ranzinzice toda é que usar os Evangelhos como argumento – seja para amar os outros ou tacar pedras nos judeus – é um caso de falta de rigor intelectual. No mínimo, é uma forma de excluir os não crentes do debate: a pré-condição para o entendimento passa a ser a fé. Se alguém quiser fazer isso, por mim tudo bem. Mas Bach, pelo menos, soube fazê-lo em grande estilo.