Não tem muito que resta ser dito a respeito da discussão que aconteceu ontem em reunião do Supremo Federal. O Noblat postou todo o bate-boca, inclusive o vídeo.  Agora ele observa que Barbosa disse o que muitos pensavam, e com isso a crise chegou ao Supremo, quando já estávamos acostumados à idéia de que era monopólio do Congresso. Pedro Doria celebra, mas reclama que a briga tinha que ter continuado, ou tudo ou nada: o perigo, segundo ele, é que de uma vestal adotemos outra.

Um modo de ler essa briga é dizer que a corrupção existe em todos os lugares, que o Supremo é tão sujo quanto o congresso, e que todo brasileiro é corrupto, como o Bolívar Lamounier disse em uma entrevista ao Pedro Dória. Essa entrevista tem me incomodado muito, e acho que vale a pena discutir estas idéias com mais calma, depois do pulo.

Os argumentos do Lamounier são estes: a corrupção cresceu no Brasil depois do crescimento econômico pós-1950. Isso é algo, ele diz, que acontece em qualquer país. Ou seja, existem os meios para a corrupção. A grande mobilidade social que marcou o Brasil neste período fornece a motivação para a corrupção. E finalmente, a falta de rigor nas leis oferece oportunidades para a corrupção.  O Brasil, segundo ele, vem de uma tradição (ibérica) de moral fraca, onde a Igreja era fraca, e onde a noção de lucro e interesse é considerada sob uma ótica negativa. Nosso DNA tem muito Rousseau e pouco Hobbes. Com isso não nos prevenimos contra  a corrupção, porque partimos do princípio de que o ser humano é bom.

Desde que li o Raízes do Brasil, do Sérgio Buarque, sempre senti um certo horror a estas generalizações sobre o caráter ou o espírito do brasileiro. A mania de falar do brasileiro, e do Brasil, como se fossem um ser a-histórico, é muito forte em uma tradição intelectual que costuma valorizar o ensaismo mais do que eu acho saudável (n.b., isso não impediu o aparecimento de algumas obras primas da sociologia e história em português!). A idéia de contrapor o Brasil e sua herança portuguesa aos EUA e sua herança anglo-saxônica não é nova, e nem pode ser identificada como esta ou aquela corrente de pensamento, marxista ou weberiana. Eu não sou um especialista no assunto, mas acho que essa idéia é fundamentalmente errada.

Aquilo que nós gostamos de chamar tradição liberal-democrática é algo recente: surgiu primeiro na Inglaterra, foi transformada nas guerras pós-revolução francesa, e se apefeiçoou no início do século XX, quando por uma série de motivos grupos outrora marginalizados adquiriram direitos políticos: trabalhadores, mulheres. Mais importante, essa é uma tradição em constante evolução. Mais importante ainda, essa evolução se dá em circunstâncias históricas concretas, e por isso é tão diferente em cada país, e em diferentes regiões de cada país. A França tem uma tradição democrática mais antiga do que a Alemanha, mas é mais próxima da Itália no patrimonialismo do que da Alemanha. E por aí vai.

O Brasil está sempre mudando. Eu deixei o país em 2001, e desde então não consigo deixar de me impressionar com as mudanças. Eu era um Fernando Henriquista muito desiludido, fiquei desesperançado quando Lula foi eleito, e acabei assistindo progressos formidáveis. Isso em 8 anos. Mas estas mudanças são mais amplas, e vêm já da época do Vargas, e especialmente dos anos 50 (ponto pro B.L., que disse isso). Dizer que o Congresso está em crise é um truísmo, e não serve de nada para alguém interessado em entender o sistema político ou a sociedade brasileira. Serve para vender jornal. Mas para um historiador da antiguidade, pelo menos, o que impressiona é que o congresso brasileiro, que nesta encarnação tem menos de 30 anos, está há uns 15 anos se expondo e sendo debatido abertamente pela imprensa e pela sociedade civil. Cara, se isso não é um puta progresso, eu não sei o que é. Eu não vou usar nenhum exemplo da História Romana, porque eu acho que a História não dá lições. Ela serve de test-case. 30 anos não são tempo suficiente para construir instituições políticas estáveis, para clarificar as regras do jogo, para montar partidos com programas políticos claros e decentes. A isso some-se uma estrutura social e econômica extremamente desigual, que inevitavelmente afeta o jogo político. O mesmoa contece em todos os lugares do mundo, só que de formas diversas.

Agora, para chegar ao Supremo. Eu sempre gostei de ler sobre política, sempre li obsessivamente. E não me lembro de ter lido tanto sobre o supremo quanto li nos últimos dois anos. O quee stamos assistindo de cadeira é uma enorme reconfiguração dos atores políticos, ecoômicos e do quadro institucional em que eles operam. Isso está sendo feito por baixo dos panos, mas um sinal de que a democracia brasileira avança a passos largos é que essas estórias teimam a reaparecer na esfera pública. Porque nossa imprensa (da qual vivo reclamando) é melhor, porque a polícia federal é melhor, e porque nossos políticos são muito melhores do que eram 20 anos atrás.

Nós podemos olhar para os países europeus e os EUA e reclamar do quanto ainda resta fazer. Mas eu, do meu ponto de vista de historiador do império romano (talvez a estrutura mais corrupta que já existiu, e que mesmo assim representou um momento mágico da história da humanidade por uns bons 5 séculos), me impressiono muito mais com o quanto avaçamos em relação a eles, de nossa própria maneira.