Em Março eu passei uma semana em Helsinki, e acho que mencionei isso aqui, mas nunca mais falei do assunto. Aqui vai.

Chegar na Finlândia em Março é uma experiência interessante. E isso não foi só porque a Lufthansa fez a gentileza de me presentear com um upgrade pra classe executiva. É principalmente porque você não vê nada, com a paisagem coberta pelas nuvens. Até que vc percebe que aquilo não é nuvem, é neve: enquanto na Alemanha a primavera já estava chegando, a Finlândia estava maravilhosamente coberta pela neve. Durante a semana em que estive lá, a temperatura esteve entre zero e 5 graus, e na semana seguinte me disseram que caiu para -20. Algo inédito para mim, o mar Báltico estava congelado (foto).

Meu objetivo em Hesinki era passar 5 dias pesquisando no departamento de estudos clássicos da universidade, a convite do fantástico Mika Kajava. Isso também envolveu dar uma palestra falando do tema no qual os finlandeses são grandes especialistas: inscrições latinas da Itália. Por isso me preparei para chegar lá no domingo, pois assim teria ao menos um dia para andar e explorar o lugar. E valeu à pena.

Helsinki é uma cidade bonita, apesar de o tempo frio e cinzento não ter ajudado. Meus dois edifícios preferidos são religiosos, a catedral Uspenski, construída na época da dominação russa (fotos aqui e aqui) e a inacreditável Temppeliaukio Kirkko, ou Igreja da Rocha. Essa foi construída nos anos 60, dentro de uma rocha no meio da cidade, e apesar de o exterior parecer um bunker (foto) o interior é fascinante: a rocha, o domo em fios de cobre, a sensação de amplidão, são impressionantes. Outro ponto alto foi a biblioteca central da universidade, construída como uma terma romana (aqui). Os finlandeses são simpaticíssimos (e as mulheres lindas), e eu confesso que não há como não adorar a terra dos Moomins.

A coisa mais útil que eu li sobre a Finlândia antes de aterrisar foi um conselho no Lonely Planet: os finlandeses são orgulhosos de seu país e ao mesmo tempo marcados por sua história (dominados pelos suecos e pelos russos), e por isso quanto mais você elogiá-los melhor. E não faltam motivos para elogiá-los. Cada vez que eu dizia para as pesquisadoras na facudade que eu tinha gostado de alguma coisa, elas sorriam e diziam “I am very pleased to hear that”. Outra coisa: os finlandeses falam inglês perfeitamente, é impressionante. Outra coisa de que eles gostaram foi que eu sempre mencionava Penedo, a colônia finlandesa pertinho de Resende, onde costumávamos ir quando eu era criança. Todos eles ouviram falar de Penedo, e ficavam excitadíssimos quando eu a mencionava.

Um problema sério com o lugar: é caro. Eu só fui porque a viagem foi paga pelo projeto em Oxford. Um quarto em um albergue da juventude custava 60 euros (custa 15 em Nápoles, e você não tem como comparar as duas). Um prato de massa, 20 euros. Me levaram para jantar depois da palestra, e a conta foi (eu nçao contive a curiosidade e tive que olhar) 200 euros, para três pessoas – um bom restaurante, mas só.

Eu também fiquei impressionado com a língua. O Finlandês faz parte das línguas Fino-Ugrias, e seu único parente é o Húngaro – mas meus colegas Húngaros juram que são incapazes de entender os finlandeses, pois as duas se separaram uns 3 mil anos atrás. Foi só com a reforma protestante e os esforços de Mikael Agrikola para traduzir a bíblia que alguém tentou colocar o finlandês por escrito (o que aconteceu em outros lugares também). Com a dominação sueca, entretanto, o finlandês permaneceu marginalizado (o sueco ainda é uma das ínguas oficiais do país), e foi só com a publicação do Kalevala (uma coleção de poemas épicos com origens legendárias), no final do século XIX, que o finlandês foi definitivamente sistematizado. Para efeitos práticos, é uma língua impossível de ser aprendida por alguém como eu. Uma finlandesa me disse que eles têm 17 casos para declinar (o latim tem 5), e que a diferença entre o finlandês e o sueco é que na Suécia usa-se mais consoantes (e por isso soa mais ríspido), enquanto o finlandês usa mais vogais (soa mais doce). Eu observei, no entanto, que isso é injusto. O Finlandês usa tantas consoantes quanto o sueco, mais todas as vogais que eles conseguirem enfiar na palavra.