Eu estava pensando em como escrever este post já há algum tempo. Acho que desde que comecei a me preparar pra deixar o Brasil, quando recebi a notícia da bolsa de doutorado em Julho de 2001. Parti no final de Setembro do mesmo ano, e com o passar do tempo voltei cada vez menos. Mas sempre pensei no dia da volta. Agora o Idelber Avelar escreveu um texto muito legal, sobre ser expatriado, e voltar pro Brasil, aqui. Eu escrevi um comentário, mas tem mais coisa que precisa ser dita…

 Eu nunca pensei que fosse voltar pro Brasil nesse contexto. Algumas mudanças (algumas muito doloridas) eram de se esperar: algumas pessoas não estão mais por lá, outras se casaram, outras se formaram, outras se mudaram. A casa onde eu morava não existe mais, nem o apartamento onde morei depois, nem a namorada que de quem eu gostava tanto espera por mim. Mas tem mudanças que eu não esperava: a esposa que eu amo tanto e que volta comigo, o filho que deve nascer nos próximos dias, os amigos, as coisas, as comidas, etc, que conheci e aprendi a gostar. O Bill Bryson disse que um grande desafio para o expatriado é voltar pra casa. E é verdade.

Eu andei os últimos dias puto com o CNPq, porque eles decidiram que não vão pagar minha passagem de volta. Eu estou fora do prazo, disseram. Mas eles estão certos. Vai sair caro, mas não tem preço que pague o que eu fiz por aqui, graças a eles (ao menos no início). Nos últimos anos o programa de bolsas no exterior tem sido muito criticado, tanto por aqueles que estão no Brasil quanto pelos próprios bolsistas. Do ponto de vista dos bolsistas, isso é uma estupidez: um país que nem o Brasil (nenhuma Noruega) pagou as taxas para um doutorado em Oxford (11 mil libras por ano em Humanas?), mais uma bolsa de 740 libras por mês, por quatro anos. Pagou a passagem de ida e só não pagou a de volta por que eu não voltei na hora certa. Isso me deu a chance de fazer contatos, publicar livros e artigos, explorar temas e problemas que jamais imaginei poder explorar. Volto para o Brasil com mais contatos e mais instrumentos do que muitos dos meus colegas de geração. Do ponto de vista de quem ficou no Brasil, criticar o programa também é estúpido: depois de 8 anos fora, eu trago contatos, colaborações, experiências, pesquisas e publicações que estou doido para dividir com os alunos que por acaso algum dia eu venha a ter.

Dito isso, existe a outra questão: e o Brasil? Voltar para o Brasil não vai ser fácil, e isso não é só porque aqui eu tenho uma biblioteca que tem tudo e a vida é tão tranquila. Voltar vai significar confrontar o fato de que eu sou brasileiro, de que faço parte “disso aí”, que eu furo o sinal, fico irritado quando vejo quanto pago de imposto, me sinto des-representado pela classe política, etcetc. Uma vez eu brinquei com um funcionário da embaixada do Brasil, que disse que eu tinha que justificar que eu não votei. Eu disse “quem tem que justificar são os que votaram!”, e nós rimos. Mas agora eu terei que justificar também. E isso é incômodo. Além disso, trazendo uma esposa e um neném que não têm a menor culpa pelo fato de eu ser brasileiro, isso dá medo… E se a mulher é assaltada no primeiro mês? E se os pais dela vêm visitar e um bandido mostra uma arma? 

Mas, como eu escrevi no blog do Idelber, existem coisas que não tem preço. Tomar um chopp na praia de São Francisco em Niterói, a Guanabara e o Rio logo ali… Ver o povo se juntando na entrada do Caneco Gelado do Mário pra tomar cerveja e comer bolinho de bacalhau depois do trabalho… O churrasgato de filé miau servido nas esquinas em Guarulhos, no caminho do aeroporto pro centro de São Paulo, e o povo ali rindo e comendo e discutindo o futebol… O problema do Brasil é esse. Mesmo com toda a encheção de saco, com toda a irritação, é fácil ser feliz aí.

No final das contas, acho que vai valer a pena.