O grande Hermenauta fez um post desenvolvendo uma resenha do NPTO (na verdade é uma idéia cara a este último, e que me agradaria também), no qual ele (o Hermenauta) apresenta uma planilha de Excel mostrando o que teria sido o congresso brasileiro em 2002 se ao invés da aliança com PMDB, PP, PTB etc, o PT tivesse se aliado ao partido que em tese lhe é mais próximo: o PSDB. Como os números do Hermenauta mostram, essa aliança (que seria na tese do NPTO a mais racional em termos de projeto político) não bastaria para dar ao governo maioria no parlamento, apesar de sua “pureza” política e ideológica. O governo não teria assim a condição básica para a governabilidade e a implementação de seu projeto. É um post muito interessante, com o qual eu concordo mais do que discordo. Mas tem 2 pontos que eu acho que deixam a discussão mais interessante, não mencionados pelo Hermenauta – digamos, duas questões metodológicas: (abaixo do fold)

1. Somar o número de parlamentares dos dois partidos não faz justiça à complexidade da realidade política brasileira. Uma aliança PT-PSDB certamente carregaria parte do PMDB (a mais interessante, do meu ponto de vista) o PV, parte do PDT, e o mesmos e daria mais à direita. O projeto do governo teria mais do que isso amplo suporte populare ao menos de parte da mídia, uma vez que tratam-se dos dois partidos mais próximos de uma social democracia de centro que temos. Sinceramente, eu acho que em termos de controle do congresso PT-PSDB poderiam até não passar o rodo, mas levariam quase tudo.

2. A questão é justamente essa: se PT e PSDB são em tese aliados naturais, porque a natureza não se faz realidade? Porque a história é sempre um fator não desprezível, e a história política do Brasil de 1980 pra cá fez com que estes partidos se tornassem próximos mas também inimigos mortais. Como alguns dos comentaristas do Hermenauta comentaram, a aliança entre PSDB do FHC pós Real e PFL do Marco Maciel tinha um líder natural. A do PT do Lula e a do PMDB do Michel Temer também. A aliança do PT do Lula com o PSDB do FHC não teria esse líder natural. Seria uma estória digna do império romano: Caracala mata Geta e reina sozinho, ficando maluco no final.

Eu acho que a única aliança possível seria entre uma parte do PSDB e uma parte do PT. Não acho isso realizável, no entanto, e nem mesmo desejável. A democracia brasileira sai mais forte com estes dois partidos, e se de 1994 para cá o que temos visto é uma radicalização muito forte entre os dois, eu acho que essa é uma condição passageira. Mesmo em SP, onde os dois são rivais mortais no momento, isso vai passar (o que obviamente não posso demonstrar). O PSDB do Covas sempre se aliava ao PT contra o Maluf. Por outro lado, acho ótimo que haja um espaço institucional para que “social democratas” possam dialogar à direita, assim como é fundamental que haja um espaço para “social democratas” possam dialogar à esquerda. Existem diferenças importantes entre os governos FHC e Lula, mas também existem continuidades fundamentais. O debate levantado na imprensa e em alguns blogs sobre continuidade ou ruptura é falso, porque foi colocado em bases falsas: “O Lula fez algo de novo que seja bom ou é tudo devido ao FHC?” Nossa democracia atingiu um nível de maturidade que exige continuidades, assim como permite diferenças. O Lula fez um governo diferente exatamente porque soube dar continuidade a algumas políticas chave do FHC.

Os 8 anos do FHC me decepcionaram porque eu era e sou um admirador convicto do PSDB e do FHC, mas é verdade que foi um governo que operou em um momento muito específico: teve que construir a estabilidade econômica depois de décadas de loucura; teve que mostrar que havia instabilidade institucional para respeitar contratos depois dos anos Sarney e Collor; teve que dar continuidade à estabilização política e democrática, numa época em que ainda havia gente querendo o exército nas ruas (não mais contra os comunistas, agora contra os traficantes – no Rio, foram à rua e chegaram a concorrer ao governo do estado). Os 8 anos do Lula também decepcionam seus admiradores mais fervorosos (quase todos os meus amigos da academia, tirando o NPTO), porque está operando em outro contexto.