Hoje em dia tenho cada vez menos tempo para ler livros de história gerais, grandes narrativas, etc. Uma gripe em Dezembro me deu a oportunidade de ler um livro que havia dado ao meu sogro, mas que há muito eu queria ler: The War of the World, de Niall Ferguson. Ferguson é um especialista em história econômica de Harvard, mas alguns de seus livros recentes tiveram temas militares. Esse livro é uma combinação dos dois temas: o século XX foi o período mais violento da História, e isso tem a ver com os desenvolvimentos científicos, tecnológicos e (porque não) nas técnicas de gestão de recursos e processos de produção. Ferguson narra os grandes conflitos que abalaram o mundo entre 1914 e 1956 como parte de um processo triplo: o ódio étnico, a desagregação de impérios e mudanças econômicas rápidas (crise, para ele, não quer dizer necessariamente que as coisas vão mal). Como pano de fundo, o que ele traça é a ascensão do poderio americano e seu eventual declínio frente à China (!).

O livro não é baseado em uma pesquisa original de documentos, apesar de incorporar documentos novos (como da União Soviética), mas é cheio de argumentos que ao menos para um não especialista (eu) são originais. O final do século XIX foi marcado pela desintegração dos impérios europeus. O declínio político destes impérios levou a incertezas e a rivalidades, que foram aumentadas pelo ódio étnico. O mais interessante nesse momento é que a Europa passava por uma fase de forte integração étnica, como Ferguson mostra a respeito da análise dos npumeros de casamentos entre judeus e gentios na Alemanha e Polônia. A abolição das barreiras entre estes grupos foi agravada pela crise dos impérios dentro dos quais eles se acomodavam. Para Ferguson, a I Guerra foi tudo menos previsível – contra uma tendência comum na historiografia, ele mostra que ninguém esperava a guerra, e mesmo quando ela começou os governos europeus esperavam que ela terminasse com um armistício nas primeiras semanas.

A brutalidade da guerra é um ponto que Ferguson enfatiza bastante: o ódio inter-nações cresceu ao mesmo tempo que entre etnias. A ascensão de Hitler na Alemanha e de Stalin na URSS é mostrada como o movimento que torna estes processos políticas de governo. Stalin foi tão cruel quanto Hitler, antecipando várias das perseguições feitas pelos nazistas. As análises de Ferguson sobre a política covarde das potências européias é excelente, assim como sua discussão do inacreditável erro de Stalin em confiar em Hitler: o sujeito paranóico que matou todo mundo por não confiar em ninguém foi confiar logo no maior mentiroso da História.

As perseguições étnicas, feitas por Stalin, Hitler, Mao, etc etc são um tema constante no livro de Ferguson. Ele parece gostar do assunto, às vezes até demais, mas o livro é excelente. Um ponto forte é a incorporação de fontes literárias, memórias e autobiografias. Ferguson faz isso muito bem (Hobsbawn, para citar outro historiador do período que escreveu livros sem usar fontes, teria muito a aprender). Outro ponto forte é a atenção dada ao oriente: a China e o Japão, mas também as Coréias e o Vietnã. O salto que ele faz no final é meio forçado: o livro termina argumentando que a abertura de Nixon para a China serviu mais aos interesses chineses do que do Ocidente. É um ponto interessante, mas me faz pensar que se esse livro tivesse sido escrito 25 anos atrás o mesmo ponto seria feito a respeito do Japão. Oooops, espera aí: esse livro já foi escrito!

Meu maior problema com esse livro, e com todos os livros que começam afirmando que o século XX foi o período mais violento e horroroso da História da humanidade é um só. Do ponto de vista de um historiador do império romano, ou da Idade Média, ou do século XVI, a idéia de que seres humanos podem viver num mundo onde existem em diversos lugares coisas como penicilina, educação gratuita, aspirina, direitos humanos, habeas corpus, ONU, internet, campanhas de vacinação, etc etc, é quase um sonho. Historiadores ainda não aprenderam a incorporar coisas boas em suas narrativas, talvez porque isso não venda livros. Equacionar o progresso espetacular dos últimos 100 anos com as calamidades e barbaridades feitas pelos homens e mulheres do século XX em uma narrativa balanceada ainda é, para mim, um desafio que os historiadores não conseguiram ultrapassar.