Essa semana foi dedicada a mudar de marcha: acabei um artigo que consumiu muito mais tempo do que deveria, voltei a trabalhar no projeto de pós doutorado (devagar…) e comecei a pensar nos concursos que devem vir por aí. É engraçada a situação de quem vai fazer um concurso no Brasil. Quando eu explico para meus colegas no exterior que o concurso envolve um aprova de aula (ah bom, lá também), uma prova escrita e a análise de currículo, eles tomam um susto: “prova escrita?”. Normalmente a prova tem um número razoável de pontos, +-10, que vão no meu caso do Egito antigo até a queda do império Romano. A idéia de que alguém vai estudar tudo isso e escrever algo que vá aém das banalidades e generalidades é simplesmente absurda, uma vez que você faz o doutorado justamente para se especializar. Mas isso não é o pior. Quando eu conto que existe um limite de pontos para fazer com publicações no currículo, que publicar vários artigos em uma revista de departamento obscura é uma estratégia melhor do que publicar alguns artigos em publicações estrangeiras de impacto, eles ficam ainda mais assustados. E ai de você se algum dos outros candidatos tiver dedicado o tempo que você dedicou para pesquisa a ser chefe de departamento ou, como aconteceu comigo uma vez, pró-reitor!  O objetivo destas regras, fique claro, é garantir a lisura do concurso, mesmo que como resultado a universidade acabe contratando um sujeito sem nenhum futuro acadêmico.

Mas aí eu comento com amigos aqui no Brasil que deve pintar um concurso e eles dizem “ah, com certeza você passa, um cara com um perfil que nem o seu…”. Mas isso também não é verdade. Depende de quem é a banca, qual o jogo político por trás do concurso. O diploma de uma boa universidade vale o mesmo que o de uma universidade porcaria, o ponto sorteado pode ser um que você não conheça tão bem, mas o tema da tese de outro candidato. E pode ser que você seja um bom candidato, mas não esteja bem preparado, é claro! Mas a expectativa de que você deve passar porque seria loucura você não passar é fundamentada na idéia de que o concurso não é o procedimento impessoal que o parágrafo anterior descreveu. O mais curioso é que as duas idéias são verdadeiras: o concurso para uma universidade pública é montado e regulamentado (por lei?) para ser impessoal e democrático, mas as pessoas que o aplicam não funcionam assim.

Em Oxford, em 2003, escolheram um novo professor de arqueologia romana. Na Inglaterra, o professor corresponde ao nosso professor titular. O professor de arqueologia romana de Oxford é talvez o arqueólogo de mais visibilidade na Europa. O cara que escolheram era do departamento mesmo, muito novo e com poucas publicações. Colegas de outros países reclamaram, que isso era típico de Oxford, inbreeding, snobismo, etc. Candidatos muito mais experientes, com muito mais nome e publicações foram deixados de lado. Mas a lógica de Oxford é que eles conhecem o cara: ele estava dando mais aulas do que todos os outros, é um excelente professor, bom orientador, e ótimo pesquisador. O cara tinha publicado poucos artigos, mas todos tiveram um impacto enorme, e foram no mínimo diferentes do que aquilo que arqueólogos normalmente publicam. Ou seja, o cara foi visto como tendo o potencial para ser um tremendo professor, e eles apostaram nisso. Eu não acho que nós devemos copiar modelos de outros países, mas seria formidável se um departamento de uma grande universidade pudesse ter mais liberdade na escolha de seus membros. Talvez se ao invés de regras que servem de álibi os professores de uma área fossem convidados a selecionar os candidatos com o perfil que melhor se encaixa nas necessidades deles, para depois fazer uma prova de aula e entrevista mais específica, o próprio conflito de interesses pessoais e políticos entre os membros da banca e do departamento garantiria alguma lisura para o processo.

Bom, eu não sei. Por via das dúvidas, me dêem licença que eu vou ali ler algo sobre os fenícios…