Muito tem sido escrito sobre a atuação do Brasil na América Latina. Normalmente, especialmente nos jornais e revistas, a discussão é sobre como nossa diplomacia perde todas ou quando ganha está do lado errado, que devia ter perdido. O Brasil do Lula é Chavista, socialista, apóia o Ahmedinejad, apoiou um dos golpistas em Honduras, é megalomaníaco de mandar tropas pro Haiti, mandar dinheiro pro Haiti, abre as pernas pra tiranozinho boliviano, etc. Agora aconteceu essa estória, em Cuba. Dissidentes cubanos presos mandaram uma carta pro Lula antes de ele visitar o país, pedindo sua ajuda em democratizar o país, ou pelo menos garantir direitos humanos pros caras e pra oposição em geral. Logo antes do Lula chegar, morreu um dos dissidentes.

O que acontece em Cuba é uma tragédia, e todos nós cidadãos devemos ficar revoltados com isso. Um post excelente é este, do Maurício Santoro, colocando Cuba no seu devido lugar: uma ditadura, com muito em comum com as outras que fizeram e fazem a festa em nosso sub-continente. Eleitores do PT, defensores históricos dos direitos humanos e das liberdades civis, devem tirar o dedo do rabo e fazer como o meu amigo NPTO, que primeiro pediu para os leitores pressionarem o governo e depois, diante do ocorrido, pediu que ao menos o PT faça a auto-crítica de maneira construtiva.

Eu não sou petista, mas também não gosto de ditaduras, nem de esquerda e nem de direita. Não votei no Lula, e minha antipatia pelo PT é antiga. Mas uma coisa eu preciso dizer: eu assino em baixo de quase tudo o que os caras estão fazendo em relações internacionais. Por “os caras”, quero dizer o governo, e não o destrambelhado do Marco Aurélio Garcia. Se tem uma coisa que a diplomacia brasileira tem a obrigação de fazer é o de entender o lugar do Brasil no mundo. No mundo não, em diversas esferas geográficas. Na América do Sul, na América Latina, na África, na Europa, até o Oriente Médio. Nossas relações com os americanos e os chineses, que é o que conta. Parafraseando um comunista, temos que ser idealistas na vontade mas realistas na ação.

Na América do Sul e na América Latina o tamanho e importância do Brasil são inegáveis. E nosso papel é claro: temos que servir de “via de escape”, de “irmão mais velho”, de contra-peso. O Brasil não pode repreender Cuba (por mais que eu gostaria), tem que segurar a onda com o Chavez, com os Kirchner, não pode ficar puto quando o Morales faz cagada. Porque isso desestabilizaria toda a política da região. Cuba tem o mundo contra ela. A União Européia pode se dar ao luxo de ser idealista aqui (eles não são com a Rússia, de quem dependem pro petróleo e o gás, mas a gente não reclama disso). Os EUA têm que ser contra Cuba. Mas o Lula tem que ir lá, posar para foto, dizer que apoia a democracia mas que o regime fez coisas ótimas (e notem que ele usou um subterfúgio picareta mas razoável, de não ter recebido carta nenhuma: se ele não sabia do que o Dirceu aprontava, não ler carta em espanhol é até compreensível!), e em privado pedir pros caras segurarem a onda. Cubá está falida, acabou a brincadeira. Mas cabe ao Brasil garantir que aquilo ali não vire um ‘failed state’.

O Brasil pode ser mais duro com o Chavez ou o Morales? É claro que pode! Pero sin perder la ternura, porque aquilo lá é um caldeirão étnico e/ou social, e se acontecer uma guerra civil vai ser uma desgraça (além do que, de um ponto de vista estritamente realista, nossas fronteiras iriam pro escambau). Outro dia destes um amigo oráculo me disse que a política do Brasil sempre foi jogar um país americano contra o outro pra não deixar ninguém forte demais. Mas o outro lado dessa política é que o Brasil não pode deixar ninguém fraco demais. Um exercício interessante que quase certamente irá acontecer é o caso do Suriname: um Estado falido, controlado por criminosos, sem instituições políticas, em breve sem Estado de direito. Eu posso dizer isso, mas o Itamaraty não. Mas o Brasil vai ter que intervir uma hora. Ter mandado tropas pro Haiti terá sido um importante fator legitimador quando nossas tropas atravessarem nossa fronteira setentrional. O Paraguai é um caso provável, mas deus queira que não aconteça: terroristas muçulmanos, traficantes de drogas, e um país que não consegue se erguer – onde o bispo come as fiéis e é eleito presidente!

A mesma lógica pode ser levada para o Irã e o Oriente Médio. Mas isso fica pra um outro post. Eu não sou especialista em relações internacionais, como qualquer um pode notar. Mas daí a não entender que o que a gente quer em termos de ideais e o que o país deve fazer em termos de diplomacia vai uma grande diferença.