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Não entendi: o governo leiloou o direito de construir uma usina no mínimo polêmica, onde muito dinheiro vai ser enterrado. A líder do grupo que venceu o leilão é uma estatal, e o BNDES vai financiar o que faltar (nas palavras do grande líder, “vamos fazer sem o mercado”). É o fim do domínio das grandes empreiteiras, saudou o timoneiro. Com a garantia do dinheiro público, estas mesmas empreiteiras voltam ao negócio. Ou seja, na hora de se definir quem arca com as responsabilidades, o grande capital privado sai do jogo. Assim que o governo anuncia que vai construir o Brasil grande com a pujança de nosso déficit, o grande capital volta. E tem gente saudando Lula como o grande visionário?

Não dá pra gente celebrar o governo pelas coisas boas (e são muitas) que ele fez não? Tem que celebrar pelas cagadas também, em nome de uma retórica do Brasil grande que favorece TANTO ASSIM as grandes empreiteiras?

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Guido Mantega anuncia que o Brasil voltará a ter superávit em contas correntes até 2012. Isso depois de terem anunciado o  déficit do primeiro trimestre. Mantega informou que o superávit foi previsto com bases no calendário dos Maias.

Alguém já viu alguma proposta nessa campanha? Algum debate sobre alguma proposta? Alguma afirmação que não seja uma platitude? Uma coisa que cansa nessa campanha que ainda nem começou é que a gente já sabe que todas as questões substanciais serão deixadas para amanhã, aparecerão em títulos de panfletos sem nenhum conteúdo, aparecerão nos debates gerando caras compungidas, enquanto os debatedores se esforçam para falar de outros assuntos.

O Noblat hoje reproduz uma matéria da Folha sobre uma pesquisa do IPEA que mostra que de meados dos anos 90 para cá a mortalidade infantil caiu para números três vezes menores. A mesma pesquisa mostra que esse número ainda é intolerável, porque ceifa a vida de justamente quem ainda não gozou dela, 24 crianças em cada mil. 2.4%. Se isso fosse uma probabilidade solta no ar, se não fosse exclusividade das classes mais baixas, esse número estaria em todos os blogs e jornais de hoje como um Cristo Redentor pichado. Mas essa probabilidade não se aplica aos filhos dos leitores de blogs, e nem dos senadores e deputados e candidatos à presidência (curioso que já se aplicou, veja como esse país muda).

Segundo a matéria os pesquisadores do IPEA apontam 4 fatores que explicam a redução na mortalidade infantil: 1. redução rápida na pobreza extrema; 2. expansão dos serviços de assistência e saneamento; 3. aumento da escolaridade dos pais; 4. campanhas governamentais de assistência à criança. Os dois principais candidatos a presidente estão envolvidos nestas mudanças: Serra foi ministro da Saúde, Dilma chefe da casa civil. Custava eles dedicarem alguns minutos a pensarem em como vão fazer a transição de 24 em mil para 0 em mil?

Enquanto isso nossa assim chamada “imprensa qualificada” fica debatendo corrida de cavalos ao invés de substância. Essa eleição vai ser sofrida.

A semana tinha começado bem no futebol. Santos e São Paulo foi um jogão, apesar de minhas simpatias tricolores os meninos da Vila Belmiro são um prazer de ver jogar. Neymar é o cara, no que isso tem de bom e de ruim: joga muito e não joga no meu time. Depois, Santo André e Grêmio, jogo tenso, legal de ver. E a melhor notícia do final de semana, a vitória do Fogão sobre o Framengo, sempre uma alegria.

Mas aí vem o meu time e demite o treinador. Segundo o Lédio Carmona, CONTRA a vontade dos jogadores. O time do Fluminense não é ruim, e podia ter feito muito mais. Mas a) já fez muito pior; b) não é lá essas coisas todas; c) devia essa ao Cuca; d) podia aproveitar essa oportunidade para completar o quadro, comprar jogadores, treinar, ganhar mais unidade. Ao invés disso, lá vamos nós de novo, reféns da unimed, pelo visto atrás do Muricy. Alô conselho da Unimed Rio, eu fiz o plano Sul América porque eles não estão zoneando com meu time há 15 anos!

Você sabe que o fim da Islândia está próximo quando você lê algo do tipo: “On Facebook pages, as well as in Reykjavik cafes, many saw the eruption as a welcome relief from constant reports of economic collapse and corruption, which remains the main topic of discussion.”

Enquanto algumas pessoas ficam putaças com a cobertura pusilânime dispensada pela grnade imprensa à eleição (e com razão), o Valor Econômico continua sendo a melhor fonte de análises sobre o Lula-lá 2010. Agora com uma entevista com o sempre racional Marcos Coimbra, do Vox Populi. A entrevista está aqui na íntegra (via o blog do Nassif).

Destaques:

1. As estratégias de campanha: “Esse é o cabo de guerra em que as duas principais forças políticas brasileiras estão envolvidas hoje. O Lula e o PT procurando trazer a eleição para essa comparação de projetos, enquanto a oposição e Serra tentando transformar a eleição numa guerra de biografias. Lula sabe que a grande maioria compara favoravelmente o governo dele em praticamente todos os aspectos e gosta mais dele do que do último presidente. Então, para o PSDB só resta a comparação da biografia, mas não acredito que se consiga mudar essa percepção ao longo da campanha. Acho muito pouco provável que tenha sucesso essa estratégia de convencer a população que tudo que há de bom, se é que há alguma coisa de bom no governo Lula, vem do antecessor.”

2. Sobre a ausência da direita (de novo!): “Isso tem a ver com a experiência de uns tantos anos de ditadura que, ao terminar, tinha deslocado qualquer discurso que não fosse de esquerda. Isso aconteceu há muito tempo, mas parte da elite política ainda vem desse ciclo. O que o eleitor ainda tem para situar não é apenas a trajetória do candidato, mas uma visão mais ampla dos aliados . O PSDB tomou uma decisão, no início dos anos 90, de que a única maneira de chegar ao poder, dado que o PT tinha um candidato posicionado em torno de 40%, seria em aliança com a direita. Isso definiu a natureza do jogo político e ideológico. Passou a ser difícil olhar para os candidatos do PSDB e vê-los como egressos de uma prática de esquerda.”

3. O efeito Marina: “Os nanicos, mesmo se forem muitos, dificilmente vão passar de 2,5% dos votos. O cenário de crescimento da Marina é muito desfavorável. De um lado ela pode ser espremida por duas candidaturas que cedo polarizam. Se o Ciro disputar, aumenta o cenário de crescimento dela, porque deixa uma eleição menos polarizada. Sem Ciro, o horizonte dela é menor. Porque faz com que grande parcela do eleitorado pense que tem que resolver logo.”

4. A coisa mais interessante: a racionalidade do eleitor do Lula-Dilma: “Porque a maioria tem o sentimento a favor da continuidade, tem um envolvimento pequeno com a discussão política, com a comparação das propostas, das biografias e opta pelo modelo de decisão mais simples. Isso não é verdade no Brasil pelas nossas deficiências. Isso é verdade em todas as democracias. Ainda mais no regime de sufrágio universal e compulsório em que a parcela de eleitores de baixa ou pequena motivação é majoritária. Esses eleitores costumam preferir a escolha de custo menor que demanda menos tempo, menos stress e pode ser resumida numa pergunta tão simples como ” Você está satisfeito?””

A entrevista é toda boa, um oásis de sanidade.

Santo azar! Levo um tiro na melhor fase da revista!

 Acabo de ler (com atraso de semanas) a triste notícia de que Dick Giordano faleceu, aos 77 anos, em 27 de Março de 2010. Giordano fez parte do time que guiou a revista do Batman em sua melhor fase (até a chegada de Moore e Miller nos anos 80), com Neal Adams desenhando e Denny O’Neil escrevendo. Giordano era o arte-finallista, e junto com Adams ajudou a consolidar a imagem definitiva de Batman, como uma figura sombria. Giordano era excelente em criar drama, fazendo jogos de luz e sombras, numa época em que os artistas de quadrinhos eram muito mais “contidos! do que viriam a ser mais tarde.

Chega de Robin! Batman vai atrás de sua futura esposa

Estamos falando aí da primeira metade dos anos 70, quando Superman era um título vergonhoso, e a Marvel vinha patinando (tirando o Homem Aranha de Lee e Romita). A casa do Homem Aranha voltaria a se erguer poucos anos mais tarde, com CLaremont e Byrne nos X-Men, O’Neil e Adams nos Vingadores e um jovem Frank Miller fazendo o Demolidor. A influência de Giordano nestes artistas é (para um amador) clara.

Mais importante ainda, Giordano era um dos editores da DC naquela que eu considero sua fase de ouro moderna, quando as origens de Mulher Maravilha (George Perez), Batman (Miller) e Superman (Byrne) foram recontadas. Foi também a época do Cavaleiro das Trevas, do Monstro do Pântano, da Piada Mortal. Enfim, Giordano foi uma espécie de Gerson dos quadrinhos – um gênio carregando o piano.  

Um dia é do Espantalho, o outro é do corvo! Er...morcego!

Durante a recente visita dos sogros, me foi feita a seguinte pergunta: os membros do seu departamento na universidade estão satisfeitos com seu desempenho no pós-doutorado? Meu sogro gosta de fazer perguntas diretas, e na medida do possível eu tento responder de maneira direta. Mas essa me pegou.

Não foi fácil explicar para ele que o pós-doutorado, da maneira como estou vivendo, é muito diferente do que é normalmente o caso na Europa e EUA (ao menos nas humanas). Não sei se é assim em todas as áreas, ou em todas as universidades, ou em todos os departamentos, mas no meu caso é um pouco como estar no limbo. Quando eu cheguei à USP, estava animado para dar aulas, ajudar na organização de um grupo de pesquisa, além de fazer minha própria pesquisa. Isso é feito muito mais facilmente com a bolsa espetacular da FAPESP, que além de pagar razoavelmente bem ainda tem uma reserva técnica para auxiliar em custos da pesquisa.

Pois bem. O curso saiu, e apesar de a turma ter sido desanimadoramente ruim eu acho que o resultado foi positivo (ao menos eu aprendi algo).  Mas o departamento nunca tomou conhecimento de minha presença. A papelada do meus pós-doc demorou a sair, e até hoje não tenho carteirinha da universidade. Com isso não tenho acesso à biblioteca, por exemplo. O curso que eu dei com meu supervisor não foi creditado no meu nome. Em nenhum momento alguém do departamento me procurou para falar da possibilidade de eu dar um curso. Aliás, afora aqueles que eu já conhecia, eu não conheci ninguém no departamento.

Essa estrutura é uma tremenda estupidez. Em primeiro lugar, porque eu custo dinheiro para o Estado. Esse dinheiro podia ter sido dado diretamente ao departamento, mas foi dado a mim. E olha que eu produzo, escrevo artigos, estou trabalhando no livro, faço minha pesquisa etc. Mas meu pós-doutorado não foi revertido em nada de bom para o departamento, o que ao menos para mim é muito decepcionante. Para o departamento, bem, eles nem sabem que eu estou aqui. A biblioteca é um caso a parte – eu vou lá para ler de vez em quando, mas depois de 8 anos fora do Brasil e com bom acesso à internet e a bibliotecas estrangeiras eu acho que tenho quase todos os recursos de que preciso em casa – e o que não tenho a universidade muitas vezes também não tem.

Mas o que mais me incomoda é que isso me parece ter a ver com algumas das coisas que estão erradas nas universidades brasileiras. A USP é uma excelente universidade, e o Depto de História é muito bom também. Mas falta, entre outras coisas, uma maneira de incorporar todas as pessoas que passam ali, de explorar mehor o potencial humano da universidade. Seria inconcebível em um departamento de Classics na Inglaterra que um pós-doutorando não desse aulas e não tivesse funções administrativas (só com bolsas da Humboldt mesmo). A impressão que dá é que o departamento quer seguir com sua vidinha, e que quanto menos problemas melhor. Note que nenhum membro do departamento pensa assim, pelo menos eu acho que não. Mas a inércia é um problema e uma limitação.

Em suma, minha vida de pós-doc consiste basicamente em passar os dias em casa, no meu pequeno escritório. Saio dali para ajudar quando a patroa (que também está trabahando em casa) tem problemas com o Amianinho, na hora do almoço e jantar. Meus vizinhos me acham um vagabundo, apesar de eu passar mais tempo na minha escrivaninha do que eles no trabalho deles. A moça da banca de jornais acha que eu sou um milionário, porque costumo passar com o filho no caminho para o banco, ou para uma ida rápida a um mercado. Para eles, eu respondo: pós-doutorado.

O que a oposição ao governo Lula e à Dilma não entende é que seus maiores inimigos parecem estar no próprio time.  Semana passada governistas e oposição aprovaram na CCJ uma proposta de Tasso Jereissati que flexibiliza a Lei de Responsabilidade Fiscal. A proposta torna possível para subsidiárias de empresas estatais se endividarem além de seu limite atual, e o mesmo para Estados e Municípios, desde que os empréstimos sejam voltados para iniciativas de melhoria de gestão pública. Como você estabelece na prática a diferença entre melhoria de gestão (e quem estabelece essa diferença) e outros gastos com computadores superfaturados, softwares (olha o Arruda aí, gente!), etc, eu não faço idéia.

Bom, um dos nomes mais importantes do principal partido de oposição acaba de detonar com uma das medidas que esse mesmo partido costuma arrotar como sendo uma de suas “realizações” no governo. E depois me vem a Míriam Leitão dizer que o governo do PT está ameaçando a estabilidade.

A derrota do sempre glorioso Kleber Leite para Fábio Koff para a presidência do clube dos 13 joga luz sobre mais uma maquinação da cartolagem brasileira, especialmente de seu guru espiritual. Juca Kfouri já havia avisado que o São Paulo, que votou no Koff, podia esquecer de ver o Morumbi sediar um jogo da copa. Na verdade, o Juca já havia avisado várias vezes.  Agora anunciam que a “Fifa” decidiu que o Morumbi não terá condições de sediar um jogo, por causa dos trabalhos que teriam que ser feitos. Como diria Homer Simpson, duh! Fala-se em construir um novo estádio em São Paulo, certamente uma solução racional que não irá afetar em nada os interesses do contribuinte e que afinal de contas fará justiça a uma ernorme injustiça: o Corinthias, clube mais amado de Sampa, precisa de um estádio, que poderá ser usado na copa*! Cláudio Weber Abramo, da transparência Brasil, comenta aqui.

Update: a notícia de que a Fifa rejeitou o Morumbi foi uma barriga, veja aqui. Mas todo o resto do que foi escrito acima se mantém

* Se isso não está claro, afrase é irônica.