Durante a recente visita dos sogros, me foi feita a seguinte pergunta: os membros do seu departamento na universidade estão satisfeitos com seu desempenho no pós-doutorado? Meu sogro gosta de fazer perguntas diretas, e na medida do possível eu tento responder de maneira direta. Mas essa me pegou.

Não foi fácil explicar para ele que o pós-doutorado, da maneira como estou vivendo, é muito diferente do que é normalmente o caso na Europa e EUA (ao menos nas humanas). Não sei se é assim em todas as áreas, ou em todas as universidades, ou em todos os departamentos, mas no meu caso é um pouco como estar no limbo. Quando eu cheguei à USP, estava animado para dar aulas, ajudar na organização de um grupo de pesquisa, além de fazer minha própria pesquisa. Isso é feito muito mais facilmente com a bolsa espetacular da FAPESP, que além de pagar razoavelmente bem ainda tem uma reserva técnica para auxiliar em custos da pesquisa.

Pois bem. O curso saiu, e apesar de a turma ter sido desanimadoramente ruim eu acho que o resultado foi positivo (ao menos eu aprendi algo).  Mas o departamento nunca tomou conhecimento de minha presença. A papelada do meus pós-doc demorou a sair, e até hoje não tenho carteirinha da universidade. Com isso não tenho acesso à biblioteca, por exemplo. O curso que eu dei com meu supervisor não foi creditado no meu nome. Em nenhum momento alguém do departamento me procurou para falar da possibilidade de eu dar um curso. Aliás, afora aqueles que eu já conhecia, eu não conheci ninguém no departamento.

Essa estrutura é uma tremenda estupidez. Em primeiro lugar, porque eu custo dinheiro para o Estado. Esse dinheiro podia ter sido dado diretamente ao departamento, mas foi dado a mim. E olha que eu produzo, escrevo artigos, estou trabalhando no livro, faço minha pesquisa etc. Mas meu pós-doutorado não foi revertido em nada de bom para o departamento, o que ao menos para mim é muito decepcionante. Para o departamento, bem, eles nem sabem que eu estou aqui. A biblioteca é um caso a parte – eu vou lá para ler de vez em quando, mas depois de 8 anos fora do Brasil e com bom acesso à internet e a bibliotecas estrangeiras eu acho que tenho quase todos os recursos de que preciso em casa – e o que não tenho a universidade muitas vezes também não tem.

Mas o que mais me incomoda é que isso me parece ter a ver com algumas das coisas que estão erradas nas universidades brasileiras. A USP é uma excelente universidade, e o Depto de História é muito bom também. Mas falta, entre outras coisas, uma maneira de incorporar todas as pessoas que passam ali, de explorar mehor o potencial humano da universidade. Seria inconcebível em um departamento de Classics na Inglaterra que um pós-doutorando não desse aulas e não tivesse funções administrativas (só com bolsas da Humboldt mesmo). A impressão que dá é que o departamento quer seguir com sua vidinha, e que quanto menos problemas melhor. Note que nenhum membro do departamento pensa assim, pelo menos eu acho que não. Mas a inércia é um problema e uma limitação.

Em suma, minha vida de pós-doc consiste basicamente em passar os dias em casa, no meu pequeno escritório. Saio dali para ajudar quando a patroa (que também está trabahando em casa) tem problemas com o Amianinho, na hora do almoço e jantar. Meus vizinhos me acham um vagabundo, apesar de eu passar mais tempo na minha escrivaninha do que eles no trabalho deles. A moça da banca de jornais acha que eu sou um milionário, porque costumo passar com o filho no caminho para o banco, ou para uma ida rápida a um mercado. Para eles, eu respondo: pós-doutorado.