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A Inbev, proprietária da marca Budweiser nos EUA, acaba de perder a ação para ter os direitos exclusivos de usar o nome Budweiser na Europa. A simpática cervejaria checa pode continuar usando o nome e honrando os amantes da boa cerveja. Porque a grande diferença entre as duas é que a americana tem gosto e cheiro de mijo, a checa é cerveja de verdade.

Enquanto isso, e muito a propósito, a hospitalidade de meu anfitrião em uma rápida visita a Porto Alegre esta semana incluiu, além de uma visita ao mais interessante e ativo instituto cultural da cidade, o Studio Clio, provar a estupenda cerveja Abadessa, que eu não conhecia e da qual virei fã. Essa foi, aliás, uma das grandes mudanças ocorridas no país enquanto eu morei fora: a qualidade da cerveja melhorou demais. Aquelas porcarias de sempre continuam por aí (mas não tem mais Malt 90, ao que eu saiba). Mas você acha umas coisas muito boas em bares e supermercados.

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Ciscando por aí vi no Marginal Revolution uma notinha falando do livro do John Hall, Ernest Gellner: An Intellectual Biography, um daqueles títulos que fazem o coração disparar. De todos os antropólogos que eu li na faculdade Gellner foi o que mais marcou; de todos os filósofos, idem. O tipo de sujeito que ao longo de sua vida sempre esteve do lado em que eu gostaria estar: contra a filosofia da linguagem, metendo o malho no estruturalismo (‘What is structuralisme?’ começa com a frase inesquecível: Um fantasma ronda a Europa: o estruturalismo (estou citando de cabeça)), no relativismo cultural à la Geertz, orientando o Merquior, a favor do liberalismo, contra o liberalismo, etc (bom, isso mostra bem o tipo de nerd que eu infelizmente virei. Quando criança eu queria ser astronauta).

Além do que olha o currículo do cara: Balliol College, Oxford; London School of Economics; Cambridge. Para os estudantes de história querendo ler algo de antropologia tem poucas coisas melhores do que Antropologia e Política. Tem tudo ali: desde arqueologia préhistórica soviética, Gordon Childe, o relativismo explicado e criticado, até porque os americanos se meteram numa roubada quando invadiram o Iraque para fazer ‘nation building’ (hahaha). Fica aí a recomendação: comprem, leiam, e depois mandem pra mim que a grana está curta.

Ah sim, isso pode interessar os historiadores: alguns pensamentos a respeito de técnicas de fichamento e o trabalho do historiador, inspirados no Filippo Coarelli e ressuscitados por um artigo do Keith Thomas, lá no Antiguidades Romanas.

Continuando minha crítica ao Said no post abaixo (tem um comentário interessante do João Paulo lá, dêem uma conferida).

Contextualizando: Said identificou uma questão interessantíssima, e botou o dedo em uma ferida. O ‘Oriente’, essa entidade abstrata e misteriosa, é uma construção do Ocidente. Uma construção discursiva, objetificada através de políticas imperialistas, coleções de museus, representações artísticas, e estudos científicos. O Orientalismo é um livro importantíssimo por sua postura política. Said conhece muito (me parece, não sou especialista) da literatura do século XVIII ao início do XX, pelo menos eu achei tudo muito convicente.

Existem alguns problemas com relação ao livro, no entanto, que não são levados em conta por seus inúmeros defensores e seguidores. Em primeiro lugar, algumas vezes Said parece se esquecer que a relação entre ‘Ocidente’ e ‘Oriente’ é de mão dupla. Tudo muito bem dizer que Os Persas do Ésquilo sedimentou uma imagem do oriental como ameaçador e ‘outro’ no início do século V a.C. O problema é se esquecer que a tragédia foi uma resposta a uma série de guerras entre gregos e persas, nas quais os persas invadiram a Grécia e ao menos uma vez saquearam Atenas. Os caras eram ameaçadores e ‘outros’ mesmo, o Ésquilo estava certo! O segundo problema é o da generalização: uma coisa é falar de um administrador inglês no Iraque no início do século XX (pausa para propaganda: leiam A History of Iraq, do Charles Tripp, é excelente), outra muito diferente é falar de um egiptólogo alemão dando aula em Berlim. Um cara que estuda egiptologia, ou poesia árabe medieval, ou arquitetura persa, tem que lidar com uma série de questões específicas à sua disciplina, e depois vai ter seu trabalho revisto e resenhado por seus pares. Existe aí uma autonomia que não pode ser desprezada. O que eu quero dizer é que a relação entre o ‘hoje’ do estudioso e o passado que ele estuda é mais complicada do que o Said em alguns momentos dá a entender. Eu acho interessante, por exemplo, como os especialistas em antiguidade oriental na Inglaterra no início do século XX optaram por continuar chamando sua área de estudo ‘Near East’, e não seguir a orientação dos diplomatas e mudar para ‘Middle East’.

Existe também o problema da especialização. Um assiriólogo basicamente publica inscrições cuneiformes: coleta, monta um ‘arquivo’ de tabuinhas, compara com um monte de outras tabuinhas, estabelece o texto, traduz. É um trabalho braçal e intelectual, que segue regras muito específicas. Esse cara às vezes tem a sorte de contar com a ajuda de arqueólogos. O Mario Liverani uma vez disse que a decifração do cuneiforme entre o XVIII e XIX foi o maior alargamento do discurso histórico que nós já experimentamos (3000 anos de civilização ganharam uma história!). Dizer que estes caras estão a serviço de um discurso imperialista é um pouco demais. Eles podem reproduzir elementos do discurso imperialista, mas se limitarem seu trabalho aos interesses da Rainha Vitória eles terão seus livros trucidados por um filólogo alemão. Porque esse é um outro problema do livro do Said: ele não fala dos alemãos. Ele deixa de considerar a mais importante escola e língua dedicadas ao orientalismo no século XIX. Seria como um sujeito estudar o discurso acadêmico sobre a identidade brasileira e deixar de lado a produção de São Paulo, Sérgio Buarque e Florestan Fernandes inclusos.

Todo mundo com um mínimo de interesse pelo ser humano e pelas ciências humanas deveria conhecer alguma coisa sobre o Warburg Institute, o instituto fundado junto à Universidade de Londres pela generosidade intelectual e financeira da família do grande Aby Warburg. Warburg foi um estudioso do século XIX dedicado à arte renascentista que se transformou em um estudioso das formas de transmissão das idéias clássicas até a época moderna, um curioso por tudo que tivesse relação com a forma de pensar: a astronomia, a alquimia, as artes, os ritos, os mitos, etc, em diferentes civilizações. Ele exerceu uma enorme influência sobre diversos estudiosos, seja através de suas obras ou de sua biblioteca, organizada de maneira a estimular a criatividade (e não segundo critérios biblioteconômicos estritos) – não por acaso, mnemosyne (memória) é o seu mote.

Associados ao Instituto estiveram lendas da história da arte e das humanidades, como Erwin Panofsky e Ernst Gombrich. Até Carlo Ginzburg passou por lá, e seus livros Os Andarilhos do Bem, O Queijo e os Vermes e   História Noturna são fortemente influenciados pelo Warburg.

Agora, um artigo no The Art Newspaper mostra como os burocratas da Universidade de Londres estão desfigurando o instituto e sua biblioteca. Uma linda estória, que se encaminha para um final muito triste.

Eu não tenho palavras para descrever o melhor livro que eu li em muito e muito tempo: The Road to Oxiana, o relato na forma de diário da viagem feita em 1933 e 1934 pelo escritor-arquiteto-estudioso inglês Robert Byron, partindo de Veneza, passando pela Palestina e atravessando a Pérsia e o Afeganistão até o vale do rio Amu Darya (conhecido em latim como Oxus, daí o nome da região). O livro é considerado uma das grandes obras primas da literatura de viagem, e a muito tempo andava rondando minha lista. Finalmente, em Fevereiro, consegui comprá-lo e após ter começado algumas vezes e ter interrompido sua leitura igual número consegui ficar tempo o suficiente em um mesmo lugar (um avião, SP-POA ida e volta no mesmo dia) para devorar o bichinho.

Byron foi uma pessoa extraordinária vivendo em tempos extraordinários: o navio que o levou de Veneza à Palestina (hoje Israel) estava cheio de judeus abandonando a Alemanha hitlerista, a Pérsia vivia sob o nacionalismo e a paranóia de Reza Shah e o Afeganistão era um estado-tampão entre o imperialismo soviético ao Norte e britânico ao Sul. Brown passou tempo na Itália de Mussolini, na União Soviética de Stalin e até assistiu um dos comícios nazistas de Nuremberg, o que o fez odiar todos estes ditadores. É difícil, porém fascinante seguir a narrativa, porque a geografia da região mudou tanto de lá para cá: basta dar uma olhada no google maps (o melhor amigo do leitor ignorante) para ver o tamanho do problema enfrentado por alguém querendo visitar o tal vale (aqui). Melhor do que isso só o fato de que Byron escreve com grande senso de humor, e não consegue conter sua fascinação pelos indivíduos que encontra, seu desprezo pelas autoridades (britânicas e locais) e seu amor pela natureza e pela arte islâmica. Uma passagem excelente é quando ele é advertido de que é melhor adotar um codinome para o Shah, para o caso de seu diário ser apreendido: 

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O sempre infalível José Sarney propôs um artigo para projeto de lei ao novo Código do Processo Civil que estabelece que documentos jurídicos serão eliminados após 5 anos do processo. Não será discutida, aqui, nenhuma hipótese maldosa de porque isso stá sendo feito. Mas o resultado, para a História do Brasil, será sério. Uma pena. E vindo de um membro da ABL! Veja maiores informações abaixo, no texto de email que está rodando as listas de historiadores:

UMA AGRESSÃO À HISTÓRIA

O Congresso Brasileiro está discutindo um novo Código do
Processo Civil (Projeto de Lei nº 166), que foi apresentado ao Senado
em 8/6/2010. Em total desrespeito ao direito de preservação da
história e às regras arquivísticas mais elementares, o artigo 967
desse projeto vem reforçar a moda burocrática de limpar o passado. O
texto restaura, na íntegra, o antigo artigo 1.215 do atual Código do
Processo Civil, promulgado em 1973, que autorizava a eliminação
completa dos autos findos e arquivados há mais de cinco anos, “por
incineração, destruição mecânica ou por outro meio adequado”. Em 1975,
depois de ampla mobilização da comunidade nacional e internacional de
historiadores e arquivistas, a vigência desse artigo foi suspensa pela
Lei 6.246. Aprovada a atual proposta, estão novamente em risco
milhares de processos cíveis: um prejuízo incalculável para a história
do país, que já arca com perdas graves na área da Justiça do Trabalho,
uma vez que a Lei 7.627, de 1987 (com o mesmo texto do artigo 967),
tem autorizado a destruição de milhares de processos trabalhistas
arquivados há mais de cinco anos. Além de grave agressão à História, a
proposta também fere direitos constitucionais de acesso à informação e
de produção de prova jurídica. Eis o texto do projeto de lei que está
no Senado:

Art. 967. Os autos poderão ser eliminados por incineração, destruição
mecânica ou por outro meio adequado, findo o prazo de cinco anos,
contado da data do arquivamento, publicando-se previamente no órgão
oficial e em jornal local, onde houver, aviso aos interessados, com o
prazo de um mês.

§ 1º As partes e os interessados podem requerer, às suas expensas, o
desentranhamento dos documentos que juntaram aos autos ou cópia total
ou parcial do feito.

§ 2º Se, a juízo da autoridade competente, houver nos autos documentos
de valor histórico, serão estes recolhidos ao arquivo público.

O link para acompanhar a tramitação do PLS nº 166 é o
seguinte:
http://www.senado.gov.br/atividade/materia/detalhes.asp?p_cod_mate=97249.

Um ataque à cidadania que exige defesa firme por parte de todos que
lutam pela defesa da História e da Memória.

Fernando Teixeira da Silva (Arquivo Edgard Leuenroth – IFCH – UNICAMP)

Silvia Hunold Lara (CECULT – IFCH – UNICAMP)

Magda Barros Biavaschi (Fórum Nacional Permanente em Defesa da Memória
da Justiça do Trabalho

Quinta-feira à noite, Fluminense bem no campeonato, jogo contra Botafogo de Presidente Prudente no Maraca… ocasião perfeita para levar a patroa para o templo do futebol pela primeira vez.

E lá fomos nós, Amiano e Sra, com a companhia de Romário II e Amiano o jovem. Estaciono a algumas quadras, caminhamos por território visigodo  (a Tijuca – um amigo costumava dizer que do túnel novo até os Pirineus era a Grande Tijuca) até entrar no maracanã. Primeira surpresa, tudo show: policiais educados, segurança educada, acesso à arquibancada rápido. Vendedores só dentro do estádio, nada de bebidas alcoólicas, só guaraviton e mate leão (absinto faz menos mal pra saúde). A esposa quer ir ao banheiro, e os escudeiros já começam a dar os pêsames: ‘de lá ela volta com uma doença estranha’. Mas não, tudo muito limpo, segundo ela. A Sra Amiano quer entender mais sobre futebol, os escudeiros explicam que a Gávea é uma área onde a polícia vai ter que realizar uma UPP. Crianças cantam ‘Bruno assassino’, numa demonstração maravilhosa de como é errado levar menores de 10 anos ao estádio.

Todos estão animados, a torcida preparou um espetáculo bonito com aquelas velinhas que ficam faiscando, a patroa filma tudo. Para completar, a torcida canta pro Muricy ficar (eu explico para ela que ele é um excelente técnico, que pode ir pra Seleção), fala-se em máquina tricolor: Beletti e Deco estão chegando. Se o Fluminense vencer vira líder do campeonato. O jogo começa, jogo bom, só pressão nos paulistas. Gol do Fred, Conca está meio desligado, Fernando Henrique inspira confiança zero. Mas vamos pro topo da lista de classificação! No intervalo o time bebe o mesmo suco que a seleção bebeu no jogo contra a Holanda, fica lamentável. A liderança começa a escapar pelos dedos, o Prudente leva perigo (hahahahaha) até que faz o gol. Eu agora tenho que explicar para a patroa porque de repente todo mundo acha o Conca e o Fred uns merdas, porque o Muricy tem que sair, enfim. Coisas do futebol. Beletti tem 34 anos, Deco é português.

Hoje tem um risquinho de Sol brilhando, vamos ficar por aqui e quem sabe dar uma volta na praia. Isso é, depois de levarmos o Amianinho na peregrinação pelas casas dos parentes.

Estou em Niterói para o aniversário de meu irmão (Amiano o jovem). Volto a escrever semana que vem. Hoje à noite tem maraca!

Está lá, na minha ‘lista de coisas para fazer na minha próxima encarnação’: me especializar no renascimento italiano e passar uma temporada na Villa I Tatti, o instituto de pesquisa que Harvard mantém em uma villa maravilhosa nos arredores de Florença. Além de ser um lugar do caramba, eles têm uma série de publicações que são um xuxuzinho, com textos que marcaram o Renascimento italiano na língua original (frequentemente latim) e a tradução em inglês.

O que me fez mencionar isso é que acaba de sair o último volume da História de Veneza, do poeta e humanista Pietro Bembo. Antes de ter dado nome a uma fonte tipográfica (leitores da Companhia das Letras acostumados a ler todas as palavras de um livro já devem ter visto esse nome), Bembo aprendeu grego na Sicília com um tataraneto de um imperador bizantino, foi chapa de Ariosto, deu uns pegas na Lucrezia Borgia e ainda teve seu retrato pintado por Rafael e Ticiano.

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