Está lá, na minha ‘lista de coisas para fazer na minha próxima encarnação’: me especializar no renascimento italiano e passar uma temporada na Villa I Tatti, o instituto de pesquisa que Harvard mantém em uma villa maravilhosa nos arredores de Florença. Além de ser um lugar do caramba, eles têm uma série de publicações que são um xuxuzinho, com textos que marcaram o Renascimento italiano na língua original (frequentemente latim) e a tradução em inglês.

O que me fez mencionar isso é que acaba de sair o último volume da História de Veneza, do poeta e humanista Pietro Bembo. Antes de ter dado nome a uma fonte tipográfica (leitores da Companhia das Letras acostumados a ler todas as palavras de um livro já devem ter visto esse nome), Bembo aprendeu grego na Sicília com um tataraneto de um imperador bizantino, foi chapa de Ariosto, deu uns pegas na Lucrezia Borgia e ainda teve seu retrato pintado por Rafael e Ticiano.

Isso é pouco? O cara conheceu Colombo, e foi o primeiro veneziano a acusar o golpe da descoberta da América, numa época em que a supremacia de Veneza estava entrando em crise. Bembo escreveu a História de Veneza enquanto era bibliotecário de São Marco, e não consigo nem imaginar o que era aquela biblioteca dois séculos depois de os venezianos terem saqueado Constantinopla e levado manuscritos e livros gregos de valor incalculável. A próxima vez que historiador brasileiro quiser tirar onda por seu prestígio intelectual e seu impressionante currículo-posição acadêmica, é bom antes ir à Amazônia se perder até que seu cérebro vire suco.

Um pedacinho do livro, na tradução em inglês:

Heading from there [the Canaries] into the setting sun for 33 days together, he discovered six islands, two of them very large indeed, where nightingales sing in November and naked men of a gentle nature use boats made of a single tree trunk …. They have very few kinds of quadrupeds, among them tiny dogs which are actually mute and do not bark. But they do have a great many types of birds, both larger and smaller than ours, so that some little birds are found which together with their nests weigh no more than a 24th of an ounce each. There are parrots of various shapes and colors in great abundance. They collect fleeces which grow by themselves from the woods and hills, but when they want to make them whiter and finer, they clean them and plant them by their homes. They have gold, which they collect in the sands of the rivers; they do not have iron. In its place they use specially hard and sharp stones, both for hollowing out their boats and for shaping other wood for domestic use and working gold. But the gold they work only for ornament, wearing it suspended from their pierced ears and nostrils — they are indeed unacquainted with coinage, nor do they use any kind of money…. The forests support an animal the size of a rabbit which is a bitter enemy of hens; the female has a pouch of skin with copious teats next to the stomach, like a second stomach, in which it carries its young and from which it lets them out as and when it wishes (2.VI.3, 8).

Esse trecho e outros podem ser lidos (além do livro, é claro!) na ótima resenha publicada na Bryn Mawr Classical Review, que eu recomendo.