Eu não tenho palavras para descrever o melhor livro que eu li em muito e muito tempo: The Road to Oxiana, o relato na forma de diário da viagem feita em 1933 e 1934 pelo escritor-arquiteto-estudioso inglês Robert Byron, partindo de Veneza, passando pela Palestina e atravessando a Pérsia e o Afeganistão até o vale do rio Amu Darya (conhecido em latim como Oxus, daí o nome da região). O livro é considerado uma das grandes obras primas da literatura de viagem, e a muito tempo andava rondando minha lista. Finalmente, em Fevereiro, consegui comprá-lo e após ter começado algumas vezes e ter interrompido sua leitura igual número consegui ficar tempo o suficiente em um mesmo lugar (um avião, SP-POA ida e volta no mesmo dia) para devorar o bichinho.

Byron foi uma pessoa extraordinária vivendo em tempos extraordinários: o navio que o levou de Veneza à Palestina (hoje Israel) estava cheio de judeus abandonando a Alemanha hitlerista, a Pérsia vivia sob o nacionalismo e a paranóia de Reza Shah e o Afeganistão era um estado-tampão entre o imperialismo soviético ao Norte e britânico ao Sul. Brown passou tempo na Itália de Mussolini, na União Soviética de Stalin e até assistiu um dos comícios nazistas de Nuremberg, o que o fez odiar todos estes ditadores. É difícil, porém fascinante seguir a narrativa, porque a geografia da região mudou tanto de lá para cá: basta dar uma olhada no google maps (o melhor amigo do leitor ignorante) para ver o tamanho do problema enfrentado por alguém querendo visitar o tal vale (aqui). Melhor do que isso só o fato de que Byron escreve com grande senso de humor, e não consegue conter sua fascinação pelos indivíduos que encontra, seu desprezo pelas autoridades (britânicas e locais) e seu amor pela natureza e pela arte islâmica. Uma passagem excelente é quando ele é advertido de que é melhor adotar um codinome para o Shah, para o caso de seu diário ser apreendido: 

“I remarked to Christopher on the indignity of the people’s clothes: ‘Why does the Shah make them wear those hats?’ ‘Sh. You mustn’t mention the Shah out loud. Call him Mr Smith.’ ‘I always call Mussolini Mr Smith in Italy.’ ‘Well, Mr Brown.’ ‘No, that’s Stalin’s name in Russia.’ ‘Mr Jones then.’ ‘Jones is no good either. Hitler has to have it now that Primo de Rivera is dead. And anyhow I get confused with these ordinary names. We had better call him Marjoribanks, if we want to remember whom we mean.'” E o livro fica a cheio de referências e comentários sobre Marjoribanks a partir daí. (p.41)

Seus encontros com europeus e locais são memoráveis:

a) com uma autoridade local em Karokh: “‘What government do you belong to?’ asked the Hazrat Sahib. ‘The government of Inglistan.’ ‘Inglistan? What is that?’ ‘It is the same as Hindostan.’ (p. 117)

b) com um viajante Húngaro: “I gave him some soup and ovaltine [nosso ovomaltine!] which cheered him up and made him talk in bad French: ‘Five years, Monsieur, I have been travelling. (…)’ ‘You like travelling?’ ‘Who could like travelling in Asia, Monsieur? What would my parents say if they saw me in such a place as this? It is not like Europe. Beyrut is like Europe. Beyrut I could support. But this country, these people [eles estão em Herat, no Afeganistão]… the things I have seen! I cannot tell you of them. I cannot. Aaaaah!’ And overcome by the recollection of them, he buried his head in his hands.” (p.107)

O mais interessante talvez seja ver como à época o Afeganistão parecia estar se desenvolvendo, enquanto a Pérsia mergulhava no obscurantismo. O mais legal é ler este livro pensando na crítica que desde Edward Said se faz ao ‘Orientalismo’. Byron era um orientalista, estudioso da arquitetura e arte islâmicas. Ele viaja para ver, desenhar, fotografar, medir, descrever, datar monumentos como pontes, palácios, túmulos, mesquitas etc. Ele carrega livros de viajantes, soldados, poetas, historiadores, para pegar informações, corrigi-las, etc. Ele fala algumas das línguas locais. E vive num momento de crise do imperialismo britânico.

Esse é o meu problema com o Said (que não cita o Byron, estranhamente) – e nem vou criticá-lo pelos erros que ele comete quando fala de estudos sobre a antiguidade oriental. Dizer que o Byron era um agente imperialista só é verdadeiro na medida em que eu e todos os outros autores de blogs somos agentes da ocidentalização do mundo. A afirmação é tao genérica que ela tem o duplo defeito de ser um truismo e uma estultice. Said analisa casos magníficos de políticos e funcionários ingleses e franceses que são realmente ‘agentes imperialistas’. Mas o quadro que ele pinta acaba encobrindo todos os viajantes e estudiosos que queriam entender uma outra civilização. Curiosamente, depois do século XIV, o número de viajantes muçulmanos interessados em entender e descrever a civilização ocidental caiu brutalmente – Said jamais teria como escrever um livro sobre o ‘Ocidentalismo’.