Continuando minha crítica ao Said no post abaixo (tem um comentário interessante do João Paulo lá, dêem uma conferida).

Contextualizando: Said identificou uma questão interessantíssima, e botou o dedo em uma ferida. O ‘Oriente’, essa entidade abstrata e misteriosa, é uma construção do Ocidente. Uma construção discursiva, objetificada através de políticas imperialistas, coleções de museus, representações artísticas, e estudos científicos. O Orientalismo é um livro importantíssimo por sua postura política. Said conhece muito (me parece, não sou especialista) da literatura do século XVIII ao início do XX, pelo menos eu achei tudo muito convicente.

Existem alguns problemas com relação ao livro, no entanto, que não são levados em conta por seus inúmeros defensores e seguidores. Em primeiro lugar, algumas vezes Said parece se esquecer que a relação entre ‘Ocidente’ e ‘Oriente’ é de mão dupla. Tudo muito bem dizer que Os Persas do Ésquilo sedimentou uma imagem do oriental como ameaçador e ‘outro’ no início do século V a.C. O problema é se esquecer que a tragédia foi uma resposta a uma série de guerras entre gregos e persas, nas quais os persas invadiram a Grécia e ao menos uma vez saquearam Atenas. Os caras eram ameaçadores e ‘outros’ mesmo, o Ésquilo estava certo! O segundo problema é o da generalização: uma coisa é falar de um administrador inglês no Iraque no início do século XX (pausa para propaganda: leiam A History of Iraq, do Charles Tripp, é excelente), outra muito diferente é falar de um egiptólogo alemão dando aula em Berlim. Um cara que estuda egiptologia, ou poesia árabe medieval, ou arquitetura persa, tem que lidar com uma série de questões específicas à sua disciplina, e depois vai ter seu trabalho revisto e resenhado por seus pares. Existe aí uma autonomia que não pode ser desprezada. O que eu quero dizer é que a relação entre o ‘hoje’ do estudioso e o passado que ele estuda é mais complicada do que o Said em alguns momentos dá a entender. Eu acho interessante, por exemplo, como os especialistas em antiguidade oriental na Inglaterra no início do século XX optaram por continuar chamando sua área de estudo ‘Near East’, e não seguir a orientação dos diplomatas e mudar para ‘Middle East’.

Existe também o problema da especialização. Um assiriólogo basicamente publica inscrições cuneiformes: coleta, monta um ‘arquivo’ de tabuinhas, compara com um monte de outras tabuinhas, estabelece o texto, traduz. É um trabalho braçal e intelectual, que segue regras muito específicas. Esse cara às vezes tem a sorte de contar com a ajuda de arqueólogos. O Mario Liverani uma vez disse que a decifração do cuneiforme entre o XVIII e XIX foi o maior alargamento do discurso histórico que nós já experimentamos (3000 anos de civilização ganharam uma história!). Dizer que estes caras estão a serviço de um discurso imperialista é um pouco demais. Eles podem reproduzir elementos do discurso imperialista, mas se limitarem seu trabalho aos interesses da Rainha Vitória eles terão seus livros trucidados por um filólogo alemão. Porque esse é um outro problema do livro do Said: ele não fala dos alemãos. Ele deixa de considerar a mais importante escola e língua dedicadas ao orientalismo no século XIX. Seria como um sujeito estudar o discurso acadêmico sobre a identidade brasileira e deixar de lado a produção de São Paulo, Sérgio Buarque e Florestan Fernandes inclusos.