O Carrefour aqui perto de casa está com uma série de ofertas de vinhos, o que tem feito a alegria do solar dos Amianos. Nada muito especial, mas vinhos chilenos e argentinos por 15-19 reais. Semana passada fui a esse reputado estabelecimento comercial empurrando o Amianinho em seu carrinho-centro de observação (excelente para acondicionar coisas pesadas como garrafas). Ao passar na sessão de vinhos, qual não foi minha surpresa ao ouvir o nome do meu filho chamado por uma moça que trabalhava ali (a Sra Amiano tb frequenta aquela sessão, e eles devem ter se conhecido assim). Amianinho logo sorriu (como sói fazer diante de moças). A moça, muito simpática, me disse que é descendente de libaneses; estava ansiosa na espera de seus sobrinhos e sua irmã, que moram no Líbano, e que estavam para vir para o Brasil contra a vontade de seu cunhado (este nascido por lá). O motivo, ela disse, era a guerra. ‘Guerra’? Como ela me falou, libaneses com amigos em Israel ou família morando naquele país famoso por sua contribuição para a civilização ocidental (mais especificamente, o terrorismo de Estado) ou mesmo perto da fronteira avisam amigos no Líbano quando há movimentação de tropas. A notícia se espalha pelas cidades e aldeias, famílias se mudam para longe do teatro de operações.

Agora as notícias pouco alvissareiras que vêm da região sugerem que a amiguinha do José estava bem informada. O que me impressionou foi o fato de que a guerra é, de certo modo, inserida na vida cotidiana – amigos falam com amigos, parentes ajudam parentes, etc. Negócios de Estado, ‘alta política’, todos estes tornam-se objeto de conhecimento comum (a ponto de as pessoas se prepararem para isso). Esse é o tipo de coisa que normalmente passa despercibido a jornalistas e correspondentes de guerra, que normalmente chegam logo depois do fato ocorrido – o que dirá no caso de historiadores! Sugestão pro picareta da história politicamente incorreta do Brasil: visite arquivos no Sul, fale com famílias e procure ver se havia alguma movimentação semelhante antes da guerra do Paraguai, ô mané!

O vinho entra nessa estória aqui também: o Chateau Musar produz vinhos espetaculares (esse eu não encontro no Carrefour). Na última vez em que Israel demonstrou sua superioridade moral bombardeando escolas e hospitais os vinhedos dessa vinícola não foram afetados. Isso mostra um pouco as prioridades israelenses (escolas -bomba! vinhos – ok!).