Ser um historiador não é fácil. Não é mesmo: eu ainda me pego pensando em mim mesmo como um ‘estudante de história’, e não como um historiador. Meus professores na UFF, na USP e em Oxford podiam ter vários defeitos, mas são (tá todo mundo vivo) profissionais sérios. Frequentam arquivos, torram as economias da família em livros, perdem finais de semana estudando, dão nomes esquisitos aos filhos e por força da companhia desenvolvem um péssimo gosto indumentário. Mas a coisa mais chata de ser historiador é que qualquer um pode escrever história. Veja bem, isso é uma coisa boa: eu sou contra as propostas de regulamentação do trabalho do historiador. Mas que é irritante a maneira como uns brocoiós saem por aí falando que sabem história isso é.

Aí me apareceu um tal Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil (sem link que não vou fazer jabá pra ele). O cara sai no Globo Online, dizendo que quis acabar com a idéia da história como um produto da luta de classes, como uma briga entre mocinhos e bandidos, tal qual é ensinada nas escolas. Zumbi tinha escravos, esse tipo de coisas. Cara, isso é uma porcaria por vários motivos: 1. é uma bastardização escrota da disciplina – os livros do Eduardo Bueno eram popularização, bem escritos e informados; esse cara tenta se vender como diferente, pior. 2. A história não é isso: sou a favor de dizer que Princesa Isabel era isso, Zumbi aquilo, Pero Vaz de Caminha aquilo outro: mas isso faz parte de um contexto, e se existiam escravos em Quilombos (não é que ‘Zumbi tivesse escravos’ como a anta escreve, porque não eram propriedade privada) esse é um dado a ser analisado no contexto de uma sociedade e economia escravistas. 3. Ao contrário do que parte do publico leitor brasileiro gosta de pensar, o politicamente incorreto não é necessariamente uma coisa legal. Estereotipar minorias, fazer graça de desigualdades e celebrar a opressão são coisas de gente escrota. Paulo Francis, o guru dessa ‘nova direita’ vejista, era politicamente incorreto, mas usava isso contra absurdos que se tornavam estabelecidos em lei. Ele era contra quotas, mas não me lembro de ele ter dito que não existia racismo no Brasil. Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi e Ali Kamel são uma coisa muito diferente disso. O cara que escreveu esse livro também, e o pior: sem originalidade. A escrita e o ensino da História do Brasil SEMPRE foram politicamente incorretos: sempre estiveram do lado dos vencedores, da elite, e jamais reconheceram qualquer legitimidade para lutas de classe ou temas como exploração. Isso é uma coisa recente, apareceu pouco a pouco dos anos 70 para cá (nas universidades foi mais rápido).