Diogo Mainardi comprou um novo livro. Ou viajou, sei lá. O fato é que escreveu uma coluna na Veja, comparando a campanha eleitoral de Dilma Roussef às campanhas eleitorais da cidade romana de Pompéia. A idéia de comparar eleições modernas a eleições antigas não é nova: isso foi feito alguns anos atrás em um jornal americano, por exemplo. O problema não é a falta de originalidade. O problema é que Mainardi, como uma parte irritante dos escritores histéricos de direita, resolve usar sua razoável vivência cultural para tirar onda de fodão e atacar o Lula e a Dilma. Eu digo razoável porque é razoável mesmo: o cara viveu em Veneza, em Londres, conheceu o Ivan Lessa, o Paulo Francis, e traduziu para o português um dos meus escritores preferidos, o Italo Calvino (tá lá na Wikipedia, onde tem um verbete dedicado a ele).

Mas eu também digo razoável porque é só razoável mesmo: beeeeem razoavelzinha. Qualquer pessoa que tira onda de fodão deveria saber tomar mais cuidado com o que vai escrever. Mas minha anta não (e antes que me processem, esta é apenas uma referência carinhosa a um de seus livros mais populares entre seus leitores). Ele cita: ‘Caium Secundum para duoviro’; mais abaixo, ‘Cuspium Pansam para conselheiro’. Bom, qualquer pessoa com um mínimo de cultura clássica sabe que tem algo errado aí. E não estou falando apenas da comparação chula com os processos eleitorais numa cidade romana (coisa que o jornal americano não fez de maneira tão pobre). Não existe o nome Caium Secundum em latim. Nem Cuspium Pansam. Talvez ele esteja falando de Gaius Secundus e de Cuspius Pansa. Ah sim, porque Mainardi não sabe a diferença entre o caso nominativo (Caius) e o acusativo (Caium). Em um texto em latim o acusativo é usado para identificar, entre outras coisas, o objeto direto (e não o sujeito). O Lula pode não saber disso, nem a Dilma. Mas da minha anta eu não esperava uma baixeza destas, coisa de primeira aula de latim. O Ivan Lessa e o Paulo Francis saberiam, e principalmente o Calvino – que, afinal de contas, era um grande defensor dos clássicos.

Mas essa é a cara da direita brasileira: a cultura não é algo defendido como um direito de todos. Ela é usada como um porrete contra inimigos políticos, movida pelo preconceito social. Mesmo por quem não tem a menor idéia do que é que está falando.