Essa é uma declaração de voto diferente. Na verdade, até sem sal. Mas não é menos sincera por isso. Por anos, desde que me entendo por gente, eu sempre amei política, sempre vivi meus anos mais interessantes em época de eleição. E sempre fui PSDBista. Mais especificamente, da ala Covista. Um sujeito que é eleito apesar de parecer um sapo com enxaqueca merece meu respeito. Mas o motivo principal é que minha simpatia sempre esteve junto à social democracia mais mercadista. A idéia de que o Estado deve promover iniciativas indutoras de crescimento econômico (especialmente em áreas estratégicas) e deve prover a sociedade de um colchão que proteja as camadas mais pobres. Mas o Estado não é responsável pelo crescimento. Sempre fui a favor de privatizações, e ainda sou. Se um dia quiserem vender a Petrobrás, count me in. Só não vendam por preço de banana, entregando para os ianques. Sou contra privatização de universidades, escolas e hospitais, mas por um motivo circunstancial: eu já dei aula em escolas e universidades particulares, e sei do que esta corja é capaz. Dê-me Harvard e te darei duas USPs, eu sempre digo. Mas enterre suas UNIPs e Universos no cu. Fui um apoiador entusiasta da primeira eleição do FHC, e um pouco menos da segunda. Por volta de Outubro de 2002 eu já achava que a era FHC tinha deixado um bom legado de estabilidade e responsabilidade fiscal, mas no geral achava aquilo tudo uma bela oportunidade desperdiçada. Daí minha animação com a candidatura Serra em 2002. Deu no que deu.

Primeiro de Oxford, depois de Roma, mais tarde em Heidelberg – nunca em exílio, como aqueles grandes intelectuais Mainardi e De Carvalho – assisti primeiro com desespero, depois com desgosto, depois com maior aceitação e finalmente com simpatia os 8 anos da era Lula. Sou pouco qualificado para falar disso, mas em termos de política econômica achei o governo melhor do que o do FHC – porque tinha mesmo que ser. Afinal, o bom do FHC foi mantido, o Palocci soube manter as metas de inflação, o governo soube aproveitar os bons momentos da economia mundial e souberam administrar a crise muito bem. Foi o NPTO quem me convenceu que a base disso estava nas reformas do FHC (veja só), mas todos sabemos que em política uma coisa nunca leva necessariamente a outra. O governo Lula podia ter feito uma cagada, podia ter comprado ações do Fannie Mae e do Freddie Mac, sei lá. Mas não fizeram isso. Socialmente falando, cada vinda minha ao Brasil foi um golpe nas minhas antipatias ao PT. É preciso passar 8 anos fora do Brasil, isolado da família e dos amigos, para apreciar o quanto esse país mudou. Ou ler muitos relatórios do IPEA, o que na prática dá na mesma.

E aí no final de 2009 começou a campanha eleitoral. Eu cheguei a considerar o voto na Dilma, mas fui inicialmente demovido desta idéia mais uma vez pelo NPTO, com o argumento: ‘se você vota na Dilma, quem vai votar contra?` Pois é, agora ele vai lá e me escreve isto, o filho da mãe. Foi então que me dei conta que o candidato de meus sonhos é um pesadelo de candidato. Serra sempre foi tido como um bom economista, um bom gestor público, teve uma boa gestão no ministério da saúde, brigou com a equipe econômica do Malan por boas causas (sempre perdendo), na campanha de 2002 conseguiu brigar com os Sarneys. Muita coisa boa.

Mas ao chegar 2010, ele revelou uma coisa: é um homem sem idéias. Um candidato sem projeto. Um político sem uma visão do Brasil. Se isso soa vago demais, é porque é vago mesmo. Mas não é menos importante. O cara que desde criança (segundo a própria autobiografia) dizia que seria presidente do Brasil, que foi sucessivamente ministro da saúde, candidato a presidente, prefeito de São Paulo, governador de São Paulo, conseguiu chegar a esta eleição sem um projeto, sem nada que me motivasse a votar nele. Pior: as más companhias que o cercaram fizeram da campanha dele um factóide. Cada um vê no Serra o que quer: o anti-comunista (não é); o arqui-inimigo do Estado intervencionista (haha); o adversário de boas políticas públicas (não é). E ele deixa. Aliás, ao jogar pra galera cria um samba muito doido: aumento do salário mínimo, bolsa família e aposentadoria. Tudo isso baseado na idéia de que vai haver dinheiro extra, ‘porque o Zé sabe onde cortar’. Muito medo.

Não compro as críticas feitas por várias pessoas às alianças do Serra. Certo, ele está aliado com os Demos, e tem um vice que é um índio. Mas o vice da Dilma não é nem de longe flor que se cheire. Eu achei muita graça de um post feito pelo Idelber Avelar umas semanas atrás, sobre as batalhas cruciais que a esquerda precisava travar para manter a escória direitista longe do poder e desinfetar o Brasil. Eu sou fã do Idelber, mas ele tem essa retórica de Catilinária que às vezes incomoda: faltou ele falar da eleição do Collor em Alagoas, dos Sarneys no Amapá e Maranhão, do Sérgio Cabral no Rio (Cabral, progressista? Com aquela base de prefeitos Garotinhescos?). Todas apoiadas pelo governo Lula. Entusiasticamente. Mas isso é aliança, e nesse país não se governa sem elas. Se o PT ainda tem vergonha disso é problema dos petistas, que ficam super excitados nas eleições e depois passam 4 anos vivendo em crise de consciência e se subdividindo em dissidências.

Eu ficaria feliz com uma eleição da Dilma. Acho que no frigir dos ovos ela é melhor candidata do que o Serra. E não acho que ela irá cercear minhas liberdades. E se ela fizer isso, eu aviso o Mainardi: arruma um quarto para mim, que Veneza é minha próxima parada!! Não há mais corrupção sob o PT do que havia sob o PSDB ou sob a ditadura (não vou falar do governo Sarney e Collor porque dá azar). Mas eu acho que se eleger pra continuar o que o governo Lula fez, apesar de bom, não é o bastante para ter meu voto. Nada está claro no programa dela: ela vai continuar a gastança dos últimos dois anos? Ao invés de reforma do sistema universitário vamos continuar a expansão (que aliás garantiu meu emprego)? Vamos continuar tendo universidades sem bibliotecas? Vamos continuar achando que governar é construir estradas na Amazônia? Que o futuro do Brasil está no ciclo do açucar?

É aí que entra a Marina. Se todos os candidatos estão fazendo campanha em cima do continuismo (bom, um deles quer defender a liberdade da grande imprensa), ela é quem representa o novo, o diferente. A Marina representa o progresso nos moldes em que eu acredito. Políticas sociais boas devem ser mantidas de forma repensada; a idéia de uma terceira geração de políticas sociais só é defendida explicitamente por ela. Quando dizem que Marina seria queimada pela direita sem o apoio da esquerda PSTU-PSOL, isso é um bônus: Marina já fez todos os sinais de que pretende incorporar os setores mais avançados da sociedade brasileira, na universidade, empresariado, movimentos sociais. O problema é que sempre pensamos em política como conchavo parlamentar, mas existe uma etapa anterior a isso (ou deveria existir), a da formação de uma coalização de grupos sociais. Ponto para ela, que pode fazer isso a partir de bases e valores mais justos. Mas o MAIS IMPORTANTE de tudo. Marina é a candidata que representa o futuro por estar ligada a ele de maneira responsável. A ecologia é o grande debate das próximas décadas, e o Brasil tem uma posição de liderança natural nesta área. Liderança não só pelo que tem de riquezas naturais, mas por sua responsabilidade: uma sociedade em construção tem o dever de se construir em bases mais justas, mais comprometidas com nossos filhos e descendentes, mais sustentáveis.O debate não é entre desenvolvimento econômico e preservação – a não ser que você seja produtor de soja e cana de açucar. O debate é sobre como você vai se desenvolver sem botar fogo nos navios, como você vai construir uma nação que não seja um aglomerado cacofônico de operários, sindicalistas, professores, funcionários públicos, banqueiros e bancários destruindo a tudo e a todos.

Na minha opinião só existem bons motivos para votar na Marina. Serra e Dilma são excelente candidatos (ainda acho que o Serra real é MUITO melhor do que o Serra-Palin 2010). Mas eles representam o hoje. São os candidatos de 2002 concorrendo em 2010. Marina é a candidata de 2014 concorrendo em 2010. O debate que nós não poderemos evitar já começou, e nós podemos entrar nele agora de maneira racional ou quando o futuro entrar por nossa porta chutando nossa cara. Marina é evangélica, como uma parte crescente da população brasileira. Por mais que eu não acredite em deus e ache que a igreja evangélica é o cristianismo retornando ao século III, esse é um grupo relevante em nossa sociedade. Um grupo que ficou ainda mais relevante graças aos progressos realizados nos governos FHC e Lula. Não votar nela por suas crenças religiosas, quando ela já deu todas as indicações de que isso não é um problema para ela, seria um estupidez tão extrema quanto votar em um candidato porque é católico.

Deixar de votar na Marina porque ela não vai vencer seria ainda mais estupido na minha opinião. Essa é uma lógica que faz sentido num segundo turno, quando o embate político fica mais dicotomizado. Mas no primeiro turno o que devemos fazer é votar com convicção. Todas as pessoas inteligentes têm o dever de votar no candidato em que acreditam, para elevar o nível do debate político, para melhorar a qualidade de nossa representação. No segundo turno a gente derrota o inimigo, mas no primeiro turno a gente constrói um país melhor.

(ah sim, para não dizerem que eu fugi disso: governador Gabeira, Senador ainda não sei, Federal Alessandro Molon, Estadual Marcelo Freixo – dos verdes aos vermelhos!).

Ps: eu fiquei tão simpático ao Lula que acabei chamando a Marina Silva de Marina DA Silva. O erro foi sem querer, mas o trocadilho certamente diz muito sobre o que eu penso. Obrigado ao sempre atento Celso por ter notado!