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Uma coluna muito oportuna de Fernando de Barros hoje, na Falha. Eu acho a Dilma competentíssima, e estou confiante de que ela fará um bom governo. Mas tenho dois senões:

1. Não acho que ela seja uma boa candidata. Que ela não é uma ‘candidata natural’ não é um problema, pois o Serra diz que é e e no final das contas é ainda pior candidato. Mas ela não fez currículo, não cresceu dentro do partido, dentro da política, e para mim a crítica mais certa que se pode fazer a ela é a de que ela não tem experiência política para ser presidente. Repetindo: dos dois candidatos ela é a melhor preparada, dos dois projetos de país o dela é o melhor e eu vou votar nela. Mas ela foi inventada pelo Lula. Bela invenção, mas isso tem um preço – ela não foi testada, mastigada pela imprensa, e eu acho que o pânico do início do segundo turno tem a ver com isso, quando acusações eram feitas e ‘pegavam’ (felizmente ficaram para trás). Isso vai ser um problema do PT no futuro – ou do Brasil.

2. A 4 dias do segundo turno, o site Dilma Presidente, o oficial da campanha, ainda não tem um programa de governo. Só tem uma carta bobinha do Marco Aurélio, repetindo generalidades. A melhor justificativa para votar na Dilma que eu li nessa campanha foi a do NPTO, mas mesmo ele se resume a duas coisas: falar da compêtência e seriedade pessoal dela e elogiar o governo Lula, do qual ela fez parte num posto chave. Isso não quer dizer que ela tenha o melhor plano de governo (ela não tem um plano de governo), e eu já reclamei disso aqui. Às vésperas da eleição eu continuo decidido a votar na Dilma, mas sei que em certa medida isso é uma aposta. Ela não vai fazer o mesmo governo que o Lula: o contexto político nacional é outro e a situação econômica internacional é outra. O Lula pegou o país numa situação difícil, mas num contexto internacional favorável. Ela vai pegar um país com déficits e endividamento crescentes, em um contexto internacional muito desfavorável. Achar que ela vai manter o pé no acelerador é bobagem.

Mas eu espero que alguém venha aqui e comente mostrando que eu estou errado. Apesar de votar nela, gostaria de fazê-lo sem essa sensação estranha de estar sendo irresponsável. Vou fazê-lo por causa do governo Lula, e no próximo post (quando sair, ando enrolado com meu paper) pretendo explicar porque – além de retomar o debate sobre universidades. E aqui entra o desastre da candidatura Serra: tivesse a oposição um bom candidato com um programa de governo factível, ou tivesse a esquerda outro(a) candidato(a) progressista, e meu voto certamente estaria em outro lugar. Como já esteve, poucas semanas atrás.

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A campanha acaba de sair de seu nível chulo das semanas passadas. Atingiu um nível de ridículo sem precedentes. Serra foi alvejado por uma bolinha de papel. A Grobo, a Falha, etc., estão fazendo o máximo possível para transformar isso em algo relevante. Isso é do jogo, e o jogo é de palhaços, então que façam palhaçada. Serra já havia enterrado qualquer passado digno que pudesse ter tido quando deixou sua mulher se pronunciar sobre aborto e criancinhas. Mas agora virou um cara ridículo, um paspalhão. Ou um energúmeno, no sentido usado pelo Merval Pereira sobre o Lula, na coluna de hoje. Com ele foram enterradas as grandres empresas jornalísticas brasileiras, que estão se expondo ao maior ridículo de todos os tempos.

É curioso contrastar a atitude de Serra com a de Collor, que na gloriosa campanha de 1989 foi a Niterói, foi alvejado por um ovo e ao invés de botar a mão na cabeça e fazer uma tomografia ficou putaço e queria partir pra porrada (bons tempos aquele em que o PT jogava ovos no Collor!). Bom, para quem quiser ir às próximas manifestações do Serra e fazer algo tão cretino quanto jogar bolinhas de papel nele, fica a dica: treine aqui, antes. E use papel higiênico, sujo de preferência, que ao menos depois ele vai ter algo a mostrar para as câmeras.

Disclaimer: esse blog condena qualquer ato de violência, física ou verbal. O que machuca na bolinha de papel não é a fisicalidade do ato, mas a humilhação. O próximo passo seria a torta na cara, o que não se faz.

Final de semana super enrolado, só vai dar tempo de secar o Cruzeiro (dá-lhe, Galo!!!)

O Guardian está blogando o anúncio dos cortes no orçamento britânico. Minha cobertura preferida é o blog do News Arse, com o comentário: “13:02 – Retirement age up to 66 in 2020, four years earlier than planned.  55 year-olds around the country are left absolutely livid.”

O fato de que os conservadores estão aproveitando a crise para impor sua agenda é mais do que uma mera hipótese. Pode-se dar adeus também aos Lib Dems por mais três gerações, pois eles estão simplesmente arruinando sua base. Se a idéia do Nick Clegg era agradar os eleitores conservadores para tentar crescer em cima deles, faltou um detalhe: eles já têm o partido conservador para votar. Mas um monte de trabalhista que estava insatisfeito com o Labour vai voltar pra sua origem, se o partido não acabar em fratricídio.

O debate na Inglaterra deveria nos interessar diretamente aqui, especialmente em ano de eleições. Em primeiro lugar, porque mostra como uma década de gastos no setor público pelos trabalhistas, somada a uma crise financeira mundial, coloca um país de joelhos. Nesse caso, poderia ser um argumento para a oposição, se ela não tivesse abraçado a gastança exagerada com tanta força nessa campanha. Em segundo lugar, porque mostra que um Lula vale 490.000 Gordon Browns, e a merda em que estaríamos se o governo brasileiro não tivesse sido um dos poucos a pisar no acelerador em 2008. Essa é uma das grandes vantagens de se ter um governo realmente de esquerda (vocês não vão me ver escrevendo isso aqui com muita frequência) e uma oposição letárgica, que não foi capaz nem mesmo de protestar ante à expansão do Estado. Paisinho complicado, esse aqui!

E então, de acordo com a ONG Repórteres sem Fronteiras, o Brasil subiu 13 pontos no ranking de liberdade de imprensa. Tá lá, no Globo, que tirou a notícia do site da BBC. Duas coisas:

1. Vamos ver a FSP, o Estadão, Veja e quetais estampar essa notícia na capa? Acho que não.

2. Um ataque muito mais insidioso à liberdade de imprensa é indicado pela quantia de reportagens no Globo que são copiadas da BBC Brasil. Estão cortando gastos com jornalismo, abdicando de seu papel. Isso sim vai ter consequências nefastas, quando dependeremos de instituições estrangeiras para saber o que acontece no Brasil.

Bom, felizmente a pesquisa foi feita antes de o Estadão começar a demitir psicanalista com opiniões divergentes das dos donos da casa…

Postar aqui anda complicado: estou enrolado com a organização de um colóquio que vai acontecer daqui a duas semanas no instituto alemão de arqueologia de Roma, sobre o saque de Roma em 410 d.C. Em meio a preparar um trabalho partindo do zero, estou envolvido com emails confirmando vôos dos palestrantes, hotéis (todos querem trazer a mulher, nenhuma quer trazer o marido – interessante), comida, patrocínio etc. Isso vai me valer dois meses perambulando pelas terras outroras dominadas pelo império, se eu não morrer de infarto (ou seria enfarto) antes.

Cool Britannia foi o slogan usado pela mídia (especialmente americana) nos anos 90 para ressaltar o quão maneiro devia ser inglês naquela época. Tinha David Beckham e Spice Girls, mas também tinha Blur e Oasis, Michael Owen, Tony Blair nos seus bons tempos. Isso acabou. A crise atingiu o UK em cheio, e a eleição dos conservadores com o apoio bizarro dos Lib Dems acaba de produzir a mais violenta revisão orçamentária que eu já vi naquelas plagas (bom, eu era uma criança quando Tatcher chegou ao poder). Espera-se cortes da magnitude de 25%, o que certamente irá afetar a sociedade britânica de uma maneira inimaginável – apesar de os LibDems tentarem se salvar dessa, dizendo que sua marca será sentida nos cortes (very reassuring, mas isso pode ser um tiro pela culatra no futuro). São previstos cortes de 490.000 funcionários públicos nos próximos anos.

Esse é mais um dos muitos trunfos do governo Lula: a crise chegou, seus efeitos ainda são sentidos e serão enquanto o mundo estiver mal das pernas, mas estamos MUITO melhor do que nossos colegas do andar de cima. É difícil usar esse argumento no debate, o do ‘teria sido muito pior se o PSDB fosse governo’, pois o outro lado pode argumentar que existem muitas dificuldades na economia do jeito que é, que precisamos de mais emprego, que os preços ainda são altos, juros, etc. Seria um debate interessante, pois talvez em alguns momentos o Serra se distraísse e começasse a dizer coisas inteligentes, economista que é. Mas lendo o Noblat hoje, acho que isso não vai acontecer: seus planos para a economia são ‘mudança ampla’. Uma pena: ele diagnostica um problema sério, mas é incapaz de formular uma crítica ao governo ou uma alternativa para o que está sendo feito.

É difícil postar qualquer coisa quando você perde o entusiasmo por uma eleição polarizada. Você acaba falando meio que sozinho, o que é sempre chato. Por isso eu cheguei à conclusão que o ideal a fazer seria escrever um post comparando as diversas propostas da Dilma às do Serra. Seria mais uma forma de explicar porque é que este blog apoia a Dilma. Eu pensei, o primeiro post deve ser sobre educação, visto que este tema me interessa demais.

Qual não foi minha surpresa ao chegar na página oficial da Dilma e ver que não tem nenhuma proposta sobre educação. Nenhuma! Eu certamente estou mal informado, mas só o que vi ali foram “sugestões” de eleitores. Comentando com um amigo mais chegado ao PT, ele disse que as propostas foram retiradas dali quando começou a história de aborto, o que me parece um contra-senso. Não dá para um partido, depois de 8 anos no poder, chegar a uma eleição com uma candidata que é claramente bem preparada e não ter um programa para apresentar. Não dá para um partido considerar seriamente que “continuidade” é o mesmo que “programa de governo”. Tem que explicar: continuidade como? De quê?

E não me venham os eleitores do Serra me dizer que ao menos ele tem propostas para educãção no site dele. É verdade, tem sim. Mas antes não tivesse. Porque além de ter que ler platitudes dignas de um sujeito sem idéias o internauta ainda dá de cara com uma foto do Serra e do Índio sorrindo – e a única coisa que me dá mais medo do que a imagem do Serra sorrindo é a idéia do Índio feliz (algo de mau está acontecendo…). Bom, felizmente o Zé Knust leu o programa do Serra e discutiu seu conteúdo, então recomendo a visita ao seu site.

Vladimir Safatle é professor de filosofia na USP, e tem se notabilizado fora do meio acadêmico por suas  intervenções pertinentes neste debate eleitoral. Ele redigiu esse manifesto, com o qual eu concordo e aproveito para divulgar. Professores universitários que quiserem assinar, por favor enviem seu email para ele (aqueles que não o tiverem me contactem – não vou expor o email de um colega para trolls e vendedores de viagra).

Caros,

Professores universitários escreveram este manifesto a respeito das eleicoes. Estamos colhendo assinaturas. Aqueles que concordarem com seus termos, podem mandar seu nome e universidade para mim. Ele deve ser assinado apenas por professores universitários. Aqueles que nao concordarem com seus termos, bem, isto demonstra como a amizade é algo que ignora fronteiras. Um grande abraco,

Vladimir


Manifesto em Defesa da Educação Pública

 

Nós, professores universitários, consideramos um retrocesso as propostas e os métodos políticos da candidatura Serra. Seu histórico como governante preocupa todos que acreditam que os rumos do sistema educacional e a defesa de princípios democráticos são vitais ao futuro do país.

Sob seu governo, a Universidade de São Paulo foi invadida por policiais armados com metralhadoras, atirando bombas de gás lacrimogêneo. Em seu primeiro ato como governador, assinou decretos que revogavam a relativa autonomia financeira e administrativa das Universidades estaduais paulistas. Os salários dos professores da USP, Unicamp e Unesp vêm sendo sistematicamente achatados, mesmo com os recordes na arrecadação de impostos. Numa inversão da situação vigente nas últimas décadas, eles se encontram hoje em patamares menores que a remuneração dos docentes das Universidades federais.

Esse “choque de gestão” é ainda mais drástico no âmbito do ensino fundamental e médio, convergindo para uma política sistemática de sucateamento da rede pública. São Paulo foi o único Estado que não apresentou, desde 2007, crescimento no exame do Ideb, índice que avalia o aprendizado desses dois níveis educacionais.

Os salários da rede pública no Estado mais rico da federação são menores que os de Tocantins, Roraima, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Espírito Santo, Acre, entre outros. Somada aos contratos precários e às condições aviltantes de trabalho, a baixa remuneração tende a expelir desse sistema educacional os professores mais qualificados. Diante das reivindicações por melhores condições de trabalho, Serra costuma afirmar que não passam de manifestação de interesses corporativos e sindicais, de “tró-ló-ló” de grupos políticos que querem desestabilizá-lo. Assim, além de evitar a discussão acerca do conteúdo das reivindicações, desqualifica movimentos organizados da sociedade civil, quando não os recebe com cassetetes.

Serra escolheu como Secretário da Educação Paulo Renato, ministro nos oito anos do governo FHC. Neste período, nenhuma Escola Técnica Federal foi construída e as existentes arruinaram-se. As universidades públicas federais foram sucateadas ao ponto em que faltou dinheiro até mesmo para pagar as contas de luz, como foi o caso na UFRJ. A proibição de novas contratações gerou um déficit de 7.000 professores. Em contrapartida, sua gestão incentivou a proliferação sem critérios de universidades privadas. Já na Secretaria da Educação de São Paulo, Paulo Renato transferiu, via terceirização, para grandes empresas educacionais privadas a organização dos currículos escolares, o fornecimento de material didático e a formação continuada de professores. O Brasil não pode correr o risco de ter seu sistema educacional dirigido por interesses econômicos privados.  

No comando do governo federal, o PSDB inaugurou o cargo de “engavetador geral da república”. Em São Paulo, nos últimos anos, barrou mais de setenta pedidos de CPIs, abafando casos notórios de corrupção que estão sendo julgados em tribunais internacionais. Seu atual candidato à presidência não hesita em tentar explicitamente interferir no sistema judiciário e em controlar a produção da informação. Destrata jornalistas que lhe dirigem perguntas embaraçosas, enquanto a TV Cultura demite profissionais que realizaram reportagem sobre pedágios.

Sua campanha promove uma deseducação política ao imitar práticas da extrema direita norte-americana em que uma orquestração de boatos dissemina a difamação manipulando dogmas religiosos. A celebração bonapartista de sua pessoa, em detrimento das forças políticas, só encontram paralelo na campanha de 1989, de Fernando Collor.

Matéria no UOL reporta que José Serra se pronunciou hoje em favor das uniões civis entre homossexuais:

“Acho que a questão do casamento propriamente dito está ligada às igrejas. A união em torno dos direitos civis já existe, inclusive, na prática, no Judiciário. Eu sou a favor do efeito do direito. Outra coisa é o casamento, que tem o componente religioso. Cabe a igreja decidir sua posição”, afirmou o tucano.

A Dilma resolveu não ficar para trás e disse coisa semelhante hoje (no Terra): “A candidata à presidência da República pelo PT, Dilma Rousseff, afirmou que a união civil entre homossexuais não é questão relativa à religião. “O que é relativo à religião é o casamento entre homossexuais, união civil é uma questão de direitos civis”, explicou.” E depois acrescentou, pra gerar mais confusão: “O compromisso que assumo, posto que o Brasil é um Estado laico, é de jamais enviar legislação ou sancionar lei ao direito das religiões”, garantiu. A candidata enfatizou ainda que “o casamento entre homossexuais ou outra opção sexual é algo que ninguém pode interferir”.

Agora já não sei mais o que dizer à Sra Amiano – se casamento é coisa de igreja, isso quer dizer que não estamos casados. Ela tem o ‘efeito do direito’. Mas casamento não.

Que bosta, esse era um post pra criticar o Serra, a quem eu até havia chamado de ‘picareta invertebrado’. Mas a política brasileira sempre confirma suas piores suspeitas, e agora temos dois candidatos à presidência tutelados por fundamentalistas religiosos.