Hoje eu tomo posse (eba!!) como professor da Unifesp, no departamento de História. Quer dizer, a posse está marcada para hoje. Se eu vou tomar posse ou não vai depender de eu ter entendido direito a enorme lista de documentos que me foi entregue. De alguns eles querem uma cópia, de outros querem duas, de todos querem ver os originais – mesmo que eu já tenha entregue cópias de quase todos estes documentos quando me inscrevi para o concurso (cópias que ainda não devolveram). Eu não sei ainda o que a posse significa, mas imagino que será uma coisa rápida, desprovida de maiores rapapés ritualizados.

Minha impressão é que aqui no Brasil nós estamos desritualizando as cerimônias de investidura reais que chegaram com os portugueses. Tomar posse é uma linguagem extremamente feudal. O fato que isso envolve cartórios, declarações de fé, etc, mostra que estamos no meio de um mundo mais próximo dos trabalhos de meus colegas medievalistas do que da racionalidade burocrática do Weber. Existe um belo livro do Joseph Strayer, As Origens Medievais do Estado Moderno (aqui em inglês; a edição portuguesa está esgotada), na qua ele mostra como o Estado que conhecemos, com sua burocracia, evoluiu a partir do século XII e XIII. No caso de Portugal e do Brasil, essa combinação entre burocracia medieval e moderna, weberiana, me parece ser uma chave mais interessante para ler nossa história – como eu nunca li o Faoro, dependo dos meus amigos que leram e disseram que ele segue uma chave mais ‘patrimonialista’ para isso.

O que é engraçado é que enquanto eu xerocava toda a papelada eu me lembrava dos comentários que circulavam em Oxford, sobre como aquele lugar é estranho: a cerimônia de colação de grau é em Latim; a biblioteca Bodleyan te faz ler um juramento na sua própria língua materna (e não em inglês), no qual você se compromete a não roubar ou danificar livros; alguns colleges requerem que você jure não se jogar no lago, etc. Ou seja, uma sociedade cheia de rituais. Mas o interessante é que em nenhum momento eles te pedem um atestado de bons antecedentes reconhecido em cartório. É mais ou menos como a monarquia inglesa: eles mantém as formas, mas aos poucos se livram do conteúdo. Nós mantemos o conteúdo, mas nos livramos das formas.