Aborto é coisa muito séria. Séria demais para deixarmos nas mãos de políticos, quanto mais para deixarmos nas mãos de homens (sempre homens, nenhuma mulher) da igreja (qualquer igreja). Nesse segundo turno a questão voltou com força total, infelizmente. O problema é que essa é uma questão falsa, pois não existe ‘o aborto’, isolado de uma série de outras questões sociais, políticas e morais.

Eu sou contra o aborto. Aliás, não conheço ninguém que seja a favor do aborto. Seria uma monstruosidade ser a favor do aborto, não importa se aos 2 ou 8 meses de gravidez. Mas essa é uma afirmação estúpida. Ninguém é a favor do aborto porque fazer um aborto não é uma coisa divertida, não é como ir à praia ou ver um filme do Oscarito. Todo aborto é uma tragédia, e eu não imagino ninguém acordando com um sorriso na cara e dizendo ‘hoje, eu vou fazer aquele aborto! pode botar a cerveja no freezer, porque depois disso eu vou celebrar’! Independente do estágio de desenvolvimento do feto, o que está ali é uma idéia de uma pessoa. Um projeto de vida humana. Um pensamento de um serzinho que vai fazer cocô, chorar e quando crescer vai responder pros pais. Se livrar disso é uma barra pesadíssima.

Mas é justamente por isso que eu sou entusiasticamente a favor do direito sagrado de escolha. Porque a vida é uma coisa enorme, e não cabe em alguns poucos preceitos religiosos – a despeito dos argumentos fundamentalistas de alguns. Existem casos demais, variedades de situações, problemas e complicações, e em muitos casos fazer um aborto, essa coisa horrível, é a solução que vai parecer mais adequada para a mulher (ou o casal). Para uma pessoa se colocar nessa situação é porque o cenário alternativo não é nada legal. Quando as pessoas se pronunciam contra o aborto normalmente pensam naquele fantasma da consciência moral, o casal de adolescentes irresponsáveis que fez uma cagada e engravidou. Nesse cenário, um aborto é visto como um jogo, uma brincadeira. Mas não é. É uma escolha, que deixa sequelas psicológicas e muitas vezes físicas. Com certeza, existem pessoas com sérios problemas, que não pensam nisso, que não vêem problemas nessa irresponsabilidade, mas essa é uma minoria que precisa de acompanhamento e aconselhamento. Nós gostamos de argumentar posições morais a partir de absolutos, mas a vida não funciona assim.

Uma matéria chocante no IG (via Nassif) mostra que o SUS registra mais atendimentos de mulheres que tiveram a gravidez artificialmente interrompida do que de casos de câncer. Um estudo indica que 15% das mulheres brasileiras já realizaram um aborto durante sua vida. Isso é feito muitas vezes de maneira ilegal, usando remédios falsificados, colocando em risco a própria mãe. Porra, se você é um conservador desalmado, pense ao menos no custo que isso traz para o sistema público de saúde, o dinheiro que poderia ser cortado dos seus impostos!!!

Mas aí vem essa campanha eleitoral. Eu ia colocar um link para algum site acusando Dilma de ser a favor do aborto. Fui lá, procurei com o google, achei um monte. Mas é um lamaçal tão grande que eu não tenho estômago de fazer isso. Tem vídeo, o escambau. Quem tiver estômago que o faça. Mas essa imundície também corre do lado de cá: o blog Dilma Presidente (que não é da campanha da Dilma, apesar de fazer campanha pra ela) tascou lá o post: Serra é o único candidato que já assinou ordens para fazer Abortos (sem link, por isonomia). Uma nojeira.

Quando ministro da saúde, em 1998, Serra assinou uma norma técnica regulando a prevenção e o tratamento de mulheres que sofreram violência sexual, incluindo o aborto assistido pelo Estado. A norma foi um grande avanço, e foi esse tipo de coisa que fez com que por um tempo eu tivesse enorme simpatia pela idéia de ter o Serra como presidente. às vezes ainda me sinto nostálgico. Mas agora ele vai lá e diz ser contra a legalização do aborto, em resposta às cobranças da CNBB. Uma pena. Enquanto isso, Dilma diz que é pessoalmente contra o aborto, mas que essa é uma questão de saúde pública – e que ela espera que os setores religiosos participem desse debate. Way to go, dona Dilma.