Esse foi o primeiro debate desta eleição que eu assisti. Trabalho e prazos explodindo me mantiveram afastado dos outros. Os prazos continuam explodindo, mas eu não consegui em segurar ontem. Ou seja, não tenho como comparar o debate com os anteriores. Mesmo assim, tem algumas observações que eu quero fazer:

1. Foi um bom debate. Rolou baixaria, mas também rolou conteúdo. Digamos, foi melhor do que eu esperava e pior do que eu gostaria. Deu para ver claramente as diferentes concepções dos dois candidatos, que me pareceram mais semelhantes do que diversos. Um bom exemplo é a abertura: Serra enfatizou o investimento na educação através do mercado, estimulando a oferta. Dilma enfatizou o investimento na educação através da qualificação dos professores. Os dois tocaram nos mesmos pontos, mas de universos mentais completamente diferentes, e enfatizaram estas diferenças. Eu achei que a Dilma se saiu melhor, mas foi uma vitória por pontos.

2. Eu achei o Serra melhor debatedor em aspectos formais: pareceu sempre mais calmo e controlado (era para estar mesmo, ninguém o acusou de comer fetos no almoço), falava mais devagar e de maneira mais clara. Tocou em pontos prosaicos, como a Santa Casa, provavelmente procurando se aproximar do dia-a-dia do eleitor (até em Resende tinha Santa Casa). Mas não disse nada, e quando disse seria melhor que tivesse se calado. Foi esperto em sempre usar a mesma tinta para pintar a Dilma, como duas caras (ela sacou o jogo e o chamou de mil caras).  Várias vezes disse que ela não tinha respondido à pergunta.

3. Dilma pareceu mais nervosa e agressiva. Minha mulher, que não é brasileira e não vota, concordava com o que ela dizia mas não gostava da postura dela (calma, a Sra Amiano não vota!). Ela se saiu bem melhor em questões de substância, mas não foi clara. Eu acho que o que falta à Dilma é o famoso ‘wrap it up’, o ‘qual é o ponto’ que daria sentido às suas colocações. O efeito disso é que quando ela subia de tom dava pra ver que ela estava sendo incisiva, mas não ficava claro porque. Exemplo: ela segurou um bloco inteiro segurando de privatização. Bom, nesse caso eu discordo mesmo dela, mas faltou ela dizer algo que amarrasse as alegações dela. Ela foi esperta e envolveu o Serra com FHC, Light, Petrobrás e Pré-Sal, mas eu devo ter perdido a parte onde ela deixou claro porque isso afeta os eleitores em geral.

 4. Quando o Serra levantou a lebre do Ministério da Segurança, uma idéia que é ruim de qualquer modo que você ohe para ela, aí é que eu acho que a Dilma deixou de passar oportunidades de ouro. Afinal de contas, para que é que serve a Polícia Federal que o FHC sucateou? Quando a polícia civil e a militar sairam no braço nas ruas de SP durante o governo do Serra, isso era um exemplo de integração? Vender a capital do estado pro PCC e deixar o centro entregue à sua fama de ‘cracolândia’, é disso que ele está falando? Enfim.

5. No final das contas, uma boa análise é a do Noblat – que como o NPTO disse uma vez é muito melhor quando escreve comentários do que quando ‘recorta e cola’ matérias e editoriais dos outros (talvez porque quando ele assina ele sinta que tem uma reputação a zelar) -, de que a Dilma atirou em dois alvos, animar o público interno e jogar as calúnias do Serra e de sua mulher (que papelão, dona Serra!) pra fora. Ao menos no caso do público interno parece que ela acertou, a julgar pelos comentários entusiasmados pela blogosfera.

ps: Dilma deixou passar o fato de Serra culpar o governo federal pelos indíces de violência nos estados, ao mesmo tempo em que a redução na criminalidade em SP era reservada para mérito dele.