Um exercício de futurologia, lá no NPTO: como seria um governo Serra? Eu já declarei meu voto aqui, primeiro na Marina, depois na Dilma, assim como já disse porque me desencantei primeiro com o PSDB e depois (e de maneira mais grave) com o Serra. Mas mesmo assim não posso deixar de salientar o quanto eu discordo do post do NPTO, que eu achei que não faz juz à companhia dos outros posts que eu leio avidamente por lá, todos os dias. Considerem isso aqui uma homenagem a um grande amigo a quem eu muito admiro, e por quem vou sacrificar o tempo que eu deveria estar usando para preparar minha apresentação pro colóquio desta sexta-feira.

Em primeiro lugar, pelo tipo de exercício, a futurologia. Previsões, tendências, estas coisas fazem sentido com coisas que podem ser quantificadas, que podem ser inseridas numa série. Coalizões políticas sólidas também ajudam a tentar adivinhar um futuro, como será um governo. Mas isso não se aplica aqui. Especialmente porque minha impressão é de que: 1. muitas das coisas que o Celso disse se aplicam à candidatura Dilma também; 2. ele está escrevendo pro público interno, de pessoas que não só concordam com o voto dele (meu caso) mas que vêem essa eleição como uma batalha na qual tudo aquilo em que acreditam pode ser perdido (o que eu não sei se é o caso dele, mas isso aparece nos comentários).

Já de cara somos convidados a fazer uma comparação bizarra: o povo brasileiro queria o Ghandi e agora corre o risco de ficar com Bush. Não está claro quem é o Ghandi aí, me parece que o problema ainda são os que votaram na Marina (mas não tenho certeza. Isso é um problema, porque eu jamais teria votado no Ganghi para síndico do meu prédio). O Bush, no caso, é o Serra. Duas observações: o povo brasileiro queria Dilma, por isso ela teve a votação espetacular que teve. O Serra não é o Bush, e abaixo seguem algumas razões porque eu digo isso.

Eu concordo que um governo Serra seria um governo situado à direita. Não sei o quanto ‘de direita’ este governo seria, mas concordo que um governo Dilma seria muito mais compromissado com políticas que vizassem minimizar as desigualdades sociais que ainda são escandalosas (mesmo com todo o progresso dos últimos 18 anos – e tô incluindo o Itamar aí). Mas dizer isso não basta: o que significa ser de direita? Lembrem-se que Dilma vai precisar de um arco de alianças escalafobético, para dizer o mínimo. O governo dela tem o apoio entusiasmado da família Sarney, do Collor, de usineiros e grandes proprietários de terras (e ela vem sendo cobrada violentamente pelos grupos mais à esquerda por isso). O Eduardo Paes apoia a Dilma, e ele estava usando táticas igualmente espúrias dois anos atrás, para desespero do NPTO. Crivella e Edir Macedo não apoiam o Serra, e pensar que a eleição tem os pró-direitos de homosexuais e pró-escolha das mulheres de um lado contra as hostes do obscurantismo do outro é algo bizarro. Vale como palavra de ordem, até porque a campanha do Serra está explorando isso mesmo (mesmo que através de swift boating), mas daí a dizer que um governo Dilma iria passar leis tornando o país uma sociedade moderna à là Holanda vai uma distância enorme. O Michel Temer está falando em buscar o apoio do Garotinho no Rio, e se isso não causa calafrios entre os progressistas fluminenses, então realmente nosso estado merece mesmo se fuder, e isso vai ficar na conta do PT – de novo.

Um governo Serra daria emprego aos Demos, mas o governo PT vai ter que dar emprego pro PMDB. Ou melhor, vai deixá-los lá, porque eles chegaram com o Cabral. Eu não tenho dúvidas de que os Demos são pusilânimes mesmo, e que César Maia merece a aposentadoria forçada. Mas não entendo alguém ter ilusões sobre a natureza das alianças que sustentam o Lula e que vão ser ainda mais cruciais para sustentar ainda mais a Dilma (que nem de longe tem a legitimidade e a estatura política de Nosso Guia). Aliás, voltarei a isso no próximo post.

Eu gostei de ver o NPTO defendendo a racionalidade liberal da direita, e valorizando o Armínio Fraga. E concordo com ele, isso não iria acontecer caso o PSDB vencesse. Acho que não aconteceria porque o Serra é mais estatizante mesmo, e mais gastador – e não saberia lidar com um ego do tipo Gustavo Franco, Armínio Fraga ou Pedro Malan na direção da economia (isso o FHC era grande intelectualmente para saber). Mas acusar o Serra de políticas populistas quando o atual governo chegou a tentar introduzir vales comida para instituir o Fome Zero é uma piada. Governos cometem erros e aprendem com eles, quando são bons – e o governo Lula foi (é) bom. Mas a gastança dos últimos dois anos não é o resultado de responsabilidade fiscal. Ela é o resultado de um cálculo político, com o qual eu concordo: pisar no acelerador, promover o aquecimento da economia para evitar a crise. Mas é uma racionalidade diferente, e o Serra poderia dizer o mesmo sobre o salário mínimo. Aliás, o argumento do Celso contra o salário mínimo de 600 reais era o argumento do Malan contra QUALQUER aumento. Aliás, uma coisa da qual me orgulho ao ler o texto do Celso é ver o quanto meu amigo aprendeu com o New Labour, voltando contra o Serra as acusações que eram usadas contra o PT: o PSDB vai trazer de volta o descontrole financeiro e a inflação. Fantástico, mas não é ‘verdade’. Ao menos, não no sentido de que isso ‘vai acontecer’, mas no sentido de que isso só funciona no plano da retórica política (as aspas aí são um tributo às gerações de filósofos e cientistas sociais que discutem as noções de verdade e objetividade nas ciências humanas).

Um dos argumentos usados pelo Celso em diversos posts sobre a Marina era de que se ela apoiassse um candidato em troca de ele incorporar suas políticas isso seria uma furada, porque ela não teria como cobrar mais adiante. Nisso ele é mais realista e eu sou mais idealista, porque eu acho que a Marina deve apoiar a Dilma porque essa é a coisa certa a se fazer. Mas não pode agora dizer que o Serra não vai ter como ‘maquiavelizar’ os evangélicos e padres anti-aborto, pois isso seria o caos político. A base do Serra não é essa, e aqui é que eu acho que mora o único risco para a candidatura Dilma nesse segundo turno, a análise errada que eu acho que alguns segmentos do PT estão fazendo.

É fácil desmerecer quem vota nos outros (estou cansado de ser definido como evangélico hippie – mesmo pelos Mervais da vida – porque eu votei na Marina), mas isso é má análise política e má estratégia de segundo turno. A idéia de que é a TFP quem vai eleger o Serra se algo der errado dia 31 é furada. Dizer isso é uma preguiça, porque desobriga a candidatura Dilma de correr atrás dos votos dos indecisos, partindo do princípio de que ‘quem é bom já está do nosso lado’. Não é verdade. O Serra no Rio vai ter o apoio do Gabeira, e eu me sinto mais à vontade votando no cara que tem o Gabeira do lado do que na dona que está flanqueada pelo Crivella e o Sérgio Cabral. O Rio é foda mesmo, mas olhem para Minas Gerais e São Paulo: acabou a eleição para governador, e o PSDB levou os dois maiores colégios eleitorais do país – de lavada. É do interesse do Aécio e do Alckmin eleger o Serra agora (não era tanto no primeiro turno). É do interesse dos prefeitos que estão aí trabalhar para seus futuros governadores agora. Estes são os caras que vão tutelar o Serra, junto com o DEM. Mas lembrem-se, um DEM no qual César Maia e Marco Maciel terão sua voz muito reduzida. O Sudeste PSDBista não vai ter nem que se preocupar com as ‘lideranças’ que vinham surgindo no Norte e Nordeste, pois Tasso e cia foram dizimados pelo Lula. Lula fez pelo Aécio o que a oposição havia feito pelo Lula em 2006 – se livrou dos potenciais rivais. O mais importante é o seguinte: existe um eleitorado aí de classe média (e média-baixa) que não pode ser desprezado, não só porque eles são eleitores mas porque suas demandas são legítimas. Ter raiva de paulista que paga escola particular pro filho é uma bobagem pra quem quer governar o país. Isso não é o caso do NPTO (tenho que dizer isso porque a internet ainda é o melhor meio para se gerar mal-entendidos), mas tem muito petista embarcando nessa canoa furada.

E aqui eu paro de usar a terceira pessoa ‘os petistas’ e uso a primeira ‘nós que queremos a Dilma eleita e fazendo um belo governo’. O Serra deu, sim, inúmeras mostras de incompetência e despreparo e arrogância (perdendo meu voto no caminho). A Dilma parte de uma base espetacular, os números do governo Lula. Mas nós progressistas não podemos nos enganar nisso: nossas alianças não são puras, nossos aliados são tão feios e corruptos quanto nossos adversários. Nossas políticas trarão grandes progressos para o Brasil, mas elas também já estão trazendo o preço de reforçar os poderes de usineiros, latifundiários, banqueiros. Parafraseando o NPTO, vamos votar na Dilma, mas “sabendo o que estamos fazendo”.

ps: o NPTO termina seu texto com um ps dizendo que espera que os níveis de colesterol do Serra não subam muito, pois senão podemos acabar com um governo Índio. Isso é complicado, uma vez que nossa candidata tem câncer (e quem teve câncer na família sabe que você não fica curado até pelo menos alguns anos de exames que não detectam nada). Corremos nós um risco muito maior de ficar com Miche Temer. E aí, malandro, o bicho vai pegar.