Duas mudanças já percebidas na cidade eterna: minha pizza al taglio preferida desapareceu; essa é a pior. A outra é que o pai do meu barbeiro não está mais entre nós.

Para quem nunca passou por isso, é importante saber que nada é mais traumático, para mim, do que cortar o cabelo em qualquer lugar que nãos eja no salão do Donga, em Niterói. Isso significa que minha vida tem sido muito dura nos últimos 8 anos. Explicar como você gosta, a necessidade de fazer conversinha, estas coisas. Em Roma isso foi muito duro porque tem muito salão, mas eu gosto mesmo é de barbeiro. Pagar 10 euros por um corte vá lá, mas 25-30 é um absurdo. Foi com isso em mente que eu achei um barbeiro em Prati, perto do Vaticano.

Dois homens de uma certa idade, um bem idoso, pai e filho, os dois grisalhos. O lugar é espetacular, do ponto de vista barbeirístico: sempre tem uns velhos com aquela jaqueta cor de diarréia que os italianos idosos gostam tanto, tem um poster com um desenho de uma dona pelada imitando uma pose famosa da Marilyn Monroe em um lugar discreto, e a mobília é espetacular. Você se sente entrando num barbeiro dos anos 70.

Os dois fumavam loucamente, e isso era o maior inconveniente – eu saía de lá com a cabeça fedendo, pois eles fumavam dentro do salão enquanto cortavam meu cabelo. Meu e de todo mundo: me lembro de uma ocasião em que uma senhora trouxe o filho, e o velho, consciente da presença da criança, ia lá para fora dar cada tragada (ou seja, a cada 90 segundos), enquanto cortava o cabelo do menino segurando o cigarro.

Enfim, voltei lá ontem, o velho sumiu. Tem uma foto dele presa no espelho, não sei se é para assustar os clientes. O barbeiro parou de fumar. Mesmo os romanos mais encruados mudam.