Uma diferença fundamental entre o pub irlandês e o pub inglês é que o inglês, no geral, pertence a uma grande corporação; o irlandês pertence ao fulano de tal que está ali te servindo o pint. Isso é mais verdadeiro no interior do que em Dublin. E faz uma diferença brutal pra qualidade do pint que te servem. Passei o período de Festivus em Clogheen, County Tipperary, uma aldeia com cerca de 400 pessoas, um açougue, uma igreja, uma agência dos correios e dois pubs (e um bar). Um dos pubs é o Nedeens’s, arrumado, com aquecimento central e frequentado pela fina flor da elite da aldeia – ou seja, gente de meia idade com uma cintura maior do que a minha. O outro é o Mary Halley’s, mais – digamos assim – popular.

Mary é uma senhora muito simpática. Ela não trabalha mais ali, porque em 2007 ela entornou uma panela cheia de óleo fervendo sobre si própria e ficou meses no hospital. Seu sobrinho, John, é quem administra o lugar. E que lugar: um boteco com piso de plástico, paredes imundas, balas que estão em exposição desde 1974, um banheiro daqueles em que você não lava as mãos por nojo da pia, um aquecedor pequenininho que fica ligado ao máximo, que faz com que quem está em pé (não tem cadeiras ou mesas) acabe se queimando, e quem está a um metro de distância passa frio.

Minha preferência (e da família) é naturalmente pelo Mary Halley’s, devido à qualidade infinitamente superior da Guinness de lá. Mas tem coisas que te fazem repensar estas escolhas. Não é só porque dia 24 de dezembro, véspera de natal, o lugar está cheio de velhos bêbados e a juventude entediada e perdida do lugar. Mas por causa do que aconteceu ontem.

Estava eu com meus dois cunhados, bebendo, quando um sujeito completamente bêbado adentrou o recinto. Existe uma parede no meio do bar, e por isso não vimos onde ele foi parar. Mas ele trouxe um cachorro, que ficou correndo e latindo pra todo mundo. Passada uma hora, um dos sujeitos comigo apontou pra porta e falou: ‘agora a gente só sai daqui pela janela’. Lá estava o cachorro defecando na entrada do bar – do lado de dentro. O primeiro incauto que abrisse a porta e entrasse iria certamente pisar no pudim.

Resolvemos assim avisar o rapaz que estava servindo (John, que estava de folga, estava lá também, mas não gosta de ser perturbado – nem mesmo quando está a serviço). O rapaz convenceu o bebum a limpar a sujeira: lá foi o cara com 4 (eu contei) quadradinhos de papel higiênico, catar o presente do seu cachorrinho e jogar pra fora do pub. O fedor foi inacreditável. Mesmo a Guinness a 3.60 euros servida há poucos minutos pareceu pouca razão para ficarmos no bar. Mas nós ficamos. Por que esse é o preço que você paga para não beber em uma franquia de um Irish Pub e beber Guinness aguada e mal tirada. Merda de cachorro.