É difícil não confundir alhos com bugalhos no que se refere ao caso da extradição ou não de Cesare Battisti. A imprensa brasileira, ainda vivendo num limbo entre o governo Lula e um recém descoberto 1964, certamente confunde tudo, como mostra esse editorial do Estado de São Paulo, ‘Lula abriga o criminoso’. O  caso Battisti é complicado, por envolver a mistura explosiva de ações terroristas passadas, ideais políticos e grupos já extintos, relações internacionais contemporâneas e a truculência política em dois países diferentes.

Em primeiro lugar, vamos deixar tudo muito claro: a Itália é um Estado de direito. Desde a redemocratização, e mesmo durante seus anos mais sombrios na década de 70 e início dos anos 80, permaneceu sendo um Estado de direito. O Brasil, não. Vivemos duas décadas de trevas por aqui. As cortes italianas não deixaram de funcionar, a constituição se manteve de pé, o poder dos juízes é um dado de fato. Sim, Berlusconi quer mudar isso, e existe corrupção (como em qualquer lugar), mas isso só prova o que estou dizendo: se o sistema não funcionasse não haveria necessidade de suborno ou de mudanças para salvar a pele de governantes corruptos. Por isso eu acho o argumento jurídico para o Brasil não extraditar o Battisti muito fraco.

Isso não quer dizer que ele seja culpado do que está sendo acusado. Aqui a imprensa brasileira é mais maldosa do que nunca, desrespeitando princípios básicos do direito. A Veja publicou uma entrevista (via Josias de Souza) com Alberto Torreggiani, cujo pai foi assassinado e ele mesmo levou um tiro durante um assalto à sua joalheria, indo parar numa cadeira de rodas: “Sou uma prova viva de que Battisti é um assassino”, ele diz. Mas depois ele se contradiz: Battisti não participou daquela operação, e a prova que ele apresenta é sua convicção de que Battisti foi o arquiteto de tudo. Existem vários problemas aí: Battisti não estava lá; não é provado que Battisti planejou aquela operação; é certo que Battisti não deu o tiro e nem deu a ordem, via iphone, para que o tiro fosse dado. A Veja pode não gostar do Lula, mas deveria ser mais circunspecta ao romper com os princípios básicos do Estado Liberal.

Eu discordo do Lula, acho que o Battisti deveria ser extraditado porque não existem motivos para mantê-lo aqui. Mas ele não agiu errado: cabe ao chefe do poder executivo fazer política internacional, e nem o Supremo e nem o Lula se atrapalharam aí. Lula fez uma coisa muito comum, guardou a decisão para o final de seu mandato. A imprensa pode chiar à vontade, mas com o passar do tempo vai ver que o assunto não ‘cola’: Lula não está mais lá, anda comendo pastel e batendo papo com Itamar.

O governo italiano está fazendo o que se espera dele: apelando. Note que durante esse tempo entre a decisão do Supremo e a decisão do Lula, o governo italiano não fez nada sobre o assunto. Foi essa a crítica do La Repubblica ao governo italiano na semana passada. E olha que a postura do jornal italiano não tem nada de contraditória: a leitura feita por eles é de que o caso, na Itália, está submerso em hipocrisia, entre Realpolitik (preservar as relações Brasil-Itália, mais importantes para eles do que para nós brasileiros), direito (Battisti deve ser julgado e punido, se for o caso (e é) na Itália), e jogo de cena da direita italiana (os partidos direitistas que apoiam Berlusconi vêem suas bases revoltadas agora, e precisam combater a imagem de inação). A opinião pública italiana está irritada, e na minha opinião o governo italiano está usando esse assunto para abafar a crise política que mais uma vez ameça derrubá-lo. Ao invés de entrevistar Torregiani, a Veja deveria traduzir este artigo de Tobaggi.

A Itália convocou seu embaixador no Brasil, mas não deixou de prestigiar a posse da Dilma. O Brasil está recebendo investimentos enormes da FIAT, e a Telecom Itália tem no Brasil sua maior base de operações fora da Itália. Não se sabe qual será o resultado desse caso, o STF entrou em campo novamente.

Mas esse caso nos revela duas coisas sobre o momento histórico em que vivemos: 1. a despeito da histeria da imprensa brasileira, que é uma merda mesmo (má intencionada e burra), o caso vai se desenrolar dentro do respeito da lei em dois países democráticos; 2. as relações internacionais mudaram dramaticamente: 15 anos atrás o Brasil jamais tomaria uma medida sabendo que ela desagradaria o governo italiano, apesar de já na época a Itália ser uma potência menor. O Brasil simplesmente não poderia se dar ao luxo de perder um aliado chave na comunidade européia. Agora é diferente; ninguém quer perder a aliança com a Itália, mas todos sabem que essa aliança não corre riscos: para variar um pouquinho, eles precisam mais da gente do que nós deles.