Listas de final de ano são sempre assuntos deprimentes para mim. Eu sempre gostei de ler estas listas, e quando estava na faculdade eu era um entusiasta destes petiscos oferecidos pelos jornais e revistas ao final de cada ano. Melhor ler sobre os bons livros de 2010 do que sobre mais um escândalo no governo, esta era minha opinião. Não mais.

O problema é que eu não sou mais capaz de me lembrar quais foram os dez livros que eu li no ano que passou. Eu não sei se isso é porque, graças ao meu trabalho, eu leio livros demais, ou se é porque eu raramente leio um livro inteiro. Isso é vergonhoso, eu sei, mas é a mais pura verdade. Desde que entrei num doutorado, minhas leituras são essencialmente acadêmicas e normalmente em busca de informação que possa ser saqueada e reutilizada. Faz tempo que não leio um livro porque o autor me pareceu inteligente e o argumento era cheio de idéias interessantes. Eu estava lendo Guns, Germs, and Steel, do Jared Diamond, com 11 anos de atraso (!), mas não consegui terminar. Eu reli Augustine of Hippo, de Peter Brown – apesar de ser relacionado ao trabalho, eu considerei lazer porque é bem escrito. E li, finalmente, The Road to Oxiana, do Robert Byron – e poucas vezes um livro me deu tanto prazer quanto este. Ok, tem os livros lidos para escrever resenhas, mas estes não têm nada de divertido – e nada que eu gostaria de dividir com amigos ou leitores deste blog. O problema é que o tipo de história que eu faço é brutalmente pragmática: definir um problema, uma abordagem, ler todas as fontes, colocar tudo junto e ver o que sai. Esse antimétodo é muito produtivo, ainda mais na área de Antiga, onde desconhecemos coisas básicas e o trabalho do historiador ainda é o de estabelecer fatos do que bolar grandes interpretações (soa cínico, mas é isso mesmo, e eu sei que meus colegas antiquistas odeiam que eu pense assim).

A coisa é pior quando eu penso em filmes. Desde que Amianinho nasceu, eu fui ao cinema duas vezes. Uma vez para ver uma biografia de John Keates, Bright Star, e outra para ver Inception. Em 19 meses! Eu vejo séries de TV, quando Amianinho está dormindo, e conheço vários episódios de Scrubs de cor, mas isso não é exatamente um crédito para ninguém. Discos, então, nem se fala. Se não fosse meu cunhado saber que eu gosto de Sufjean Stevens eu não teria ouvido nenhum disco novo este ano que passou. e só descobri o Pomplamoose por causa de um excelente blog, o Trabalho Sujo.

É, aliás, o Pomplamoose, com o Ben Folds e a participação do grande Nick Hornsby, quem melhor explica minha situação. Fica aí, de presente, aquela que na minha opinião é a melhor interpretação do que foi 2010, do ponto de vista de um sujeito que teve a sorte de passar mais tempo trocando fraldas e reaprendendo a viver com a esposa, tendo um filho cheio de vida e energia, do que lendo livros e ouvindo discos.