É muito cedo ainda para falar do que está acontecendo na Tunísia. Estou tentando me manter informado seguindo o Guardian (meu preferido), o Le Monde (que é muito bom), e de maneira mais esporádica o NYT, cujo correspondente tende a falar de temas mais genéricos, o que é bom para ter uma idéia dos desenvolvimentos na área, mas exige cuidado porque ele não é tão bem informado (ou é superficial, o que dá no mesmo para efeitos de leitura). O site da Al Jazeera é bom, mas eu não gosto das opniões – a Al Jazeera cai sempre na esparrela de que é tudo culpa do Ocidente, dos EUA ou do neoliberalismo (este artigo é bem irritante, wishful thinking e retórica barata travestidos de análise política). O problema é que no mundo muçulmano de hoje retórica barata e incendiária não só tem eco como incita à ação, então acaba se tornando análise do porvir. É claro que o Ocidente, seja a França, Itália, ou os onipresentes EUA, têm culpa no cartório, mas é um erro metodológico desprezar o horror que são as elites locais. Minha fonte de análise preferida é o site de Juan Cole, Informed Comment (meu site preferido para Oriente Médio e Islão). E ele é MUITO crítico das potências ocidentais.

Um amigo que dirige trabalhos arqueológicos na Tunísia pro instituto alemão reproduziu em seu Facebook um email de um tunisino, falando das pessoas que passam a noite armadas vigiando as portas de suas casas, com medo de saqueadores. Infelizmente boa parte da mídia está deixando estes dramas microscópicos de lado. A imprensa brasileira está mais preocupada com outras questões, em boa parte por bons motivos, mas em parte por provincialismo mesmo. Existe a possibilidade de que o mundo muçulmano jamais seja o mesmo depois desta agitação na Tunísia, e o Demétrio Magnoli  e o Ali Kamel vão escrever ainda mais bobagens, pois suas fontes de informação (Grobo e Falha) não cobriram o assunto. Enfim.

A Tunísia é um país fascinante, mas certamente não foi dos que eu mais gostei de explorar. Nem eu nem a senhora Amiano, e para ser sincero isto é 100% por causa das pessoas que encontramos por lá. A culpa foi nossa, em parte, porque apesar de ficarmos em Hammamet (uma cidade turística) nós tentamos fugir das companhias turíisticas e das excursões, alugando um carro, pegando ônibus, achando nosso próprio hotel etc. Isso não deveria ser difícil, uma vez que os tunisinos falam francês (ao menos nas cidades de algum tamanho). Mas o tanto que tentaram (normalmente conseguindo) nos passar para trás, aliado à sujeira nos lugares públicos e privados nos deixaram uma péssima impressão. Não é como a Turquia, onde você ignora qualquer problema quando pensa nas pessoas simpaticíssimas que encontra pela rua. Eu achei o contato com as pessoas de lá muito tenso, sempre nervoso por estar perdendo dinheiro. Até nos pedágios te dão o troco errado, o que você só descobre quando já dirigiu alguns quilômetros. Eu sei que isso não é uma regra, pois tenho nuitos amigos que escavam por lá e eles adoram o povo.

O que nós gostamos mesmo foi do lugar. Nós fomos em Julho de 2007, aterrisamos em Tunis (antiga Cartago) e pegamos um taxi até o espetacular Museu do Bardo. O museu tem uma coleção excelente de inscrições romanas, mas a coleção é mais famosa pelos mosaicos gloriosos dos séculos II a IV d.C. De lá, um táxi até a estação d eônibus, uma praça fedida e cheia de gente, onde pegamos uma kombi até Hamamet (você diz pra onde vai, entra e espera encher – parece uma van no Rio de Janeiro). Hahamet não tinha muito interesse para nós (só a praia), mas pegar um carro e dirigir pelo país foi incrível. A paisagem é digna de Mad Max, e o interior do país é visualmente muito dramático.

O Tyler Cowen publicou um post sobre os avanços estruturais realizados pelo governo da Tunísia, especialmente em termos de sua política de gestão de recursos hídricos, mas também em educação e saneamento. O que chamou nossa atenção lá foram as obras em estradas: você dirige por uma estradinha estreita, às vezes de terra batida, e de repente cai em uma enorme rodovia com 4 pistas, recém-construída, passa por pedágios que ainda não têm gente cobrando, desvia de tratores muitas vezes maiores que seu carro (o bicho é tão grande que eu até reduzi a velocidade por medo!). Foi a primeira vez que eu vi um mini ciclone se formar na frente do meu carro, levantar caixas uns 5 metros de altura e jogá-las na minha direção (foi a última também, e minha calça agradece).

Ah sim, antes que eu esqueça: a comida é uma bosta. Sério, virou moda na Europa comer Couscous, ou os infames Briks. Nem mesmo kebabs são bons, os tunisinos destroem tudo em que tocam.

Voltando ao que importa: também chamou nossa atenção o fato de que por todo o país existiam pôsteres celebrando Zine El Abidine Ben Ali, o então presidente do país. O cara foi o segundo presidente da Tunísia, tendo tomado o poder no golpe de Estado mais bizarro que eu já vi: os médicos do então presidente Habib Bourguiba o declararam incapaz de governar, e o general (e na época primeiro ministro) tomou o poder. Os tunisinos com quem conversei na época eram profundamente desiludidos da política, sem esperanças e sem interesse em mudar seu país. Os eventos deste Janeiro mostram que outros estavam mais alertas, e que mesmo 23 anos de uma opressão política selvagem não conseguiram extirpar toda a vontade de melhorar dos tunisinos. Agora só nos resta esperar, torcendo para que a violência acabe logo e a Tunísia me surpreenda, institutindo um governo islâmico moderado, secular (será possível) e democrático.

Ps: as fotos usadas aqui foram publicadas no Flickr, tem mais por lá.