Qual universidade queremos? Qual aluno? Esse papo rola há um tempo aqui no blog, e voltou semana passada (sim, meia dúzia de comentários é um indicador de best selling post neste blog). Vamos por partes:

1. Eu usei a expressão ‘aluno crítico’, e diferenciei do aluno ‘preparado para o mercado’; acho que fui infeliz, ao menos em parte. Todo aluno que sai da universidade deve estar preparado para o mercado, algum mercado (e não só as automobilísticas). Quando nos séculos XV e XVI a elite mandava seus filhos estudarem em Padua ou Oxford, e eles só aprendiam latim, isso é porque quando voltavam para casa esse conhecimento era util para sua  inserção em seu círculo social/profissional. Ou seja, preparar para o mercado é um truísmo. Mas não pode ser só isso, e é esse “mas” que faz a universidade importante – algo mais do que uma escola técnica. Não existe nenhum motivo pelo qual um professor de história não deva saber música ou astronomia, ou que um engenheiro de produção não possa ser capaz de emitir alguma opinião inteligente sobre o sistema político brasileiro.

2. O problema é, como se forma esse aluno? Quem souber que me diga, mas isso não é o professor quem ensina. A universidade deveria ser o lugar onde o estudante vai aprender uma ciência (no sentido de conjunto de conhecimentos), e o papel do professor é justamente garantir isso. Se eu estou ensinando história romana eu vou passar um trecho da Guerra de Jugurta, de Salústio, para discussão em sala de aula, pois é lendo documentos como este que o saber histórico é construído. Mas eu vou também dar horas de aula expositiva sintetizando a pesquisa de diversos historiadores sobre a República romana, sua expansão imperialista e seus efeitos na sociedade itálica e mediterrânica. Eu, como professor de história antiga, não formo o tal ‘estudante crítico’, eu ensino história antiga. Mas na universidade, nos seminários, nas discussões em sala, no uso da biblioteca (e isso tudo é igualmente parte integral da universidade) o aluno deve ser estimulado e encontrar os recursos para aprender a olhar as coisas de maneira crítica. Isso não quer dizer ser de esquerda, nem discordar do professor, mas aprender a não aceitar o conhecimento como um “dado”. Eu posso dizer isso na sala de aula, mas ensinar isso na prática é outra coisa – e eu acho que o papel do aluno aí é mais relevante do que o do professor.

3. Nesse sentido, a minha experiência universitária no Brasil é muito desestimulante. Eu e meus colegas chegávamos na universidade, assistíamos as aulas, uma parada na xerox para pegar os textos, uma visita à biblioteca, talvez uma parada no bar, ou no bandejão, e depois trabalho/casa. Nesse sentido eu acho mesmo que precisamos de uma carga horária maior. Eu gostaria de poder ensinar mais história antiga, dois semestres ao invés de um, mas nem é por isso. Isso me leva à minha idéia de qual é a universidade onde eu gostaria de trabalhar (ou de ter estudado).

Uma universidade onde o aluno encontrassse condições e estímulos para passar o dia inteiro – se puder. Nem todo mundo pode; muitos têm que trabalhar, por exemplo. Mas esse é um dado de fato, o Brasil é uma sociedade assim. Mas mesmo quem trabalha, no dia em que tem condições, não vê estímulo para enfrentar a barreira do cansaço e ficar na universidade. Que tenhamos mais seminários interdisciplinares abertos ao público acadêmico (e não só matérias para alunos inscritos – ô obsessão com esses créditos!); bibliotecas decentes, limpas e bem ventiladas, com espaço para convívio e livros recentes; centros de aprendizado de línguas (Oxford tem um espetacular, onde além de poder fazer cursinhos regulares e intensivos você pode ir lá e aprender por conta própria, com cds, dvds, k7s, etc). Isso seria um incentivo enorme, os alunos estariam se qualificando para seus estudos e também para o mercado de trabalho. Isso seria importante para os professores também: eu ficava deprimido durante meu mestrado na USP, por ver que quase nenhum professor frequentava a biblioteca para ler livros (todos usam para retirar livros). Isso é uma lástima, perde-se a oportunidade de reunir num único prédio diferentes professores de diferentes disciplinas – desperdiça-se a oportunidade de interação, cafezinhos, discussões, projetos interdisciplinares, papos com os colegas e os alunos, enfim. Mas não é só isso. Se eu tivesse um escritório decente na minha faculdade (e não um dividido com 8 colegas), com boa internet e estantes para trazer meus livros de casa, não tenho a menor dúvida de que eu passaria meus dias no campus. Eu estaria lá para usar a biblioteca, conversar com amigos e colegas, etc etc.Eu iria querer assistir aos seminários onde dicsutiria com colegas convidados, na verdade esse seria um motivo para estar na faculdade.

4. Como bem observou o JP em comentário ao post anterior, os professores universitários já tem trabalho demais. Eu argumentaria, baseado na parca experiência própria e em observações dos outros, que os professores universitários trabalham em condições nas quais seus esforços são ineficientes. O nosso trabalho não é só a hora-aula, mas também tudo que está ao redor dela: ler, corrigir, preparar, arguir, redigir projetos, artigos, dar parecer, etc. Isso não vai mudar, e nem pode mudar.