É difícil dar uma dimensão do quanto o mundo acadêmico brasileiro mudou nestes últimos 10 anos. É muito mais dinheiro, muito mais gente, muito mais qualidade, uma produção muito maior. Alguns dos comentários aos posts abaixo (sobre educação) foram, para mim, surpreendentemente pessimistas, então acho que está na hora de injetar um pouco de otimismo nesta discussão. Meus exemplos serão específicos, da minha área, mas tenho certeza de que eles podem ser generalizados. Aliás, nas ciências “hard” esse progresso é ainda mais antigo, especialmente em São Paulo, mas não só: eu me lembro de meus compatriotas cientistas em Oxford, dizendo que no final das contas estavam vendo que a distância entre as condições na Europa e no Brasil, apesar de grandes, não eram tudo o que pensavam – e mais importante ainda, não eram intransponíveis.

No caso da História Antiga, o progresso é evidente. O número de estudantes e pesquisadores é muito maior do que quando eu fazia o mestrado, no final dos anos 90. O número de centros expressivos também: UFRJ, UFF, UERJ, USP, UNICAMP, UFOP, UFES, UNESP-Franca, UFG, UNB, UFRGS, UEL – isso para ficar só nas que eu conheço. O número de encontros é absurdo: meu grande espanto é como os colegas fazem para ir a todos os encontros – e com mais financiamento, estes vão mais longe, interagem e trocam idéias de maneira mais frequente (nos anos 90, a gente só se encontrava no encontro da Associação Nacional de História, a cada dois anos). É claro que nem tudo é bom: tem muita bobagem sendo apresentada, mas tem muita coisa legal também. A crítica intelectual livre e franca ainda não é comum, como alguns comentaristas notaram, mas já acontece – e as pessoas que participam de congressos sabem disso e se preparam tendo isso em mente: ‘provavelmente ninguém vai me criticar, mas por via das dúvidas…’ Nesse sentido, já existe gente o suficiente fazendo boa história antiga no país, o que falta é integração. Mas tendo dinheiro, isso chegará com o tempo (e é claro, com os esforços que já vêm sendo feitos).

Existe a dificuldade em ter acesso a material de pesquisa: eu não conheço nenhuma biblioteca além da USP que tenha o CIL completo (quase: faltam os volumes novos sobre Roma e a Hispania), e nenhuma que assine o Année épigraphique. Mas qualquer pessoa que tenha apresentado um projeto pro CNPq sabe que pode inserir livros no orçamento, e muitas bibliotecas têm crescido de maneira expressiva com isso (a UFOP que o diga!). A Finep também financia expansão de bibliotecas, e nem vou falar da FAPESP e o espetacular FAP-livros, que quando bem utilizado pode levar uma biblioteca em poucos anos a se tornar um centro de referência (caso da área de medieval na biblioteca da FFLCH-USP, que digamos a verdade era uma porcaria 10 anos atrás). Falta muita coisa, e nunca seremos capazes de competir em bibliotecas com Harvard ou Princeton – mas dá para manter a biblioteca atualizada e diversificada.

Existem problemas: a própria expansão das bibliotecas é feita nos moldes errados. Ela aqui depende das pesquisas individuais dos professores, o que significa que nenhuma biblioteca no Brasil tem o Lexicon Topographicum Urbis Romae, quanto mais os volumes sobre o subúrbio. O dinheiro deveria ser regular, deveria ir para a biblioteca, e os bibliotecários deveriam ter alguma especialização na área, mas isso é um ideal – do jeito que está, já melhorou muito. Outro problema é algo apontado em comentários abaixo: a questão das línguas. Isso é válido tanto para as chamadas ‘fontes’ quanto para a bibliografia secundária. Faltam traduções, e eu fico surpreso em ver que poucas pessoas estão se envolvendo nisso. Por outro lado, com a Amazon e a Abebooks o estudante de mestrado já pode comprar muito mais livros do que eu podia. Aprender línguas é um desafio sim, mas não é impossível. Rigorosamente NADA impede um aluno de uma universidade com um departamento de letras de ir falar com o professor de Latim e pedir umas dicas, seguir o curso como ouvinte. Ou de comprar os livrinhos do Paulo Rónai para começar a estudar por conta própria.

O que falta no Brasil, e vai continuar faltando por pelo menos dois séculos, é tradição. Mas criticar os historiadores brasileiros por isso seria o mesmo que criticar um adolescente de 15 anos por ser novo. Não faz sentido.