San Nicandro é uma cidadezinha no norte da Puglia, mais ou menos no topo do calcanhar da bota italiana. É uma cidadezinha típica dessa parte da Itália: pequena (+/- 16 mil pessoas), ligada aos ritmos da vida rural, especialmente ao pastoreio, e – uma coisa que me fascina – um bom exemplo da excepcional originalidade religiosa do Sul da Itália. Nos anos 1920, um curioso movimento religioso começou naquela comunidade, a conversão de um grupo de pessoas ao judaísmo. Seu líder, Donato Manduzio, era uma espécie de profeta, cujo conhecimento do judaísmo vinha única e exclusivamente da leitura do antigo testamento. Ele não conhecia nenhum judeu, e nem sabia que eles ainda existiam – pelo que ele leu na Bíblia, a maioria parecia ter desaparecido na época do grande dilúvio. A comunidade permaneceu sempre marginal, uma curiosidade, sobreviveu à  dominação alemã (na verdade, entre o momento da primeira ‘queda’ de Mussolini e a tomada do sul da Itália pelos aliados passou-se pouco tempo, o que os ajudou a sobreviver). Mais tarde, a comunidade emigrou para Israel, contra a vontade de seu líder.

Essa história fascinante é contada em um livro, the Jews of San Nicandro, resenhado por Hobsbawn na LRB. Vale a pena ler o artigo de Hobsbawn, fascinante. Não vale a pena repetir aqui o que ele escreveu (mais do que eu já fiz no parágrafo acima), mas vale a pena apontar para uma coisa que eu acho interessante, uma limitação do grande historiador inglês. Na resenha, Hobsbawn trata o movimento do ponto de vista de alguém interessado em movimentos sociais, bem sucedidos ou não. O movimento de Manduzio é fascinante, mas eu tenho minhas dúvidas sobre até que ponto pode ser chamado de um ‘movimento social’, nos moldes do Hobsbawn. Digo isso porque é óbvio – mesmo para quem não leu o livro – que a questão religiosa é crucial para entender esse movimento, mas ela não interessa a E.H.

O Mezzogiorno é uma das áreas mais interessantes da Europa. Não só por sua história, mas por seus radicalismos. A religião exerce um papel crucial nisso aí. Carlo Levi observou (um tanto preconceituosamente, eu acho) que aquela é uma civilização diferente da que ele conhecera no norte/centro da Itália, e a religião é importante nisso aí – como ele mesmo nota. Não dá para explicar o Sul da Itália sem entender o papel da religião aí, e não dá para entender seus loucos movimentos sociais sem entender suas inspirações religiosas.

ps: para quem tem interesse no assunto, além do livro de Levi, tem um artigo excelente (e não muito antigo) na Past and Present 187, de 2005, de James S. Amelang, usando o Mezzogiorno como estudo de caso para discutir os riscos do uso excessivo de teorias antropológicas sobre religião.