Ainda é cedo para dizer o que vai acontecer no mundo islâmico. Ao que tudo indica, a agitação que derrubou o governo na Tunísia se espalhou por outros regimes, alguns bem consolidados, como Egito e Jordânia, outros nem tanto, como a Síria e Líbano. Essa é uma daquelas situações nas quais o analista fala o que for, correndo o risco de ser desmentido no dia seguinte. Existem boas análises dos eventos no Egito, por exemplo no Todos os Fogos o Fogo. Mas existem outras questões mais interessantes, mais amplas, e – eu acho – que terão repercussões mais duradouras:

1. Até que ponto este é um movimento geral das sociedade islâmicas? Eu estava descrente no início, mas a dimensão dos acontecimentos no Egito me fez rever minha posição. O Egito é grande e importante demais, e o que aconteceu lá (mesmo que, em uma hipótese agora pouco provável, dê em nada) acabou ampliando os horizontes do possível para os agentes políticos no OM. A realeza da Jordânia já anunciou reformas, procurando se antecipar a possíveis problemas. Se o governo egípcio for derrubado de maneira mais enfática do que um anúncio de não concorrer nas próximas eleições, aí ninguém sabe o que pode acontecer MESMO.

2. Mas afinal, que movimento é este? Está claro que esse não é um movimento de radicais islâmicos odiando o ocidente, apesar de isso poder existir em maior ou menor grau. Juan Cole publicou um post excelente hoje, desmontando as comparações com o Irã em 1979 (vale a pena a leitura). Seria esse um movimento democrático, uma primavera dos povos? Ainda estou esperando ler comparações com 1848, ao invés de 1989, mas enquanto espero quero deixar registrado: a democracia é um valor árabe, e por extensão muçulmano. Eu não sou um especialista nesse assunto, e espero que algum comentarista me esclareça sobre isso, mas tradicionalmente as ‘polities’ islâmicas são caracterizadas por lideranças fracas, que dependem do apoio de segmentos diversos da sociedade. As ditaduras no OM são justamente uma resposta a isso: financiados por petrodólares ou (no caso Egípcio) diretamente pelos EUA, ditadores usaram o exército como base de seu poder. Não é a democracia grega, nem a dos neocons.

3. O que esperar dos exércitos e dos EUA? Eu jurava que os EUA iriam se acovardar e ficar quietos, enquanto o exército egípcio iria encenar ‘tiannamen 2, a revanche’, mas isso não está acontecendo. Os EUA não vão abandonar Mubarak abertamente, mas já deixaram claro que ele não terá seu apoio para reprimir as manifestações – e ele não o fez, ao menos abertamente (apesar de ao que tudo indica ele estar fazendo isso por baixo dos panos). Foi o que o governo iraniano fez em 2009. Agora, no entanto, as coisas parecem ter mudado de figura: apesar de Mubarak ter vendido a alma para as forças de segurança, apontando um homem forte, parece que o exército hesita em intervir.

4. O que eu espero: sim, haverá mudança de governo. O Depto de Estado americano, segundo o Guardian, está pressionando para que as mudanças comecem agora. Parece que as lideranças religiosas no Egito não são tão fortes quanto no Irã em 79, para sequestrar os movimentos. O Egito depende muito mais do Ocidente do que o Irã, o que deve facilitar a manutençao do diálogo entre qualquer governo que seja instaurado e o Ocidente. Mais interessante é o que vai acontecer com Israel, que irá perder um de seus poucos apoiadores no OM: curiosamente, acho que isso será bom para o processo de paz e o encaminhamento da questão palestina, mas isso é assunto para outros posts. Agora, só nos resta esperar: posts no twitter, #Egypt, mencionam muita gente morta por grupos pró-governo.