Como eu havia comentado em post abaixo, de ontem, é impossível prever o que irá acontecer no Egito. É impossível permanecer ‘on top of things’, mas é possível acompanhar os eventos através do caos sonoro do twitter e de jornais como Guardian. O que é claro é que Hosni Mubarak está ignorando toda a pressão dos países ocidentais e da ONU (algo que J. Cole compara à humilhação imposta por Israel a Obama). Para quem acompanha a verdadeira guerra civil nas ruas do Cairo e Alexandria, a situação parece desesperadora. Nicholas Kirstoff, do NYT, está lá, e está blogando sobre o que assiste na praça de Tahrir (vejam também o twitter dele). Isso é relevante, pois um tweet diz que “Egypt arresting journalists — they already got 2 from the NYT — @NickKristof is in Tahrir Sq. — will he get nabbed?” (isso Às 11.30 hora de Brasília).

Tem uma coisa muito relevante aí: apesar de agentes do serviço secreto e da polícia egípcia serem a linha de frente dos criminosos pró-Mubarak, o exército ainda permanece circunspecto. Mubarak tem o apoio de parte da caserma, mas obviamente não de toda: apesar de o exército não estar contra ele, ainda está se posicionando ‘em favor do Egito’. Essa é a janela de oportunidade do povo egípcio, porque quando o exército fechar as portas e se decidir por Mubarak ou por um regime ditatorial, os protestos tenderão a ser debelados de maneira muito mais brutal e eficiente.

Nesse momento, o que pode dar um empurrão no sentido da saída de Mubarak é o governo americano, que manteve o governo egípcio com cerca de dois bilhões de dólares por ano. Já existem apelos nesse sentido na imprensa americana (ok, a Foreign Policy não é exatamente a MSM, mas ao menos alguém diz algo). Falar grosso não vai adiantar, a administração Obama pode tentar influenciar os acontecimento anunciando o congelamento imediato de todo o dinheiro pro Egito até que Mubarak saia do poder e eleições sejam convocadas. As chances disso acontecer são pequenas, e podemos todos estar certo que Israel já está se movendo para impedir isso, com apoio da extrema direita americana (mais – se você tem estômago – aquiaqui e aqui). Mas não só os EUA devem agir: é o momento de Dilma Roussef aproveitar seu zelo pelos direitos humanos, e o Brasil buscar a suspensão temporária do acordo de livre comércio com o Egito, firmado pelo Mercosul em 2010. Desde o governo Lula o Brasil vem ganhando prestígio no Oriente Médio (Irã, Turquia) e o reconhecimento do Estado Palestino mostrou claramente que o Brasil é um aliado do mundo árabe. Esta seria uma ação pequena, diante de tudo o que está acontecendo, mas reforçaria o sinal de que um país razoavelmente pró-árabe está se distanciando do governo egípcio, além de mandar um recado para a burguesia egípcia: esperem perdas.