Eu não vou fingir que tenho alguma idéia do que está acontecendo na Líbia. Bom, uma boa dica é ler a capa da Veja e entender o que não está acontecendo, mas informação negativa não ajuda a entender o Oriente Médio (nem pra isso aquela bosta serve). Kadafi parece ter perdido a maior parte do país, mas os rebeldes ainda não conseguiram montar uma força capaz de desalojá-lo do poder. Parece ser uma questão de tempo, mas não se sabe. Alguns dias atrás havia um papo dos rebeldes pedirem ajuda militar aérea da ONU, mas eu concordo com o Juan Cole que isso está fora do baralho: alguém imagina Obama mandando bombardear um país muçulmano a esta altura do campeonato? Ok, não é tão impossível, mas no caso da Líbia é muito pouco provável – até porque ali, ao contrário do Egito e da Tunísia, me parece que se sabe menos ainda sobre quem são os rebeldes. Segundo este post, eles não são grupos urbanos ou camponeses no sentido que apareceu nos dois outros casos, mas tribos – e parece que Kadafi tem muito pouco apoio aí, a esta altura do campeonato. Ou seja, o próprio tecido social líbio foi rasgado.

Os rebeldes parecem controlar boa parte das reservas de petróleo Líbio, mas: a) isso não é certo, e nem está claro quanto tempo isso vai durar; b) até que ponto eles conseguiriam usar isso como fonte de receita no caso de uma guerra civil demorada?

O petróleo aí é chave. Segundo o Guardian, grandes investidores estão se movendo do petróleo para títulos de governos ocidentais. O preço do petróleo está subindo, e parece que vai subir mais: a Arábia Saudita, procurando comprar apoio popular e se capitalizar para enfrentar a tempestade, parece estar tirando vantagem da alta para isso. A chave está neste comentário de J. Cole:

“Brent crude oscillated between $112 and $114 a barrel on Tuesday, and West Texas crude hit $100 on Middle East uncertainty, but analysts say that the price would have to stay high for weeks or months to have a serious impact on Western countries’ economic recovery. Prices may in fact stay high for a while, since Saudi Arabia is said to be willing to have Brent crude go as high as $120 before intervening with another increase in its own production.

Saudi Arabia, the world’s major swing producer, is afraid of unrest itself and attempting to buy off its own population, so needs the extra money for this purpose. Saudi Arabia had traditionally attempted to hold prices down, because its vast reserves meant it could always make its money in the future, and its relatively small population (22 mn. citizens) left it with limitations on its economic absorptive capacity, i.e., it couldn’t put a lot of oil profits to work in its own domestic economy.”

Em suma, resta esperar para ver o que acontece.

p.s.: não deixem de ler os comentários no Todos os fogos o fogo, muito pertinentes.

ps: obrigado ao Daniel pelo link – confiram as atualizações lá no Amalgama!