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É difícil dar uma dimensão do quanto o mundo acadêmico brasileiro mudou nestes últimos 10 anos. É muito mais dinheiro, muito mais gente, muito mais qualidade, uma produção muito maior. Alguns dos comentários aos posts abaixo (sobre educação) foram, para mim, surpreendentemente pessimistas, então acho que está na hora de injetar um pouco de otimismo nesta discussão. Meus exemplos serão específicos, da minha área, mas tenho certeza de que eles podem ser generalizados. Aliás, nas ciências “hard” esse progresso é ainda mais antigo, especialmente em São Paulo, mas não só: eu me lembro de meus compatriotas cientistas em Oxford, dizendo que no final das contas estavam vendo que a distância entre as condições na Europa e no Brasil, apesar de grandes, não eram tudo o que pensavam – e mais importante ainda, não eram intransponíveis.

No caso da História Antiga, o progresso é evidente. O número de estudantes e pesquisadores é muito maior do que quando eu fazia o mestrado, no final dos anos 90. O número de centros expressivos também: UFRJ, UFF, UERJ, USP, UNICAMP, UFOP, UFES, UNESP-Franca, UFG, UNB, UFRGS, UEL – isso para ficar só nas que eu conheço. O número de encontros é absurdo: meu grande espanto é como os colegas fazem para ir a todos os encontros – e com mais financiamento, estes vão mais longe, interagem e trocam idéias de maneira mais frequente (nos anos 90, a gente só se encontrava no encontro da Associação Nacional de História, a cada dois anos). É claro que nem tudo é bom: tem muita bobagem sendo apresentada, mas tem muita coisa legal também. A crítica intelectual livre e franca ainda não é comum, como alguns comentaristas notaram, mas já acontece – e as pessoas que participam de congressos sabem disso e se preparam tendo isso em mente: ‘provavelmente ninguém vai me criticar, mas por via das dúvidas…’ Nesse sentido, já existe gente o suficiente fazendo boa história antiga no país, o que falta é integração. Mas tendo dinheiro, isso chegará com o tempo (e é claro, com os esforços que já vêm sendo feitos).

Existe a dificuldade em ter acesso a material de pesquisa: eu não conheço nenhuma biblioteca além da USP que tenha o CIL completo (quase: faltam os volumes novos sobre Roma e a Hispania), e nenhuma que assine o Année épigraphique. Mas qualquer pessoa que tenha apresentado um projeto pro CNPq sabe que pode inserir livros no orçamento, e muitas bibliotecas têm crescido de maneira expressiva com isso (a UFOP que o diga!). A Finep também financia expansão de bibliotecas, e nem vou falar da FAPESP e o espetacular FAP-livros, que quando bem utilizado pode levar uma biblioteca em poucos anos a se tornar um centro de referência (caso da área de medieval na biblioteca da FFLCH-USP, que digamos a verdade era uma porcaria 10 anos atrás). Falta muita coisa, e nunca seremos capazes de competir em bibliotecas com Harvard ou Princeton – mas dá para manter a biblioteca atualizada e diversificada.

Existem problemas: a própria expansão das bibliotecas é feita nos moldes errados. Ela aqui depende das pesquisas individuais dos professores, o que significa que nenhuma biblioteca no Brasil tem o Lexicon Topographicum Urbis Romae, quanto mais os volumes sobre o subúrbio. O dinheiro deveria ser regular, deveria ir para a biblioteca, e os bibliotecários deveriam ter alguma especialização na área, mas isso é um ideal – do jeito que está, já melhorou muito. Outro problema é algo apontado em comentários abaixo: a questão das línguas. Isso é válido tanto para as chamadas ‘fontes’ quanto para a bibliografia secundária. Faltam traduções, e eu fico surpreso em ver que poucas pessoas estão se envolvendo nisso. Por outro lado, com a Amazon e a Abebooks o estudante de mestrado já pode comprar muito mais livros do que eu podia. Aprender línguas é um desafio sim, mas não é impossível. Rigorosamente NADA impede um aluno de uma universidade com um departamento de letras de ir falar com o professor de Latim e pedir umas dicas, seguir o curso como ouvinte. Ou de comprar os livrinhos do Paulo Rónai para começar a estudar por conta própria.

O que falta no Brasil, e vai continuar faltando por pelo menos dois séculos, é tradição. Mas criticar os historiadores brasileiros por isso seria o mesmo que criticar um adolescente de 15 anos por ser novo. Não faz sentido.

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Qual universidade queremos? Qual aluno? Esse papo rola há um tempo aqui no blog, e voltou semana passada (sim, meia dúzia de comentários é um indicador de best selling post neste blog). Vamos por partes:

1. Eu usei a expressão ‘aluno crítico’, e diferenciei do aluno ‘preparado para o mercado’; acho que fui infeliz, ao menos em parte. Todo aluno que sai da universidade deve estar preparado para o mercado, algum mercado (e não só as automobilísticas). Quando nos séculos XV e XVI a elite mandava seus filhos estudarem em Padua ou Oxford, e eles só aprendiam latim, isso é porque quando voltavam para casa esse conhecimento era util para sua  inserção em seu círculo social/profissional. Ou seja, preparar para o mercado é um truísmo. Mas não pode ser só isso, e é esse “mas” que faz a universidade importante – algo mais do que uma escola técnica. Não existe nenhum motivo pelo qual um professor de história não deva saber música ou astronomia, ou que um engenheiro de produção não possa ser capaz de emitir alguma opinião inteligente sobre o sistema político brasileiro.

2. O problema é, como se forma esse aluno? Quem souber que me diga, mas isso não é o professor quem ensina. A universidade deveria ser o lugar onde o estudante vai aprender uma ciência (no sentido de conjunto de conhecimentos), e o papel do professor é justamente garantir isso. Se eu estou ensinando história romana eu vou passar um trecho da Guerra de Jugurta, de Salústio, para discussão em sala de aula, pois é lendo documentos como este que o saber histórico é construído. Mas eu vou também dar horas de aula expositiva sintetizando a pesquisa de diversos historiadores sobre a República romana, sua expansão imperialista e seus efeitos na sociedade itálica e mediterrânica. Eu, como professor de história antiga, não formo o tal ‘estudante crítico’, eu ensino história antiga. Mas na universidade, nos seminários, nas discussões em sala, no uso da biblioteca (e isso tudo é igualmente parte integral da universidade) o aluno deve ser estimulado e encontrar os recursos para aprender a olhar as coisas de maneira crítica. Isso não quer dizer ser de esquerda, nem discordar do professor, mas aprender a não aceitar o conhecimento como um “dado”. Eu posso dizer isso na sala de aula, mas ensinar isso na prática é outra coisa – e eu acho que o papel do aluno aí é mais relevante do que o do professor.

3. Nesse sentido, a minha experiência universitária no Brasil é muito desestimulante. Eu e meus colegas chegávamos na universidade, assistíamos as aulas, uma parada na xerox para pegar os textos, uma visita à biblioteca, talvez uma parada no bar, ou no bandejão, e depois trabalho/casa. Nesse sentido eu acho mesmo que precisamos de uma carga horária maior. Eu gostaria de poder ensinar mais história antiga, dois semestres ao invés de um, mas nem é por isso. Isso me leva à minha idéia de qual é a universidade onde eu gostaria de trabalhar (ou de ter estudado).

Uma universidade onde o aluno encontrassse condições e estímulos para passar o dia inteiro – se puder. Nem todo mundo pode; muitos têm que trabalhar, por exemplo. Mas esse é um dado de fato, o Brasil é uma sociedade assim. Mas mesmo quem trabalha, no dia em que tem condições, não vê estímulo para enfrentar a barreira do cansaço e ficar na universidade. Que tenhamos mais seminários interdisciplinares abertos ao público acadêmico (e não só matérias para alunos inscritos – ô obsessão com esses créditos!); bibliotecas decentes, limpas e bem ventiladas, com espaço para convívio e livros recentes; centros de aprendizado de línguas (Oxford tem um espetacular, onde além de poder fazer cursinhos regulares e intensivos você pode ir lá e aprender por conta própria, com cds, dvds, k7s, etc). Isso seria um incentivo enorme, os alunos estariam se qualificando para seus estudos e também para o mercado de trabalho. Isso seria importante para os professores também: eu ficava deprimido durante meu mestrado na USP, por ver que quase nenhum professor frequentava a biblioteca para ler livros (todos usam para retirar livros). Isso é uma lástima, perde-se a oportunidade de reunir num único prédio diferentes professores de diferentes disciplinas – desperdiça-se a oportunidade de interação, cafezinhos, discussões, projetos interdisciplinares, papos com os colegas e os alunos, enfim. Mas não é só isso. Se eu tivesse um escritório decente na minha faculdade (e não um dividido com 8 colegas), com boa internet e estantes para trazer meus livros de casa, não tenho a menor dúvida de que eu passaria meus dias no campus. Eu estaria lá para usar a biblioteca, conversar com amigos e colegas, etc etc.Eu iria querer assistir aos seminários onde dicsutiria com colegas convidados, na verdade esse seria um motivo para estar na faculdade.

4. Como bem observou o JP em comentário ao post anterior, os professores universitários já tem trabalho demais. Eu argumentaria, baseado na parca experiência própria e em observações dos outros, que os professores universitários trabalham em condições nas quais seus esforços são ineficientes. O nosso trabalho não é só a hora-aula, mas também tudo que está ao redor dela: ler, corrigir, preparar, arguir, redigir projetos, artigos, dar parecer, etc. Isso não vai mudar, e nem pode mudar.

 

1. Um artigo de David Brooks sobre o livro de Amy Chua, a ‘tiger mother’ da China. Como alguém interessado em educação em geral (ossos do ofício) e pai de um baixinho desafiador, fiquei muito interessado nas idéias dela. Como alguém que por um bom tempo teve contatos intensos com a China (visitas, família morando lá) e ficou fascinado pelo país, fiquei mais interessado ainda. Falando de um ponto de vista estritamente ocidental, acho o livro dela uma bobagem a ser esquecida. Mas do ponto de vista de um curioso pela China, parece ser leitura fascinante, por condizer com tanto do que vi por lá. David Brooks foi o único crítico, dentre os que eu li, que acertou na mosca – mas não levou suas conclusões até onde devia. O método de Chua não prepara as filhas para pensar independentemente, não prepara as filhas para interagir criticamente com um grupo. Ele diz que estas são aptidões cognitivas cruciais, e conclui dizendo que o método dela é fraco (she´s a wimp) porque não prepara as crianças para as tarefas mais desafiadoras da vida em sociedade. Sim e não. Falando do ponto de vista de um americano, brasileiro ou europeu, ele está certo. Mas historicamente a sociedade chinesa não se desenvolveu assim. Não estou falando de cartas persas, nem de um espírito despótico oriental. Mas o governo e a sociedade por lá (eita generalização…) valorizam e recompensam gente que cumpre suas tarefas de maneira ótima, que se encaixam no grupo (e não que criticam o grupo) de forma ótima.A educação de Amy Chua é durkheiminiana (não no sentido de que Durkheim pensava assim, mas de que ele descreveu determinadas sociedades assim), visa reproduzir, fazer funcionar de maneira eficiente/eficaz e aperfeiçoar o status quo. A de David Brooks é iluminista, só não chamo de rousseauniana porque Brooks pessoalmente se remeteria aos fundadores da República americana, e não tem porque enfiar Rousseau goela abaixo de um cara que não pensa assim.

2. O curioso é que existem pressões em nossas sociedades ocidentais (e o plural aí é relevante) para que eduquemos nossos estudantes de maneira ‘chinesa’. Esse é o tema de uma coluna de Terry Eagleton no Guardian de alguns dias atrás. O ensino das humanidades é fundamental para que as pessoas pensem por si próprias, para que queiram mais do que simplesmente inventar um novo controle remoto, ou um meio de produzir energia mais eficiente. As pessoas precisam aprender a pensar suas sociedades, a engajar com elas, a melhorá-las, tornando-as mais justas, belas e moralmente melhores. Na minha opinião as humanidades se ferram nesse debate, mas não é porque o que elas fazem é controverso, e sim porque o que elas fazem é algo que todo mundo aceita e ninguém discute. Apatia e desinteresse são o resultado. Eu entrei numa confusão 15 anos atrás, digna deste livro do Philip Roth, quando eu justifiquei estar lendo Homero com alunos da 5a série dizendo que o que nos separa dos macacos é a literatura grega. É óbvio que isso é um exagero, e eu estava querendo briga mesmo, mas a pessoa com quem eu estava discutindo (uma pedagoga, ou seja, não era uma filistina qualquer) se sentia confortável o suficiente para dizer que aquilo era difícil demais e não era importante para crianças estudando a civilização grega. Eu ganhei a discussão (“não é meu problema se a senhora e os pais não entendem Homero, meus alunos entendem”), as crianças já tinham esquecido quem era Homero alguns meses depois, mas nos divertimos muito lendo trechos da Ilíada (e quem não se divertiria?).

3. Isso me leva ao meu último ponto: que universidade queremos? A gente costuma debater universidade, inclusive nesse blog, em termos de financiamento, algumas vezes em termos de formação de professores, mas eu estou cada vez mais convencido de que a questão chave é o tipo de aluno que queremos formar. O aluno crítico, dotado de uma formação sólida, de uma visão humanística, esse não vai sair de turmas de 100 alunos de um instituto de ciências humanas. Se for esse o aluno que queremos (e que eu não fui), precisamos de turmas pequenas, de mais horas de aula (faculdade de história em 4 horas por dia durante 4 anos?) e de universidades que se dediquem a expandir horizontes ao mesmo tempo que a informar. Minha universidade, que parece ótima em muitos aspectos (estou começando), adotou a estratégia de criar institutos em diversos campi: humanas aqui, medicina ali, ciências acolá. O problema é que cada vez mais o cidadão crítico precisa saber geografia para entender a tragédia da região serrana do Rio, precisa saber ciências para decidir o que pensa sobre o aquecimento global, história do Brasil para votar contra ou a favor da política de quotas. Se não fica prisioneiro de editoriais de jornais de direita, de slogans pseudo-marxistas do barzinho do DCE. No caso das humanas, estamos criando institutos técnicos em humanidades (e mesmo assim insuficientes, porque são poucas horas, poucas disciplinas).

Mas o problema é que não está claro para mim (e nem para ninguém) que queremos esse estudante crítico. O debate na imprensa (mesmo aquela mais à esquerda) valoriza a mão de obra para a fábrica, o fermento do Brasil grande. Isso é ilegítimo? É claro que não, mas é uma escolha diferente da minha – e do discurso mais visível nas próprias universidades. Se alguém disser que a faculdade de História (ou de Letras, ou de Geografia) visa formar professores para atender a demanda reprimida por educação básica no país, que ela tem que ser que nem uma fábrica de boa qualidade mas produzindo em série, como discordar? Existe a demanda, ela é um gargalo, e isso tem que ser resolvido. Se a maioria de nossos estudantes tem que trabalhar para estudar, porque estudar é um privilégio, como argumentar em favor de um curso de História de tempo integral? Tem na Unicamp, mas tem nas outras? Cabe nas outras?

Escrever uma resenha é uma coisa muito complicada. Ao menos na minha experiência, os editores de uma revista normalmente não te oferecem os livros que você quer resenhar. A não ser que você conheça pessoalmente o editor, ou seja um figurão, uma das poucas revistas que te permitem escolher o que resenhar faz com que você tenha que agir rápido, porque normalmente os livros que te interessam são aqueles que interessam a mais gente do que a torcida do Framengo. No caso da resenha que estou escrevendo, para esta revista, o editor envia uma lista de livros para especialistas que ele conhece, mas nem sempre você consegue o livro que quer.

Tudo isto é só pra dizer: que livrinho chato, hem?

Um problema recorrente para mim nos últimos anos foi o de como carregar livros e fotocópias. Quando você se acostuma a fazer pesquisa em boas bibliotecas você acaba se desacostumando a xerocar e até mesmo deixa de comprar livros – não faz sentido gastar dinheiro em algo que você tem à mão quando precisa no horário de trabalho.

Mas quando decidi que ia voltar pro Brasil comecei a me planejar para ter acesso ao menos ao material básico para minha pesquisa: comprando livros e xerocando artigos e capítulos. Isso consome tempo e dinheiro, mas uma das coisas mais chatas é a logística de como fazer esse material chegar no Brasil. Em 2009 eu tive a ajuda da família: todo mundo que veio visitar o recém-nascido Amianinho levou pra casa uma mala cheia de livros. As fotocópias eu enviei por correio.

Com o passar do tempo fui aperfeiçoando meu método, e hoje em dia já sei como faço: passadas regulares nos correios para enviar caixas por via marítima pro Brasil; em Roma, usar o correio do Vaticano, mais barato e mais rápido; na Inglaterra e na Alemanha enviar caixas com uma certa periodicidade, para evitar chateação com os correios.Em Oxford, comprar livros na Oxbow e pedir a eles para enviar diretamente pro Brasil. Note bem, com a Amazon e similares, faz pouco sentido comprar livros novos no exterior. Muito mais lógico é comprar livros de segunda mão ou barganhas, pois esses você tem que estar por lá.

Mas a grande revolução foi, para mim, a introdução em Oxford de máquinas fotocopiadoras que escaneiam direto para um pen-drive. Com isso você gasta muito menos (2 pence, ao invés de 7 por página) e carrega tudo consigo. Essa é, na minha opinião, a maior revolução na nossa forma de fazer pesquisa: meu tempo na biblioteca foi dividido entre hora para escanear loucamente (você não precisa fazer tanto planejamento, uma vez que o custo é muito menor) e hora para fotografar catálogos que eu preciso consultar. Se a qualidade do trabalho vai melhorar eu não sei, mas me parece claro que estes desenvolvimentos na tecnologia da informação vão provocar uma revolução na maneira como se faz pesquisa em história. Ao invés de ficar no arquivo horas suando em frente a um manuscrito, você tira fotos com uma boa câmera, ao invés de ficar lendo o livro você escaneia tudo. Eu ainda acho que nada se compara ao prazer e à produtividade do trabalho na biblioteca, um lugar onde um livro te leva a outro que te leva a um artigo, onde você encontra colegas e toma café e faz social. Mas para nós que vivemos no Brasil e não temos bibliotecas minimamente equipadas em História Antiga, acho que está muito mais fácil terminar aquele artigo com aquela referência que fazia tanta falta.

Uma boa observação do He Will be Bach dois posts abaixo merece ser trazida aqui pra primeira página: “Lembro-me de que o próprio Gilberto Gil, ao sair da pasta, fez um “mea culpa” e disse que sua gestão deu muito pouca atenção à música erudita. Será que com essa nova ministra, tão exclusivamente imersa na cultura popular, os músicos dos programas de inclusão social via música clássica vão continuar morrendo de fome? Ou ela vai continuar a valorizar só a música popular, tacitamente piorando ainda mais a demarcação popular X erudito?”

Isso foi escrito no contexto do meu comentário sobre declarações da nova ministra da Cultura.

Uma coisa que me chamou muito a atenção durante o tempo que vivi na Inglaterra (menos na Itália, mas bastante na Alemanha) é o fato de que lá você não precisa justificar investimento na assim chamada ‘cultura erudita’. Música clássica custa pouco em Oxford porque muita gente vai ver e isso justifica os subsídios. A loteria financia aquisição de obras de arte para os museus, e não times de futebol. E professor de História Antiga não tem que justificar porque estuda Grécia ou Roma, com afirmações do tipo ‘elas ainda são importantes para nós’, ou ‘elas iluminam o presente’. Iluminam o cacete. Elas devem ser estudadas porque nós tempos a pretensão de ser 2% mais evoluídos do que outros primatas superiores, e o fato de não precisarmos de justificativa para apreciar algo apenas porque é belo ou interessante exerce um papel importante nestes 2%. E quem discorda (ainda mais num departamento de história), que se mude para um zoológico.

 

Postar aqui anda complicado: estou enrolado com a organização de um colóquio que vai acontecer daqui a duas semanas no instituto alemão de arqueologia de Roma, sobre o saque de Roma em 410 d.C. Em meio a preparar um trabalho partindo do zero, estou envolvido com emails confirmando vôos dos palestrantes, hotéis (todos querem trazer a mulher, nenhuma quer trazer o marido – interessante), comida, patrocínio etc. Isso vai me valer dois meses perambulando pelas terras outroras dominadas pelo império, se eu não morrer de infarto (ou seria enfarto) antes.

Vladimir Safatle é professor de filosofia na USP, e tem se notabilizado fora do meio acadêmico por suas  intervenções pertinentes neste debate eleitoral. Ele redigiu esse manifesto, com o qual eu concordo e aproveito para divulgar. Professores universitários que quiserem assinar, por favor enviem seu email para ele (aqueles que não o tiverem me contactem – não vou expor o email de um colega para trolls e vendedores de viagra).

Caros,

Professores universitários escreveram este manifesto a respeito das eleicoes. Estamos colhendo assinaturas. Aqueles que concordarem com seus termos, podem mandar seu nome e universidade para mim. Ele deve ser assinado apenas por professores universitários. Aqueles que nao concordarem com seus termos, bem, isto demonstra como a amizade é algo que ignora fronteiras. Um grande abraco,

Vladimir


Manifesto em Defesa da Educação Pública

 

Nós, professores universitários, consideramos um retrocesso as propostas e os métodos políticos da candidatura Serra. Seu histórico como governante preocupa todos que acreditam que os rumos do sistema educacional e a defesa de princípios democráticos são vitais ao futuro do país.

Sob seu governo, a Universidade de São Paulo foi invadida por policiais armados com metralhadoras, atirando bombas de gás lacrimogêneo. Em seu primeiro ato como governador, assinou decretos que revogavam a relativa autonomia financeira e administrativa das Universidades estaduais paulistas. Os salários dos professores da USP, Unicamp e Unesp vêm sendo sistematicamente achatados, mesmo com os recordes na arrecadação de impostos. Numa inversão da situação vigente nas últimas décadas, eles se encontram hoje em patamares menores que a remuneração dos docentes das Universidades federais.

Esse “choque de gestão” é ainda mais drástico no âmbito do ensino fundamental e médio, convergindo para uma política sistemática de sucateamento da rede pública. São Paulo foi o único Estado que não apresentou, desde 2007, crescimento no exame do Ideb, índice que avalia o aprendizado desses dois níveis educacionais.

Os salários da rede pública no Estado mais rico da federação são menores que os de Tocantins, Roraima, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Espírito Santo, Acre, entre outros. Somada aos contratos precários e às condições aviltantes de trabalho, a baixa remuneração tende a expelir desse sistema educacional os professores mais qualificados. Diante das reivindicações por melhores condições de trabalho, Serra costuma afirmar que não passam de manifestação de interesses corporativos e sindicais, de “tró-ló-ló” de grupos políticos que querem desestabilizá-lo. Assim, além de evitar a discussão acerca do conteúdo das reivindicações, desqualifica movimentos organizados da sociedade civil, quando não os recebe com cassetetes.

Serra escolheu como Secretário da Educação Paulo Renato, ministro nos oito anos do governo FHC. Neste período, nenhuma Escola Técnica Federal foi construída e as existentes arruinaram-se. As universidades públicas federais foram sucateadas ao ponto em que faltou dinheiro até mesmo para pagar as contas de luz, como foi o caso na UFRJ. A proibição de novas contratações gerou um déficit de 7.000 professores. Em contrapartida, sua gestão incentivou a proliferação sem critérios de universidades privadas. Já na Secretaria da Educação de São Paulo, Paulo Renato transferiu, via terceirização, para grandes empresas educacionais privadas a organização dos currículos escolares, o fornecimento de material didático e a formação continuada de professores. O Brasil não pode correr o risco de ter seu sistema educacional dirigido por interesses econômicos privados.  

No comando do governo federal, o PSDB inaugurou o cargo de “engavetador geral da república”. Em São Paulo, nos últimos anos, barrou mais de setenta pedidos de CPIs, abafando casos notórios de corrupção que estão sendo julgados em tribunais internacionais. Seu atual candidato à presidência não hesita em tentar explicitamente interferir no sistema judiciário e em controlar a produção da informação. Destrata jornalistas que lhe dirigem perguntas embaraçosas, enquanto a TV Cultura demite profissionais que realizaram reportagem sobre pedágios.

Sua campanha promove uma deseducação política ao imitar práticas da extrema direita norte-americana em que uma orquestração de boatos dissemina a difamação manipulando dogmas religiosos. A celebração bonapartista de sua pessoa, em detrimento das forças políticas, só encontram paralelo na campanha de 1989, de Fernando Collor.

Alex Tabarrok explica lá no Marginal Revolution porque é que o Nobel de economia foi para Diamond, Mortensen e Pissarides, de um jeito que até eu entendi. Tyler Cowen explica mais aqui e aqui. A teoria do desemprego, aqui, é um daqueles casos em que para entender um problema você precisa olhar para além dele. Paul Krugman mostra como essa teoria pode ser aplicada à situação atual dos mercados de trabalho, e nota que Peter Diamond, um dos agraciados, é um dos caras cuja nomeação para o Federal Reserve Board estão sendo retidas pelos Republicanos por falta de qualificações. É como dizem, nunca tão poucos fizeram tanto para ferrar tantos mais.

Uma frase de efeito que eu usei no meu post abaixo levou alguns comentaristas a me cobrar uma tomada de posição mais clara (bom, eles foram mais educados do que isso). “Dê-me Harvard e eu te darei duas USPs (…)”, seguida de um comentário mais rude sobbre UNIPs e Universos. Isso gerou uma série de colocações interessantes, mas acho que seria legal a gente sistematizar esse debate. Eu vou fazer assim: posts diferentes, explorando aspectos diferentes, pra que a gente possa discutir. Eu sei que esse blog é bisexto, mas como esse é um tema que me interessa em muito eu prometo ser consistente.

A frase está ali por um motivo estratégico: para dizer que em princípio não tenho nada contra o ensino privado. Uma universidade privada pode ser a melhor do mundo e trazer grandes benefícios para o país onde está instalada, formando médicos, engenheiros, cientistas, músicos, classicistas, historiadores, economistas, etcetc. Mas o Brasil não tem nada comparável a Harvard, então a minha frase também era uma ironia – o termo de comparação normalmente usado (as grandes universidades da Ivy League) não se aplica. Existem vários motivos. Em primeiro lugar, a dotação destas universidades, a forma de financiamento. As universidades da Ivy League são baseadas em doações milionárias, que são investidas, e daí vem a maior parte do dinheiro. Novas doações são ou somadas ao montante inicial ou usadas para financiar edifícios ou iniciativas específicas. As mensalidades cobrem uma parte muito pequena dos custos, mesmo sendo escorchantes. Meu orientador voltou de Princeton uma vez dizendo que iria à loucura lá, pois o departamento de história quase não tinha estudantes (do ponto de vista de Oxford). Isso é porque eles não precisam de estudantes. Eu não conheço o caso americano (só do que leio), mas no caso de Oxford (muito diferente do resto da Inglaterra, com exceção de Cambridge) os colleges têm mais dinheiro do que a universidade em si (me beneficio aqui de ter estudado lá e de ter amigos que fazem partes de diferentes colleges, e que gostam de falar disso). Alguns colleges, como o St. Johns, têm mais dinheiro do que os outros, tendo acumulado doações importantes por séculos. Nesse caso, o normal é aplicar o montante inicial de maneira conservadora (terras, por exemplo) e usar 3% ao ano para cobrir os custos da instituição. Harvard, por acaso, é um exemplo de universidade que investiu loucamente no mercado de ações nos últimos anos, usou bem mais do que os tais 3% (afinal, estavam fazendo muito mais dinheiro do que isso)e agora está em crise por causa do colapso do mercado financeiro. Notem que crise, em Harvard, tem outro significado – nada comparável à UFRJ, por exemplo.

Só para dar uma idéia de como isso é impensável no Brasil, um amigo estava brincando que iria escrever para o Eike Batista pedindo que ele financiasse a criação do cargo de Professor Eike Batista de História Romana. Foi uma boa piada, mas em Oxford o professor de História Romana é o Craven Professor, o de história Grega Wykeham Professor, e o de história medieval Chichele Professor. Existe o Regius Professor, o professor real, mas essa é uma dotação pessoal da coroa, e até hoje o Regius Professor tem que ser aprovado pela rainha (só tem 3 destes em Oxford, e desde os anos 70 não tem nenhum caso de alguém ser rejeitado).

No Brasil, as universidades particulares vivem de mensalidade. Isso significa que a margem com a qual elas operam é muito pequena, normalmente. Elas precisam ampliar estas margens, criando programas especiais. A educação acelerada de professores deu muito dinheiro nos anos FHC, eu dava aula num programa destes e morria de vergonha – os alunos eram ótimos, interessados, mas tinham 8 horas de aula aos sábados, vindo de longe e após terem passado a semana inteira dando auas em horários insanos. Outra forma de aumentar as margens é reduzir os custos – e aí o poder político que elas têm no conselho de educação é crucial, pois podem evitar cancelamentos quando flagradas com menos doutores ou mestres do que o determinado pelo Ministério. Isso é uma forma de autodefesa, perversa mas sem isso elas sofrem no mercado.

Porque tem um outro problema aí: o papel dominante exercido pelas universidades públicas, estaduais e federais. A Marilda me alertou em um comentário para o caso interessantíssimo das universidades comunitárias, das quais a Universidade de Sorocaba é um exemplo. Isso me lembrou da Faculdade de Odontologia de Nova Friburgo, estado do Rio, que se não me engano também tem a mesma natureza. As universidades públicas não dependem de mensalidades, mas de verba dos governos (estadual ou federal). Muito do dinheiro atualmente vai para os programas de pós, mas o essencial, que mantém os prédios, paga os salários e os custos fixos vem via universidade. Ricardo Paes de Barros (e outros), em um artigo na Sinais Sociais de Agosto-Dezembro de 2007 (tem que baixar o numero todo aqui), chamou a atenção para as distorções que o sistema público gera: ele não supre toda a demanda (a maioria é coberta pelo ensino privado), mas controla o mercado por ter muito mais dinheiro e mais qualidade, atraindo assim os alunos mais talentosos. Eu adicionaria outra distorção, que é o fato de que às universidades públicas não interessam os alunos mais talentosos – isso não é verdade para todas as universidades (aguardo a lista de exceções), nem todos os departamentos, mas o fato é que elitismo é uma acusação mortal em qualquer reunião de conselho universitário. Nosso sistema educacional não premia o talento, o que é uma forma de suicídio, mas eu vou voltar a isso em outro post.

Curiosamente, foi o governo Lula quem atacou essa distorção gerada pelo sistema público, com dois programas bem bolados. O ProUni, que dá bolsas intgrais ou parciais para quem vai estudar em universidades particulares, e o Reuni, que financia a expansão do sistema universitário. Isso não resolve o problema, pois as particulares continuam dependendo de mensalidades, e as públicas passam a concentrar ainda mais recursos (tem uma armadilha financeira aí, mas voltaremos a ela mais tarde, desculpem por isso). Mas ao menos um bom aluno no Rio que não passa para direito na UERJ pode pensar na PUC, e por aí adiante.

O custeio de universidades é, na minha opinião, O problema chave. Mas existem problemas logicamente anteriores, que serão discutidos nos próximos posts. A saber, para que queremos universidades. Uma coisa eu preciso dizer, antes de terminar. Desde que voltei da Europa, não vi falta de dinheiro na USP. Isso tanto via reitoria, via FAPESP, ou via Capes-CNPq. A Usp é provavelmente um ponto fora da curva, mas semana passada eu estive em Franca, interior de SP, em um encontro de ótima qualidade, com dois convidados estrangeiros, tudo com financiamento do CNPq. Eu não sei como são as outras áreas, mas na História Antiga o que me incomoda é justamente o excesso de eventos, encontros e congressos. Se existem tantos, é porque existe dinheiro para financiá-los (além da pressão para que professores organizem eventos como forma de atender aos critérios dos indicadores de produtividade, mas isso é outro problema). Minha impressão é que o sistema brasileiro tem limitações sérias, mas também é só agora que suas potencialidades estão sendo exploradas.