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Orhan Pamuk levantou dois pontos interessantes em um discurso feito na feira de livros de Jaipur. O primeiro é o de que ele se sente ‘rotulado’ por ser turco: quando ele escreve uma estória de amor, ele fala, ela não é só uma estória de amor turca – ela se refere a toda a humanidade. Esse rótulo reduz não só o apelo de sua obra (como se ele só escrevesse para turcos), como também restringe o alcance de sua mensagem. O outro ponto é o de que como as editoras inglesas e americanas traduzem pouco uma boa parte da literatura mundial é marginalizada – e com isso deixamos de conhecer boa parte da experiência humana. Esse é um ponto interessante, mas aí ele força a barra. Traduzir custa caro, pois requer mais do que contratar um tradutor. Esse tem que estudar, aprender uma língua, estudar sua cultura, e isso custa tempo e dinheiro. Traduz-se hoje mais do que em qualquer outro momento da história. Eu acho que poucos países podem se vangloriar de tantas traduções novas por ano quanto os EUA e o UK. Seria ideal que mais coisa fosse traduzida (eu preferiria para o português), mas o que Pamuk poderia fazer é usar sua posição de força – professor da Universidade de Columbia, em NY – para divulgar escritores de línguas minoritárias, e a partir daí aumentar o interesse por eles.

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1. Um artigo de David Brooks sobre o livro de Amy Chua, a ‘tiger mother’ da China. Como alguém interessado em educação em geral (ossos do ofício) e pai de um baixinho desafiador, fiquei muito interessado nas idéias dela. Como alguém que por um bom tempo teve contatos intensos com a China (visitas, família morando lá) e ficou fascinado pelo país, fiquei mais interessado ainda. Falando de um ponto de vista estritamente ocidental, acho o livro dela uma bobagem a ser esquecida. Mas do ponto de vista de um curioso pela China, parece ser leitura fascinante, por condizer com tanto do que vi por lá. David Brooks foi o único crítico, dentre os que eu li, que acertou na mosca – mas não levou suas conclusões até onde devia. O método de Chua não prepara as filhas para pensar independentemente, não prepara as filhas para interagir criticamente com um grupo. Ele diz que estas são aptidões cognitivas cruciais, e conclui dizendo que o método dela é fraco (she´s a wimp) porque não prepara as crianças para as tarefas mais desafiadoras da vida em sociedade. Sim e não. Falando do ponto de vista de um americano, brasileiro ou europeu, ele está certo. Mas historicamente a sociedade chinesa não se desenvolveu assim. Não estou falando de cartas persas, nem de um espírito despótico oriental. Mas o governo e a sociedade por lá (eita generalização…) valorizam e recompensam gente que cumpre suas tarefas de maneira ótima, que se encaixam no grupo (e não que criticam o grupo) de forma ótima.A educação de Amy Chua é durkheiminiana (não no sentido de que Durkheim pensava assim, mas de que ele descreveu determinadas sociedades assim), visa reproduzir, fazer funcionar de maneira eficiente/eficaz e aperfeiçoar o status quo. A de David Brooks é iluminista, só não chamo de rousseauniana porque Brooks pessoalmente se remeteria aos fundadores da República americana, e não tem porque enfiar Rousseau goela abaixo de um cara que não pensa assim.

2. O curioso é que existem pressões em nossas sociedades ocidentais (e o plural aí é relevante) para que eduquemos nossos estudantes de maneira ‘chinesa’. Esse é o tema de uma coluna de Terry Eagleton no Guardian de alguns dias atrás. O ensino das humanidades é fundamental para que as pessoas pensem por si próprias, para que queiram mais do que simplesmente inventar um novo controle remoto, ou um meio de produzir energia mais eficiente. As pessoas precisam aprender a pensar suas sociedades, a engajar com elas, a melhorá-las, tornando-as mais justas, belas e moralmente melhores. Na minha opinião as humanidades se ferram nesse debate, mas não é porque o que elas fazem é controverso, e sim porque o que elas fazem é algo que todo mundo aceita e ninguém discute. Apatia e desinteresse são o resultado. Eu entrei numa confusão 15 anos atrás, digna deste livro do Philip Roth, quando eu justifiquei estar lendo Homero com alunos da 5a série dizendo que o que nos separa dos macacos é a literatura grega. É óbvio que isso é um exagero, e eu estava querendo briga mesmo, mas a pessoa com quem eu estava discutindo (uma pedagoga, ou seja, não era uma filistina qualquer) se sentia confortável o suficiente para dizer que aquilo era difícil demais e não era importante para crianças estudando a civilização grega. Eu ganhei a discussão (“não é meu problema se a senhora e os pais não entendem Homero, meus alunos entendem”), as crianças já tinham esquecido quem era Homero alguns meses depois, mas nos divertimos muito lendo trechos da Ilíada (e quem não se divertiria?).

3. Isso me leva ao meu último ponto: que universidade queremos? A gente costuma debater universidade, inclusive nesse blog, em termos de financiamento, algumas vezes em termos de formação de professores, mas eu estou cada vez mais convencido de que a questão chave é o tipo de aluno que queremos formar. O aluno crítico, dotado de uma formação sólida, de uma visão humanística, esse não vai sair de turmas de 100 alunos de um instituto de ciências humanas. Se for esse o aluno que queremos (e que eu não fui), precisamos de turmas pequenas, de mais horas de aula (faculdade de história em 4 horas por dia durante 4 anos?) e de universidades que se dediquem a expandir horizontes ao mesmo tempo que a informar. Minha universidade, que parece ótima em muitos aspectos (estou começando), adotou a estratégia de criar institutos em diversos campi: humanas aqui, medicina ali, ciências acolá. O problema é que cada vez mais o cidadão crítico precisa saber geografia para entender a tragédia da região serrana do Rio, precisa saber ciências para decidir o que pensa sobre o aquecimento global, história do Brasil para votar contra ou a favor da política de quotas. Se não fica prisioneiro de editoriais de jornais de direita, de slogans pseudo-marxistas do barzinho do DCE. No caso das humanas, estamos criando institutos técnicos em humanidades (e mesmo assim insuficientes, porque são poucas horas, poucas disciplinas).

Mas o problema é que não está claro para mim (e nem para ninguém) que queremos esse estudante crítico. O debate na imprensa (mesmo aquela mais à esquerda) valoriza a mão de obra para a fábrica, o fermento do Brasil grande. Isso é ilegítimo? É claro que não, mas é uma escolha diferente da minha – e do discurso mais visível nas próprias universidades. Se alguém disser que a faculdade de História (ou de Letras, ou de Geografia) visa formar professores para atender a demanda reprimida por educação básica no país, que ela tem que ser que nem uma fábrica de boa qualidade mas produzindo em série, como discordar? Existe a demanda, ela é um gargalo, e isso tem que ser resolvido. Se a maioria de nossos estudantes tem que trabalhar para estudar, porque estudar é um privilégio, como argumentar em favor de um curso de História de tempo integral? Tem na Unicamp, mas tem nas outras? Cabe nas outras?

Um problema recorrente para mim nos últimos anos foi o de como carregar livros e fotocópias. Quando você se acostuma a fazer pesquisa em boas bibliotecas você acaba se desacostumando a xerocar e até mesmo deixa de comprar livros – não faz sentido gastar dinheiro em algo que você tem à mão quando precisa no horário de trabalho.

Mas quando decidi que ia voltar pro Brasil comecei a me planejar para ter acesso ao menos ao material básico para minha pesquisa: comprando livros e xerocando artigos e capítulos. Isso consome tempo e dinheiro, mas uma das coisas mais chatas é a logística de como fazer esse material chegar no Brasil. Em 2009 eu tive a ajuda da família: todo mundo que veio visitar o recém-nascido Amianinho levou pra casa uma mala cheia de livros. As fotocópias eu enviei por correio.

Com o passar do tempo fui aperfeiçoando meu método, e hoje em dia já sei como faço: passadas regulares nos correios para enviar caixas por via marítima pro Brasil; em Roma, usar o correio do Vaticano, mais barato e mais rápido; na Inglaterra e na Alemanha enviar caixas com uma certa periodicidade, para evitar chateação com os correios.Em Oxford, comprar livros na Oxbow e pedir a eles para enviar diretamente pro Brasil. Note bem, com a Amazon e similares, faz pouco sentido comprar livros novos no exterior. Muito mais lógico é comprar livros de segunda mão ou barganhas, pois esses você tem que estar por lá.

Mas a grande revolução foi, para mim, a introdução em Oxford de máquinas fotocopiadoras que escaneiam direto para um pen-drive. Com isso você gasta muito menos (2 pence, ao invés de 7 por página) e carrega tudo consigo. Essa é, na minha opinião, a maior revolução na nossa forma de fazer pesquisa: meu tempo na biblioteca foi dividido entre hora para escanear loucamente (você não precisa fazer tanto planejamento, uma vez que o custo é muito menor) e hora para fotografar catálogos que eu preciso consultar. Se a qualidade do trabalho vai melhorar eu não sei, mas me parece claro que estes desenvolvimentos na tecnologia da informação vão provocar uma revolução na maneira como se faz pesquisa em história. Ao invés de ficar no arquivo horas suando em frente a um manuscrito, você tira fotos com uma boa câmera, ao invés de ficar lendo o livro você escaneia tudo. Eu ainda acho que nada se compara ao prazer e à produtividade do trabalho na biblioteca, um lugar onde um livro te leva a outro que te leva a um artigo, onde você encontra colegas e toma café e faz social. Mas para nós que vivemos no Brasil e não temos bibliotecas minimamente equipadas em História Antiga, acho que está muito mais fácil terminar aquele artigo com aquela referência que fazia tanta falta.

Vladimir Safatle é professor de filosofia na USP, e tem se notabilizado fora do meio acadêmico por suas  intervenções pertinentes neste debate eleitoral. Ele redigiu esse manifesto, com o qual eu concordo e aproveito para divulgar. Professores universitários que quiserem assinar, por favor enviem seu email para ele (aqueles que não o tiverem me contactem – não vou expor o email de um colega para trolls e vendedores de viagra).

Caros,

Professores universitários escreveram este manifesto a respeito das eleicoes. Estamos colhendo assinaturas. Aqueles que concordarem com seus termos, podem mandar seu nome e universidade para mim. Ele deve ser assinado apenas por professores universitários. Aqueles que nao concordarem com seus termos, bem, isto demonstra como a amizade é algo que ignora fronteiras. Um grande abraco,

Vladimir


Manifesto em Defesa da Educação Pública

 

Nós, professores universitários, consideramos um retrocesso as propostas e os métodos políticos da candidatura Serra. Seu histórico como governante preocupa todos que acreditam que os rumos do sistema educacional e a defesa de princípios democráticos são vitais ao futuro do país.

Sob seu governo, a Universidade de São Paulo foi invadida por policiais armados com metralhadoras, atirando bombas de gás lacrimogêneo. Em seu primeiro ato como governador, assinou decretos que revogavam a relativa autonomia financeira e administrativa das Universidades estaduais paulistas. Os salários dos professores da USP, Unicamp e Unesp vêm sendo sistematicamente achatados, mesmo com os recordes na arrecadação de impostos. Numa inversão da situação vigente nas últimas décadas, eles se encontram hoje em patamares menores que a remuneração dos docentes das Universidades federais.

Esse “choque de gestão” é ainda mais drástico no âmbito do ensino fundamental e médio, convergindo para uma política sistemática de sucateamento da rede pública. São Paulo foi o único Estado que não apresentou, desde 2007, crescimento no exame do Ideb, índice que avalia o aprendizado desses dois níveis educacionais.

Os salários da rede pública no Estado mais rico da federação são menores que os de Tocantins, Roraima, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Espírito Santo, Acre, entre outros. Somada aos contratos precários e às condições aviltantes de trabalho, a baixa remuneração tende a expelir desse sistema educacional os professores mais qualificados. Diante das reivindicações por melhores condições de trabalho, Serra costuma afirmar que não passam de manifestação de interesses corporativos e sindicais, de “tró-ló-ló” de grupos políticos que querem desestabilizá-lo. Assim, além de evitar a discussão acerca do conteúdo das reivindicações, desqualifica movimentos organizados da sociedade civil, quando não os recebe com cassetetes.

Serra escolheu como Secretário da Educação Paulo Renato, ministro nos oito anos do governo FHC. Neste período, nenhuma Escola Técnica Federal foi construída e as existentes arruinaram-se. As universidades públicas federais foram sucateadas ao ponto em que faltou dinheiro até mesmo para pagar as contas de luz, como foi o caso na UFRJ. A proibição de novas contratações gerou um déficit de 7.000 professores. Em contrapartida, sua gestão incentivou a proliferação sem critérios de universidades privadas. Já na Secretaria da Educação de São Paulo, Paulo Renato transferiu, via terceirização, para grandes empresas educacionais privadas a organização dos currículos escolares, o fornecimento de material didático e a formação continuada de professores. O Brasil não pode correr o risco de ter seu sistema educacional dirigido por interesses econômicos privados.  

No comando do governo federal, o PSDB inaugurou o cargo de “engavetador geral da república”. Em São Paulo, nos últimos anos, barrou mais de setenta pedidos de CPIs, abafando casos notórios de corrupção que estão sendo julgados em tribunais internacionais. Seu atual candidato à presidência não hesita em tentar explicitamente interferir no sistema judiciário e em controlar a produção da informação. Destrata jornalistas que lhe dirigem perguntas embaraçosas, enquanto a TV Cultura demite profissionais que realizaram reportagem sobre pedágios.

Sua campanha promove uma deseducação política ao imitar práticas da extrema direita norte-americana em que uma orquestração de boatos dissemina a difamação manipulando dogmas religiosos. A celebração bonapartista de sua pessoa, em detrimento das forças políticas, só encontram paralelo na campanha de 1989, de Fernando Collor.

Uma frase de efeito que eu usei no meu post abaixo levou alguns comentaristas a me cobrar uma tomada de posição mais clara (bom, eles foram mais educados do que isso). “Dê-me Harvard e eu te darei duas USPs (…)”, seguida de um comentário mais rude sobbre UNIPs e Universos. Isso gerou uma série de colocações interessantes, mas acho que seria legal a gente sistematizar esse debate. Eu vou fazer assim: posts diferentes, explorando aspectos diferentes, pra que a gente possa discutir. Eu sei que esse blog é bisexto, mas como esse é um tema que me interessa em muito eu prometo ser consistente.

A frase está ali por um motivo estratégico: para dizer que em princípio não tenho nada contra o ensino privado. Uma universidade privada pode ser a melhor do mundo e trazer grandes benefícios para o país onde está instalada, formando médicos, engenheiros, cientistas, músicos, classicistas, historiadores, economistas, etcetc. Mas o Brasil não tem nada comparável a Harvard, então a minha frase também era uma ironia – o termo de comparação normalmente usado (as grandes universidades da Ivy League) não se aplica. Existem vários motivos. Em primeiro lugar, a dotação destas universidades, a forma de financiamento. As universidades da Ivy League são baseadas em doações milionárias, que são investidas, e daí vem a maior parte do dinheiro. Novas doações são ou somadas ao montante inicial ou usadas para financiar edifícios ou iniciativas específicas. As mensalidades cobrem uma parte muito pequena dos custos, mesmo sendo escorchantes. Meu orientador voltou de Princeton uma vez dizendo que iria à loucura lá, pois o departamento de história quase não tinha estudantes (do ponto de vista de Oxford). Isso é porque eles não precisam de estudantes. Eu não conheço o caso americano (só do que leio), mas no caso de Oxford (muito diferente do resto da Inglaterra, com exceção de Cambridge) os colleges têm mais dinheiro do que a universidade em si (me beneficio aqui de ter estudado lá e de ter amigos que fazem partes de diferentes colleges, e que gostam de falar disso). Alguns colleges, como o St. Johns, têm mais dinheiro do que os outros, tendo acumulado doações importantes por séculos. Nesse caso, o normal é aplicar o montante inicial de maneira conservadora (terras, por exemplo) e usar 3% ao ano para cobrir os custos da instituição. Harvard, por acaso, é um exemplo de universidade que investiu loucamente no mercado de ações nos últimos anos, usou bem mais do que os tais 3% (afinal, estavam fazendo muito mais dinheiro do que isso)e agora está em crise por causa do colapso do mercado financeiro. Notem que crise, em Harvard, tem outro significado – nada comparável à UFRJ, por exemplo.

Só para dar uma idéia de como isso é impensável no Brasil, um amigo estava brincando que iria escrever para o Eike Batista pedindo que ele financiasse a criação do cargo de Professor Eike Batista de História Romana. Foi uma boa piada, mas em Oxford o professor de História Romana é o Craven Professor, o de história Grega Wykeham Professor, e o de história medieval Chichele Professor. Existe o Regius Professor, o professor real, mas essa é uma dotação pessoal da coroa, e até hoje o Regius Professor tem que ser aprovado pela rainha (só tem 3 destes em Oxford, e desde os anos 70 não tem nenhum caso de alguém ser rejeitado).

No Brasil, as universidades particulares vivem de mensalidade. Isso significa que a margem com a qual elas operam é muito pequena, normalmente. Elas precisam ampliar estas margens, criando programas especiais. A educação acelerada de professores deu muito dinheiro nos anos FHC, eu dava aula num programa destes e morria de vergonha – os alunos eram ótimos, interessados, mas tinham 8 horas de aula aos sábados, vindo de longe e após terem passado a semana inteira dando auas em horários insanos. Outra forma de aumentar as margens é reduzir os custos – e aí o poder político que elas têm no conselho de educação é crucial, pois podem evitar cancelamentos quando flagradas com menos doutores ou mestres do que o determinado pelo Ministério. Isso é uma forma de autodefesa, perversa mas sem isso elas sofrem no mercado.

Porque tem um outro problema aí: o papel dominante exercido pelas universidades públicas, estaduais e federais. A Marilda me alertou em um comentário para o caso interessantíssimo das universidades comunitárias, das quais a Universidade de Sorocaba é um exemplo. Isso me lembrou da Faculdade de Odontologia de Nova Friburgo, estado do Rio, que se não me engano também tem a mesma natureza. As universidades públicas não dependem de mensalidades, mas de verba dos governos (estadual ou federal). Muito do dinheiro atualmente vai para os programas de pós, mas o essencial, que mantém os prédios, paga os salários e os custos fixos vem via universidade. Ricardo Paes de Barros (e outros), em um artigo na Sinais Sociais de Agosto-Dezembro de 2007 (tem que baixar o numero todo aqui), chamou a atenção para as distorções que o sistema público gera: ele não supre toda a demanda (a maioria é coberta pelo ensino privado), mas controla o mercado por ter muito mais dinheiro e mais qualidade, atraindo assim os alunos mais talentosos. Eu adicionaria outra distorção, que é o fato de que às universidades públicas não interessam os alunos mais talentosos – isso não é verdade para todas as universidades (aguardo a lista de exceções), nem todos os departamentos, mas o fato é que elitismo é uma acusação mortal em qualquer reunião de conselho universitário. Nosso sistema educacional não premia o talento, o que é uma forma de suicídio, mas eu vou voltar a isso em outro post.

Curiosamente, foi o governo Lula quem atacou essa distorção gerada pelo sistema público, com dois programas bem bolados. O ProUni, que dá bolsas intgrais ou parciais para quem vai estudar em universidades particulares, e o Reuni, que financia a expansão do sistema universitário. Isso não resolve o problema, pois as particulares continuam dependendo de mensalidades, e as públicas passam a concentrar ainda mais recursos (tem uma armadilha financeira aí, mas voltaremos a ela mais tarde, desculpem por isso). Mas ao menos um bom aluno no Rio que não passa para direito na UERJ pode pensar na PUC, e por aí adiante.

O custeio de universidades é, na minha opinião, O problema chave. Mas existem problemas logicamente anteriores, que serão discutidos nos próximos posts. A saber, para que queremos universidades. Uma coisa eu preciso dizer, antes de terminar. Desde que voltei da Europa, não vi falta de dinheiro na USP. Isso tanto via reitoria, via FAPESP, ou via Capes-CNPq. A Usp é provavelmente um ponto fora da curva, mas semana passada eu estive em Franca, interior de SP, em um encontro de ótima qualidade, com dois convidados estrangeiros, tudo com financiamento do CNPq. Eu não sei como são as outras áreas, mas na História Antiga o que me incomoda é justamente o excesso de eventos, encontros e congressos. Se existem tantos, é porque existe dinheiro para financiá-los (além da pressão para que professores organizem eventos como forma de atender aos critérios dos indicadores de produtividade, mas isso é outro problema). Minha impressão é que o sistema brasileiro tem limitações sérias, mas também é só agora que suas potencialidades estão sendo exploradas.