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Um capítulo interessante da história intelectual do século XX será o de como duas ideologias totalitárias, o fascismo e o comunismo, foram construídas, desconstruídas e apropriadas por contemporâneos e pela posteridade. Nenhuma das duas morreu, apesar de a era de experimentação com ambas ter aparentemente passado. Na Itália e na Áustria o fascismo ainda é uma força, com algum apelo popular, apesar de as institutições, a constituição e a maioria da população serem abertamente contra ele. Na França e na Inglaterra alguns grupos se apropriaram de elementos da ideologia fascista, demaneira mais ou menos aberta, com mais ou menos sucesso eleitoral. No caso do comunismo a coisa é mais complicada, pois a história é mais complicada.

O problema é colocado por uma resenha do novo livro do Hobsbawn por Nick Cohen publicada no Amálgama. Cohen critica Hobsbawn por, entre outras coisas, querer mudar o mundo seguindo uma ideologia associada a tantos massacres. A questão, na minha opinião, é: até que ponto um intelectual deve expiar os crimes cometidos por outros em nome de suas convicções políticas? Até que ponto alguém pode se declarar um “comunista” e continuar em paz com sua consciência, sustentado pela fé de que “da próxima vez vai ser diferente”?

Antes que a direita me festeje e a esquerda me execre, preciso deixar claro que eu não estou condenando o comunismo e nem sou contra partidos comunistas. A questão é muito mais complexa e mais sutil do que isso e, de todo o modo, tendo estudado na UFF nos anos 90 eu fui exposto a uma dose considerável de marxismo e valorização do comunismo, e até hoje ainda não me livrei de minhas simpatias. Uma outra complicação é a distinção entre marxismo e comunismo, pois um representa uma ideologia política e o outro um sistema de pensamento que é uma ferramenta eficaz para a compreensão da realidade (pelo menos em alguns casos).

Mas o que me trouxe a estas considerações foi a resenha de Bloodlands, de Timothy Snyder, na Slate. A resenha (um tanto sensacionalista) é realmente de deixar cabelo em pé. O argumento de Rosenbaun, autor da resenha, é que a fome imposta à Ucrânia foi um genocídio planejado, intencional, e que o canibalismo ao qual parte da população ucraniana foi revertida representa mais um passo na descida da humanidade ao inferno. Um novo truque para nosso repértorio de coisas indizíveis. Não tem como não ficar impressionado com essa passagem:

“One more horror story. About a group of women who sought to protect children from cannibals by gathering them in an “orphanage” in the Kharkov region: ‘One day the children suddenly fell silent, we turned around to see what was happening, and they were eating the smallest child, little Petrus. They were tearing strips from him and eating them. And Petrus was doing the same, he was tearing strips from himself and eating them, he ate as much as he could. The other children put their lips to his wounds and drank his blood. We took the child away from their hungry mouths and we cried.”

O argumento foi retomado por Snyder em um artigo para o blog da NYRB, no qual ele se pergunta quem foi pior, Hitler ou Stalin. Essa é uma pergunta infantil, na minha opinião, mas ao menos nos ajuda a pensar o horror e o mal como coisas concretas, que podem ser mensuradas. E estas coisas não acontecem porque as pessoas são intrinsecamente más (apenas), mas porque existem ideologias que as explicam e justificam. A crítica de Cohen ao livro do Hobsbawn é, por um lado, infantil e rasteira – pensar que o marxismo não pode melhorar o mundo por causa do que Stalin ou Mao fizeram é uma bobagem. Mas em um certo nível ela é certeira: o passado de nossas ideologias faz parte delas também, e não podemos aceitá-las sem lidar com ele.

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San Nicandro é uma cidadezinha no norte da Puglia, mais ou menos no topo do calcanhar da bota italiana. É uma cidadezinha típica dessa parte da Itália: pequena (+/- 16 mil pessoas), ligada aos ritmos da vida rural, especialmente ao pastoreio, e – uma coisa que me fascina – um bom exemplo da excepcional originalidade religiosa do Sul da Itália. Nos anos 1920, um curioso movimento religioso começou naquela comunidade, a conversão de um grupo de pessoas ao judaísmo. Seu líder, Donato Manduzio, era uma espécie de profeta, cujo conhecimento do judaísmo vinha única e exclusivamente da leitura do antigo testamento. Ele não conhecia nenhum judeu, e nem sabia que eles ainda existiam – pelo que ele leu na Bíblia, a maioria parecia ter desaparecido na época do grande dilúvio. A comunidade permaneceu sempre marginal, uma curiosidade, sobreviveu à  dominação alemã (na verdade, entre o momento da primeira ‘queda’ de Mussolini e a tomada do sul da Itália pelos aliados passou-se pouco tempo, o que os ajudou a sobreviver). Mais tarde, a comunidade emigrou para Israel, contra a vontade de seu líder.

Essa história fascinante é contada em um livro, the Jews of San Nicandro, resenhado por Hobsbawn na LRB. Vale a pena ler o artigo de Hobsbawn, fascinante. Não vale a pena repetir aqui o que ele escreveu (mais do que eu já fiz no parágrafo acima), mas vale a pena apontar para uma coisa que eu acho interessante, uma limitação do grande historiador inglês. Na resenha, Hobsbawn trata o movimento do ponto de vista de alguém interessado em movimentos sociais, bem sucedidos ou não. O movimento de Manduzio é fascinante, mas eu tenho minhas dúvidas sobre até que ponto pode ser chamado de um ‘movimento social’, nos moldes do Hobsbawn. Digo isso porque é óbvio – mesmo para quem não leu o livro – que a questão religiosa é crucial para entender esse movimento, mas ela não interessa a E.H.

O Mezzogiorno é uma das áreas mais interessantes da Europa. Não só por sua história, mas por seus radicalismos. A religião exerce um papel crucial nisso aí. Carlo Levi observou (um tanto preconceituosamente, eu acho) que aquela é uma civilização diferente da que ele conhecera no norte/centro da Itália, e a religião é importante nisso aí – como ele mesmo nota. Não dá para explicar o Sul da Itália sem entender o papel da religião aí, e não dá para entender seus loucos movimentos sociais sem entender suas inspirações religiosas.

ps: para quem tem interesse no assunto, além do livro de Levi, tem um artigo excelente (e não muito antigo) na Past and Present 187, de 2005, de James S. Amelang, usando o Mezzogiorno como estudo de caso para discutir os riscos do uso excessivo de teorias antropológicas sobre religião.

Pode um livro sobre a alta Idade Média, escrito por um marxista interessado em modos de produção, publicado no início do século XXI, ser interessante? A resposta é óbvia (sim!!), e para explicar o porque eu resenhei o livro de Chris Wickham lá no Antiguidades Romanas.

Orhan Pamuk levantou dois pontos interessantes em um discurso feito na feira de livros de Jaipur. O primeiro é o de que ele se sente ‘rotulado’ por ser turco: quando ele escreve uma estória de amor, ele fala, ela não é só uma estória de amor turca – ela se refere a toda a humanidade. Esse rótulo reduz não só o apelo de sua obra (como se ele só escrevesse para turcos), como também restringe o alcance de sua mensagem. O outro ponto é o de que como as editoras inglesas e americanas traduzem pouco uma boa parte da literatura mundial é marginalizada – e com isso deixamos de conhecer boa parte da experiência humana. Esse é um ponto interessante, mas aí ele força a barra. Traduzir custa caro, pois requer mais do que contratar um tradutor. Esse tem que estudar, aprender uma língua, estudar sua cultura, e isso custa tempo e dinheiro. Traduz-se hoje mais do que em qualquer outro momento da história. Eu acho que poucos países podem se vangloriar de tantas traduções novas por ano quanto os EUA e o UK. Seria ideal que mais coisa fosse traduzida (eu preferiria para o português), mas o que Pamuk poderia fazer é usar sua posição de força – professor da Universidade de Columbia, em NY – para divulgar escritores de línguas minoritárias, e a partir daí aumentar o interesse por eles.

Um problema recorrente para mim nos últimos anos foi o de como carregar livros e fotocópias. Quando você se acostuma a fazer pesquisa em boas bibliotecas você acaba se desacostumando a xerocar e até mesmo deixa de comprar livros – não faz sentido gastar dinheiro em algo que você tem à mão quando precisa no horário de trabalho.

Mas quando decidi que ia voltar pro Brasil comecei a me planejar para ter acesso ao menos ao material básico para minha pesquisa: comprando livros e xerocando artigos e capítulos. Isso consome tempo e dinheiro, mas uma das coisas mais chatas é a logística de como fazer esse material chegar no Brasil. Em 2009 eu tive a ajuda da família: todo mundo que veio visitar o recém-nascido Amianinho levou pra casa uma mala cheia de livros. As fotocópias eu enviei por correio.

Com o passar do tempo fui aperfeiçoando meu método, e hoje em dia já sei como faço: passadas regulares nos correios para enviar caixas por via marítima pro Brasil; em Roma, usar o correio do Vaticano, mais barato e mais rápido; na Inglaterra e na Alemanha enviar caixas com uma certa periodicidade, para evitar chateação com os correios.Em Oxford, comprar livros na Oxbow e pedir a eles para enviar diretamente pro Brasil. Note bem, com a Amazon e similares, faz pouco sentido comprar livros novos no exterior. Muito mais lógico é comprar livros de segunda mão ou barganhas, pois esses você tem que estar por lá.

Mas a grande revolução foi, para mim, a introdução em Oxford de máquinas fotocopiadoras que escaneiam direto para um pen-drive. Com isso você gasta muito menos (2 pence, ao invés de 7 por página) e carrega tudo consigo. Essa é, na minha opinião, a maior revolução na nossa forma de fazer pesquisa: meu tempo na biblioteca foi dividido entre hora para escanear loucamente (você não precisa fazer tanto planejamento, uma vez que o custo é muito menor) e hora para fotografar catálogos que eu preciso consultar. Se a qualidade do trabalho vai melhorar eu não sei, mas me parece claro que estes desenvolvimentos na tecnologia da informação vão provocar uma revolução na maneira como se faz pesquisa em história. Ao invés de ficar no arquivo horas suando em frente a um manuscrito, você tira fotos com uma boa câmera, ao invés de ficar lendo o livro você escaneia tudo. Eu ainda acho que nada se compara ao prazer e à produtividade do trabalho na biblioteca, um lugar onde um livro te leva a outro que te leva a um artigo, onde você encontra colegas e toma café e faz social. Mas para nós que vivemos no Brasil e não temos bibliotecas minimamente equipadas em História Antiga, acho que está muito mais fácil terminar aquele artigo com aquela referência que fazia tanta falta.

Listas de final de ano são sempre assuntos deprimentes para mim. Eu sempre gostei de ler estas listas, e quando estava na faculdade eu era um entusiasta destes petiscos oferecidos pelos jornais e revistas ao final de cada ano. Melhor ler sobre os bons livros de 2010 do que sobre mais um escândalo no governo, esta era minha opinião. Não mais.

O problema é que eu não sou mais capaz de me lembrar quais foram os dez livros que eu li no ano que passou. Eu não sei se isso é porque, graças ao meu trabalho, eu leio livros demais, ou se é porque eu raramente leio um livro inteiro. Isso é vergonhoso, eu sei, mas é a mais pura verdade. Desde que entrei num doutorado, minhas leituras são essencialmente acadêmicas e normalmente em busca de informação que possa ser saqueada e reutilizada. Faz tempo que não leio um livro porque o autor me pareceu inteligente e o argumento era cheio de idéias interessantes. Eu estava lendo Guns, Germs, and Steel, do Jared Diamond, com 11 anos de atraso (!), mas não consegui terminar. Eu reli Augustine of Hippo, de Peter Brown – apesar de ser relacionado ao trabalho, eu considerei lazer porque é bem escrito. E li, finalmente, The Road to Oxiana, do Robert Byron – e poucas vezes um livro me deu tanto prazer quanto este. Ok, tem os livros lidos para escrever resenhas, mas estes não têm nada de divertido – e nada que eu gostaria de dividir com amigos ou leitores deste blog. O problema é que o tipo de história que eu faço é brutalmente pragmática: definir um problema, uma abordagem, ler todas as fontes, colocar tudo junto e ver o que sai. Esse antimétodo é muito produtivo, ainda mais na área de Antiga, onde desconhecemos coisas básicas e o trabalho do historiador ainda é o de estabelecer fatos do que bolar grandes interpretações (soa cínico, mas é isso mesmo, e eu sei que meus colegas antiquistas odeiam que eu pense assim).

A coisa é pior quando eu penso em filmes. Desde que Amianinho nasceu, eu fui ao cinema duas vezes. Uma vez para ver uma biografia de John Keates, Bright Star, e outra para ver Inception. Em 19 meses! Eu vejo séries de TV, quando Amianinho está dormindo, e conheço vários episódios de Scrubs de cor, mas isso não é exatamente um crédito para ninguém. Discos, então, nem se fala. Se não fosse meu cunhado saber que eu gosto de Sufjean Stevens eu não teria ouvido nenhum disco novo este ano que passou. e só descobri o Pomplamoose por causa de um excelente blog, o Trabalho Sujo.

É, aliás, o Pomplamoose, com o Ben Folds e a participação do grande Nick Hornsby, quem melhor explica minha situação. Fica aí, de presente, aquela que na minha opinião é a melhor interpretação do que foi 2010, do ponto de vista de um sujeito que teve a sorte de passar mais tempo trocando fraldas e reaprendendo a viver com a esposa, tendo um filho cheio de vida e energia, do que lendo livros e ouvindo discos.

Ser um historiador não é fácil. Não é mesmo: eu ainda me pego pensando em mim mesmo como um ‘estudante de história’, e não como um historiador. Meus professores na UFF, na USP e em Oxford podiam ter vários defeitos, mas são (tá todo mundo vivo) profissionais sérios. Frequentam arquivos, torram as economias da família em livros, perdem finais de semana estudando, dão nomes esquisitos aos filhos e por força da companhia desenvolvem um péssimo gosto indumentário. Mas a coisa mais chata de ser historiador é que qualquer um pode escrever história. Veja bem, isso é uma coisa boa: eu sou contra as propostas de regulamentação do trabalho do historiador. Mas que é irritante a maneira como uns brocoiós saem por aí falando que sabem história isso é.

Aí me apareceu um tal Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil (sem link que não vou fazer jabá pra ele). O cara sai no Globo Online, dizendo que quis acabar com a idéia da história como um produto da luta de classes, como uma briga entre mocinhos e bandidos, tal qual é ensinada nas escolas. Zumbi tinha escravos, esse tipo de coisas. Cara, isso é uma porcaria por vários motivos: 1. é uma bastardização escrota da disciplina – os livros do Eduardo Bueno eram popularização, bem escritos e informados; esse cara tenta se vender como diferente, pior. 2. A história não é isso: sou a favor de dizer que Princesa Isabel era isso, Zumbi aquilo, Pero Vaz de Caminha aquilo outro: mas isso faz parte de um contexto, e se existiam escravos em Quilombos (não é que ‘Zumbi tivesse escravos’ como a anta escreve, porque não eram propriedade privada) esse é um dado a ser analisado no contexto de uma sociedade e economia escravistas. 3. Ao contrário do que parte do publico leitor brasileiro gosta de pensar, o politicamente incorreto não é necessariamente uma coisa legal. Estereotipar minorias, fazer graça de desigualdades e celebrar a opressão são coisas de gente escrota. Paulo Francis, o guru dessa ‘nova direita’ vejista, era politicamente incorreto, mas usava isso contra absurdos que se tornavam estabelecidos em lei. Ele era contra quotas, mas não me lembro de ele ter dito que não existia racismo no Brasil. Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi e Ali Kamel são uma coisa muito diferente disso. O cara que escreveu esse livro também, e o pior: sem originalidade. A escrita e o ensino da História do Brasil SEMPRE foram politicamente incorretos: sempre estiveram do lado dos vencedores, da elite, e jamais reconheceram qualquer legitimidade para lutas de classe ou temas como exploração. Isso é uma coisa recente, apareceu pouco a pouco dos anos 70 para cá (nas universidades foi mais rápido).

Ciscando por aí vi no Marginal Revolution uma notinha falando do livro do John Hall, Ernest Gellner: An Intellectual Biography, um daqueles títulos que fazem o coração disparar. De todos os antropólogos que eu li na faculdade Gellner foi o que mais marcou; de todos os filósofos, idem. O tipo de sujeito que ao longo de sua vida sempre esteve do lado em que eu gostaria estar: contra a filosofia da linguagem, metendo o malho no estruturalismo (‘What is structuralisme?’ começa com a frase inesquecível: Um fantasma ronda a Europa: o estruturalismo (estou citando de cabeça)), no relativismo cultural à la Geertz, orientando o Merquior, a favor do liberalismo, contra o liberalismo, etc (bom, isso mostra bem o tipo de nerd que eu infelizmente virei. Quando criança eu queria ser astronauta).

Além do que olha o currículo do cara: Balliol College, Oxford; London School of Economics; Cambridge. Para os estudantes de história querendo ler algo de antropologia tem poucas coisas melhores do que Antropologia e Política. Tem tudo ali: desde arqueologia préhistórica soviética, Gordon Childe, o relativismo explicado e criticado, até porque os americanos se meteram numa roubada quando invadiram o Iraque para fazer ‘nation building’ (hahaha). Fica aí a recomendação: comprem, leiam, e depois mandem pra mim que a grana está curta.

Continuando minha crítica ao Said no post abaixo (tem um comentário interessante do João Paulo lá, dêem uma conferida).

Contextualizando: Said identificou uma questão interessantíssima, e botou o dedo em uma ferida. O ‘Oriente’, essa entidade abstrata e misteriosa, é uma construção do Ocidente. Uma construção discursiva, objetificada através de políticas imperialistas, coleções de museus, representações artísticas, e estudos científicos. O Orientalismo é um livro importantíssimo por sua postura política. Said conhece muito (me parece, não sou especialista) da literatura do século XVIII ao início do XX, pelo menos eu achei tudo muito convicente.

Existem alguns problemas com relação ao livro, no entanto, que não são levados em conta por seus inúmeros defensores e seguidores. Em primeiro lugar, algumas vezes Said parece se esquecer que a relação entre ‘Ocidente’ e ‘Oriente’ é de mão dupla. Tudo muito bem dizer que Os Persas do Ésquilo sedimentou uma imagem do oriental como ameaçador e ‘outro’ no início do século V a.C. O problema é se esquecer que a tragédia foi uma resposta a uma série de guerras entre gregos e persas, nas quais os persas invadiram a Grécia e ao menos uma vez saquearam Atenas. Os caras eram ameaçadores e ‘outros’ mesmo, o Ésquilo estava certo! O segundo problema é o da generalização: uma coisa é falar de um administrador inglês no Iraque no início do século XX (pausa para propaganda: leiam A History of Iraq, do Charles Tripp, é excelente), outra muito diferente é falar de um egiptólogo alemão dando aula em Berlim. Um cara que estuda egiptologia, ou poesia árabe medieval, ou arquitetura persa, tem que lidar com uma série de questões específicas à sua disciplina, e depois vai ter seu trabalho revisto e resenhado por seus pares. Existe aí uma autonomia que não pode ser desprezada. O que eu quero dizer é que a relação entre o ‘hoje’ do estudioso e o passado que ele estuda é mais complicada do que o Said em alguns momentos dá a entender. Eu acho interessante, por exemplo, como os especialistas em antiguidade oriental na Inglaterra no início do século XX optaram por continuar chamando sua área de estudo ‘Near East’, e não seguir a orientação dos diplomatas e mudar para ‘Middle East’.

Existe também o problema da especialização. Um assiriólogo basicamente publica inscrições cuneiformes: coleta, monta um ‘arquivo’ de tabuinhas, compara com um monte de outras tabuinhas, estabelece o texto, traduz. É um trabalho braçal e intelectual, que segue regras muito específicas. Esse cara às vezes tem a sorte de contar com a ajuda de arqueólogos. O Mario Liverani uma vez disse que a decifração do cuneiforme entre o XVIII e XIX foi o maior alargamento do discurso histórico que nós já experimentamos (3000 anos de civilização ganharam uma história!). Dizer que estes caras estão a serviço de um discurso imperialista é um pouco demais. Eles podem reproduzir elementos do discurso imperialista, mas se limitarem seu trabalho aos interesses da Rainha Vitória eles terão seus livros trucidados por um filólogo alemão. Porque esse é um outro problema do livro do Said: ele não fala dos alemãos. Ele deixa de considerar a mais importante escola e língua dedicadas ao orientalismo no século XIX. Seria como um sujeito estudar o discurso acadêmico sobre a identidade brasileira e deixar de lado a produção de São Paulo, Sérgio Buarque e Florestan Fernandes inclusos.

Todo mundo com um mínimo de interesse pelo ser humano e pelas ciências humanas deveria conhecer alguma coisa sobre o Warburg Institute, o instituto fundado junto à Universidade de Londres pela generosidade intelectual e financeira da família do grande Aby Warburg. Warburg foi um estudioso do século XIX dedicado à arte renascentista que se transformou em um estudioso das formas de transmissão das idéias clássicas até a época moderna, um curioso por tudo que tivesse relação com a forma de pensar: a astronomia, a alquimia, as artes, os ritos, os mitos, etc, em diferentes civilizações. Ele exerceu uma enorme influência sobre diversos estudiosos, seja através de suas obras ou de sua biblioteca, organizada de maneira a estimular a criatividade (e não segundo critérios biblioteconômicos estritos) – não por acaso, mnemosyne (memória) é o seu mote.

Associados ao Instituto estiveram lendas da história da arte e das humanidades, como Erwin Panofsky e Ernst Gombrich. Até Carlo Ginzburg passou por lá, e seus livros Os Andarilhos do Bem, O Queijo e os Vermes e   História Noturna são fortemente influenciados pelo Warburg.

Agora, um artigo no The Art Newspaper mostra como os burocratas da Universidade de Londres estão desfigurando o instituto e sua biblioteca. Uma linda estória, que se encaminha para um final muito triste.