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Um artigo interessantíssimo de Paulo Costa Lima no Terra Magazine (via blog do Nassif), sobre “Wave”, do Tom Jobim. Eu não entendo nada de música, então não posso julgar a análise feita. Mas de uma coisa eu tenho certeza: Pelé e Jobim são nossas maiores contribuições à civilização. Como se Shakespeare e Da Vinci tivessem vivido no mesmo país, atuando nos mesmos anos. Poucos países podem bater isso. É uma coisa estranha o Brasil (e não, não estou numa onda de otimismo – já faz tempo que eu acho isso): enquanto outros países têm grandes batalhas e mortandades como suas ‘datas nacionais’, as nossas são as conquistas na copa do mundo. Não é pouco…

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Nada faz com que eu me sinta mais em casa do que ir ao Banco do Brasil, ou a uma repartição pública qualquer, e fracassar no que eu havia planejado.

Listas de final de ano são sempre assuntos deprimentes para mim. Eu sempre gostei de ler estas listas, e quando estava na faculdade eu era um entusiasta destes petiscos oferecidos pelos jornais e revistas ao final de cada ano. Melhor ler sobre os bons livros de 2010 do que sobre mais um escândalo no governo, esta era minha opinião. Não mais.

O problema é que eu não sou mais capaz de me lembrar quais foram os dez livros que eu li no ano que passou. Eu não sei se isso é porque, graças ao meu trabalho, eu leio livros demais, ou se é porque eu raramente leio um livro inteiro. Isso é vergonhoso, eu sei, mas é a mais pura verdade. Desde que entrei num doutorado, minhas leituras são essencialmente acadêmicas e normalmente em busca de informação que possa ser saqueada e reutilizada. Faz tempo que não leio um livro porque o autor me pareceu inteligente e o argumento era cheio de idéias interessantes. Eu estava lendo Guns, Germs, and Steel, do Jared Diamond, com 11 anos de atraso (!), mas não consegui terminar. Eu reli Augustine of Hippo, de Peter Brown – apesar de ser relacionado ao trabalho, eu considerei lazer porque é bem escrito. E li, finalmente, The Road to Oxiana, do Robert Byron – e poucas vezes um livro me deu tanto prazer quanto este. Ok, tem os livros lidos para escrever resenhas, mas estes não têm nada de divertido – e nada que eu gostaria de dividir com amigos ou leitores deste blog. O problema é que o tipo de história que eu faço é brutalmente pragmática: definir um problema, uma abordagem, ler todas as fontes, colocar tudo junto e ver o que sai. Esse antimétodo é muito produtivo, ainda mais na área de Antiga, onde desconhecemos coisas básicas e o trabalho do historiador ainda é o de estabelecer fatos do que bolar grandes interpretações (soa cínico, mas é isso mesmo, e eu sei que meus colegas antiquistas odeiam que eu pense assim).

A coisa é pior quando eu penso em filmes. Desde que Amianinho nasceu, eu fui ao cinema duas vezes. Uma vez para ver uma biografia de John Keates, Bright Star, e outra para ver Inception. Em 19 meses! Eu vejo séries de TV, quando Amianinho está dormindo, e conheço vários episódios de Scrubs de cor, mas isso não é exatamente um crédito para ninguém. Discos, então, nem se fala. Se não fosse meu cunhado saber que eu gosto de Sufjean Stevens eu não teria ouvido nenhum disco novo este ano que passou. e só descobri o Pomplamoose por causa de um excelente blog, o Trabalho Sujo.

É, aliás, o Pomplamoose, com o Ben Folds e a participação do grande Nick Hornsby, quem melhor explica minha situação. Fica aí, de presente, aquela que na minha opinião é a melhor interpretação do que foi 2010, do ponto de vista de um sujeito que teve a sorte de passar mais tempo trocando fraldas e reaprendendo a viver com a esposa, tendo um filho cheio de vida e energia, do que lendo livros e ouvindo discos.

Existe uma coisa profundamente incômoda nessa atenção dada pela mídia (e agora este blog – touché) às patacoadas de Benedito 16o sobre o Big Bang. É da Igreja católica proncunciar-se sobre tudo que não seja pedofilia de padre. Às vezes eles falam de coisas que entendem: o uso de camisinha, aborto, desigualdade econômica, tiranias e totalitarismo, perseguição religiosa… a lista de ‘temas quentes’ nos quais os caras têm experiência prática de primeira mão é interminável. Mas… o Big Bang? Quer dizer, não bastam o Caetano Veloso e o Gilberto Gil, agora também o Papa vai se meter a falar de ciência? E de coisa complicada?

Aguardo o pronunciamento de Richard Dawkins sobre a virgindade de Nossa Senhora.

A campanha acaba de sair de seu nível chulo das semanas passadas. Atingiu um nível de ridículo sem precedentes. Serra foi alvejado por uma bolinha de papel. A Grobo, a Falha, etc., estão fazendo o máximo possível para transformar isso em algo relevante. Isso é do jogo, e o jogo é de palhaços, então que façam palhaçada. Serra já havia enterrado qualquer passado digno que pudesse ter tido quando deixou sua mulher se pronunciar sobre aborto e criancinhas. Mas agora virou um cara ridículo, um paspalhão. Ou um energúmeno, no sentido usado pelo Merval Pereira sobre o Lula, na coluna de hoje. Com ele foram enterradas as grandres empresas jornalísticas brasileiras, que estão se expondo ao maior ridículo de todos os tempos.

É curioso contrastar a atitude de Serra com a de Collor, que na gloriosa campanha de 1989 foi a Niterói, foi alvejado por um ovo e ao invés de botar a mão na cabeça e fazer uma tomografia ficou putaço e queria partir pra porrada (bons tempos aquele em que o PT jogava ovos no Collor!). Bom, para quem quiser ir às próximas manifestações do Serra e fazer algo tão cretino quanto jogar bolinhas de papel nele, fica a dica: treine aqui, antes. E use papel higiênico, sujo de preferência, que ao menos depois ele vai ter algo a mostrar para as câmeras.

Disclaimer: esse blog condena qualquer ato de violência, física ou verbal. O que machuca na bolinha de papel não é a fisicalidade do ato, mas a humilhação. O próximo passo seria a torta na cara, o que não se faz.

Um amigo dando um curso na pós fez um comentário muito interessante (bom, ele tem muitos outros, mas esse é que me interessa agora, vocês entenderam).  A julgar pelo que diz a mídia, o eleitor natural de Dilma, que aprova o governo Lula de maneira entusiástica, é o mesmo que nas horas vagas vai lá na igreja ou no templo ouvir padres e pastores dizerem que a candidata do PT tem um tridente escondido debaixo da cama. O exercício teórico é: será que a racionalidade econômica de quem foi beneficiado pelas políticas sociais e econômicas deste governo é mais forte do que a racionalidade religiosa do sujeito que não quer ver abortistas homosexuais e adoradores do diabo levando nossa nação rumo às trevas? Ah, se o Weber estivesse vivo…

Hoje eu tomo posse (eba!!) como professor da Unifesp, no departamento de História. Quer dizer, a posse está marcada para hoje. Se eu vou tomar posse ou não vai depender de eu ter entendido direito a enorme lista de documentos que me foi entregue. De alguns eles querem uma cópia, de outros querem duas, de todos querem ver os originais – mesmo que eu já tenha entregue cópias de quase todos estes documentos quando me inscrevi para o concurso (cópias que ainda não devolveram). Eu não sei ainda o que a posse significa, mas imagino que será uma coisa rápida, desprovida de maiores rapapés ritualizados.

Minha impressão é que aqui no Brasil nós estamos desritualizando as cerimônias de investidura reais que chegaram com os portugueses. Tomar posse é uma linguagem extremamente feudal. O fato que isso envolve cartórios, declarações de fé, etc, mostra que estamos no meio de um mundo mais próximo dos trabalhos de meus colegas medievalistas do que da racionalidade burocrática do Weber. Existe um belo livro do Joseph Strayer, As Origens Medievais do Estado Moderno (aqui em inglês; a edição portuguesa está esgotada), na qua ele mostra como o Estado que conhecemos, com sua burocracia, evoluiu a partir do século XII e XIII. No caso de Portugal e do Brasil, essa combinação entre burocracia medieval e moderna, weberiana, me parece ser uma chave mais interessante para ler nossa história – como eu nunca li o Faoro, dependo dos meus amigos que leram e disseram que ele segue uma chave mais ‘patrimonialista’ para isso.

O que é engraçado é que enquanto eu xerocava toda a papelada eu me lembrava dos comentários que circulavam em Oxford, sobre como aquele lugar é estranho: a cerimônia de colação de grau é em Latim; a biblioteca Bodleyan te faz ler um juramento na sua própria língua materna (e não em inglês), no qual você se compromete a não roubar ou danificar livros; alguns colleges requerem que você jure não se jogar no lago, etc. Ou seja, uma sociedade cheia de rituais. Mas o interessante é que em nenhum momento eles te pedem um atestado de bons antecedentes reconhecido em cartório. É mais ou menos como a monarquia inglesa: eles mantém as formas, mas aos poucos se livram do conteúdo. Nós mantemos o conteúdo, mas nos livramos das formas.

Esta semana olhando o filho brincar vi quando ele deu um tapa na bola de pilates da mãe. Vi a cara de entusiasmo dele, ao fazer a bola rolar com um tapa. Deu para vir a alegria dele nessa descoberta tão simples e fundamental. E eu passei cinco anos fazendo um doutorado, que meu deu prazer, mas nada tão imenso quanto a de dar um tapa em uma bola pela primeira vez. Ao invés de ficar pensando em coisas diferentes, acho que eu devia passar mais tempo tentando lembrar das coisas realmente importantes que eu fiz quando bebê.

Durante a recente visita dos sogros, me foi feita a seguinte pergunta: os membros do seu departamento na universidade estão satisfeitos com seu desempenho no pós-doutorado? Meu sogro gosta de fazer perguntas diretas, e na medida do possível eu tento responder de maneira direta. Mas essa me pegou.

Não foi fácil explicar para ele que o pós-doutorado, da maneira como estou vivendo, é muito diferente do que é normalmente o caso na Europa e EUA (ao menos nas humanas). Não sei se é assim em todas as áreas, ou em todas as universidades, ou em todos os departamentos, mas no meu caso é um pouco como estar no limbo. Quando eu cheguei à USP, estava animado para dar aulas, ajudar na organização de um grupo de pesquisa, além de fazer minha própria pesquisa. Isso é feito muito mais facilmente com a bolsa espetacular da FAPESP, que além de pagar razoavelmente bem ainda tem uma reserva técnica para auxiliar em custos da pesquisa.

Pois bem. O curso saiu, e apesar de a turma ter sido desanimadoramente ruim eu acho que o resultado foi positivo (ao menos eu aprendi algo).  Mas o departamento nunca tomou conhecimento de minha presença. A papelada do meus pós-doc demorou a sair, e até hoje não tenho carteirinha da universidade. Com isso não tenho acesso à biblioteca, por exemplo. O curso que eu dei com meu supervisor não foi creditado no meu nome. Em nenhum momento alguém do departamento me procurou para falar da possibilidade de eu dar um curso. Aliás, afora aqueles que eu já conhecia, eu não conheci ninguém no departamento.

Essa estrutura é uma tremenda estupidez. Em primeiro lugar, porque eu custo dinheiro para o Estado. Esse dinheiro podia ter sido dado diretamente ao departamento, mas foi dado a mim. E olha que eu produzo, escrevo artigos, estou trabalhando no livro, faço minha pesquisa etc. Mas meu pós-doutorado não foi revertido em nada de bom para o departamento, o que ao menos para mim é muito decepcionante. Para o departamento, bem, eles nem sabem que eu estou aqui. A biblioteca é um caso a parte – eu vou lá para ler de vez em quando, mas depois de 8 anos fora do Brasil e com bom acesso à internet e a bibliotecas estrangeiras eu acho que tenho quase todos os recursos de que preciso em casa – e o que não tenho a universidade muitas vezes também não tem.

Mas o que mais me incomoda é que isso me parece ter a ver com algumas das coisas que estão erradas nas universidades brasileiras. A USP é uma excelente universidade, e o Depto de História é muito bom também. Mas falta, entre outras coisas, uma maneira de incorporar todas as pessoas que passam ali, de explorar mehor o potencial humano da universidade. Seria inconcebível em um departamento de Classics na Inglaterra que um pós-doutorando não desse aulas e não tivesse funções administrativas (só com bolsas da Humboldt mesmo). A impressão que dá é que o departamento quer seguir com sua vidinha, e que quanto menos problemas melhor. Note que nenhum membro do departamento pensa assim, pelo menos eu acho que não. Mas a inércia é um problema e uma limitação.

Em suma, minha vida de pós-doc consiste basicamente em passar os dias em casa, no meu pequeno escritório. Saio dali para ajudar quando a patroa (que também está trabahando em casa) tem problemas com o Amianinho, na hora do almoço e jantar. Meus vizinhos me acham um vagabundo, apesar de eu passar mais tempo na minha escrivaninha do que eles no trabalho deles. A moça da banca de jornais acha que eu sou um milionário, porque costumo passar com o filho no caminho para o banco, ou para uma ida rápida a um mercado. Para eles, eu respondo: pós-doutorado.

Nas últimas semanas meu filho começou a tentar andar para nosso completo desespero – já alcança meus livros, dá tapa na televisão, e quer saber o que é que está em cima da mesa. Minha mulher quase foi deportada por causa de um mal entendido na polícia federal (aparentemente dizer que uma estrangeira é casada com você não é o suficiente para que certas pessoas entendam que ela é casada com você). Meus sogros estiveram por aqui por três semanas, e eu continuo tentando manter a sanidade e trabalhar. Quero ver alguém blogar nestas condições. Enfim, porque escrever tanto se John Cleese diz tudo por você?