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Um artigo interessantíssimo no Guardian (tirado do Le Monde) comenta os desenvolvimentos urbanísticos de Istambul e suas implicações para os habitantes de lá. O artigo é interessante mas vem fora de um contexto. Istambul é uma das maiores cidades do mundo (mas eu fiquei surpreso com o número de habitantes que eles citam, 30 milhões – deve ter algum erro aí (os dados da Wikipedia são mais realistas, eu acho), ou eles estão considerando uma grandíssima Istambul. Quando eu visitei Istambul a cidade parecia uma típica metrópole de terceiro mundo, só que com muito mais caráter: cheia de gente (um dos povos mais simpáticos que eu já conheci), ruas sujas e estreitas cheias de personalidade, avenidas grandiosas e sem alma, prédios esplendorosos e decadentes, prédios novos e sem graça. Eu cheguei de ônibus vindo da Capadócia, e andar pela rodoviária e pegar o metrô foram experiências bem desagradáveis: sujeira, mutidão, péssimos serviços.

Então é claro que tenho alguma simpatia pela idéia de modernizar os serviços da cidade. Também é uma boa idéia revalorizar a área de Sululuke (foto magnífica aqui). Quando eu estive lá – em 2003 -a área próxima às muralhas de Teodósio II (a maior obra defensiva do mundo antigo, segundo alguns – eu ainda prefiro as muralhas de Roma) era muito degradada, parecendo uma favela. Aliás, era uma favela: fazendo o percurso das muralhas eu pisei em siringas abandonadas no mato, fui assediado (de maneira muito simpática, é verdade) por putas (muitas, cheguei a me achar mais bonito) e só não me senti ameaçado pelos meninos porque Alá protege os idiotas que andam com cara de estrangeiro, máquina fotográfica e caderno de notas em zonas arqueológicas favelizadas. Enfim.

Mas a área era cheia de caráter, e é isso que os desenvolvimentos parecem estar destruindo. Na hora do almoço foi espetacular andar por uma área onde o inglês não existia, visitar mesquitas que não são atração turística (a menos que você goste de arquitetura otomana), tentar me comunicar com vendedores em lojas de alimentos (até hoje não sei o que eu comi, mas era bom. Dizer que é brasileiro sempre ajuda). Os novos desenvolvimentos parece que darão a certas áreas da cidade aquele clima de Barra da Tijuca ou de Berrini/Faria Lima que eu odeio tanto, sem caráter, cheias de filisteus.

Istambul é uma das cidades que mais mudaram no século XX, e não necessariamente para melhor. A obra prima de Orhan Pamuk, Istanbul, é um guia maravilhoso para estas mudanças, e eu me arrependo de não ter lido o livro antes de ir para lá (um artigo interessante sobre isso aqui). Um bom exemplo é a cisterna bizantina de S. Mocius (Constantinopla tinha problemas com o suprimento de água): quase todo arqueólogo que eu conheço mostra as fotos tiradas nos anos 70 por Cyril Mango (talvez o maior bizantinista de todos os tempos, e sem dúvidas o maior dentre os vivos), um campinho de peladas cercado por casinhas de madeira e lata. Uma foto recente mostra um campo de futebol cercado por edifícios de classe média, produto da ‘gentrification’ que já estava em curso.

Porque é que isso é relevante? Sejam 30, 20, ou 10 milhões de habitantes, Istambul é um caldeirão de problemas sociais e religiosos. A cidade é cosmopolita e ocidentalizada, mas ao mesmo tempo é conservadora e ao mesmo tempo um grande centro islâmico. Estas coisas não são contraditórias, e não se entende Istambul sem aprender isso. A experiência que um turista tem de Sultanahmet é muito parcial, assim como é parcial a dos felizardos que visitam as universidades e institutos de pesquisa na cidades. Justamente por sua ocidentalização e crescimento econômico (aliados à pobreza do interior, problemas étnicos e importância geoestratégica), a Turquia é um grande candidato a agitações políticas e religiosas. Numa época em que o mundo islâmico está sendo chacoalhado por demandas populares por mudança, isso deveria colocar Istambul e o imenso país que a cerca no topo das listas de prioridades dos observadores ocidentais.

 

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Um bom artigo do Christopher Hitchens, na Slate, sobre a Tunísia (obrigado ao Daniel pela indicação). Assim como eu, Hitchens usou suas lembranças de uma visita à Tunísia (3 anos atrás! Será que era ele o cara que furou a fila no ônibus?), mas ao contrário de mim ele é muito mais positivo e esperançoso. O pior é que eu concordo com ele, cum grano salis. Primeira coisa, que eu deixei em branco no meu post abaixo – as ruínas. Historiadores da antiguidade desde os anos 70 procuram afirmar que o imperialismo romano era uma coisa ruim, e procuram valorizar as reações a esta dominação imperial. Quem visita as ruínas de Bulla Regia ou Dougga adentra um mundo de cidades prósperas, com uma classe média e uma elite felizes da vida – os riscos da arqueologia, que raramente documenta o conflito e é normalmente cega à pobreza. Mas dirigindo de uma cidade à outra, vendo a pobreza do interior tunisino (muito diferente de Tunis e Khairouan, visitadas por Hitchens), eu me pergunto se nossas justas preocupações anti-imperialistas não nos fazem cegos aos benefícios do império. Repito, sou contra impérios e dominações estrangeiras, mas Às vezes a gente se esquece de coisas básicas.

Os intelectuais e a universidade… ah, aqui nem se fala. A Tunísia, ao menos na área dos estudos clássicos, está se tornando uma potência: historiadores, arqueólogos, epigrafistas – o trabalho de Mustafa Khanoussi é um exemplo de inteligência e rigor analítico, e não duvido que o mesmo se dê em outras áreas, onde os tunisinos foram capazes de tirar áximo proveito de sua proximidade intelectual e institucional com a França.

Mas tem os direitos das mulheres, e aqui minha experiência é diferente da do Hitchens. Eu até fui à praia na Turquia, mas só porque eu queria mergulhar no estreito de Dardanelos na ilusão de que aquilo me faria igual a Alexandre o Grande. Lá eu não vi ninguém (chovia e fazia frio). Mas quando visitei Kerkouane, uma cidade púnica, aproveitei com a esposa e uma amiga para ir à praia foi que eu vi pela primeira vez mulheres completamente cobertas, até a cabeça, mergulhando no mar. Mulheres ocidentais (minha esposa e sua amiga) são seguidas na rua por homens que acham que a mulher ocidental é inferior, algo que foi explicado pelo namorado desta amiga, tunisino, posteriormente.

Espero mesmo que a ‘revolução de jasmim’ seja um sucesso do iluminismo e dos direitos humanos, como Hitchens parece acreditar. Espero que esta revolução se espalhe pelo Oriente Médio e Norte da África, como ele também espera. Mas eu acho muito difícil.

É muito cedo ainda para falar do que está acontecendo na Tunísia. Estou tentando me manter informado seguindo o Guardian (meu preferido), o Le Monde (que é muito bom), e de maneira mais esporádica o NYT, cujo correspondente tende a falar de temas mais genéricos, o que é bom para ter uma idéia dos desenvolvimentos na área, mas exige cuidado porque ele não é tão bem informado (ou é superficial, o que dá no mesmo para efeitos de leitura). O site da Al Jazeera é bom, mas eu não gosto das opniões – a Al Jazeera cai sempre na esparrela de que é tudo culpa do Ocidente, dos EUA ou do neoliberalismo (este artigo é bem irritante, wishful thinking e retórica barata travestidos de análise política). O problema é que no mundo muçulmano de hoje retórica barata e incendiária não só tem eco como incita à ação, então acaba se tornando análise do porvir. É claro que o Ocidente, seja a França, Itália, ou os onipresentes EUA, têm culpa no cartório, mas é um erro metodológico desprezar o horror que são as elites locais. Minha fonte de análise preferida é o site de Juan Cole, Informed Comment (meu site preferido para Oriente Médio e Islão). E ele é MUITO crítico das potências ocidentais.

Um amigo que dirige trabalhos arqueológicos na Tunísia pro instituto alemão reproduziu em seu Facebook um email de um tunisino, falando das pessoas que passam a noite armadas vigiando as portas de suas casas, com medo de saqueadores. Infelizmente boa parte da mídia está deixando estes dramas microscópicos de lado. A imprensa brasileira está mais preocupada com outras questões, em boa parte por bons motivos, mas em parte por provincialismo mesmo. Existe a possibilidade de que o mundo muçulmano jamais seja o mesmo depois desta agitação na Tunísia, e o Demétrio Magnoli  e o Ali Kamel vão escrever ainda mais bobagens, pois suas fontes de informação (Grobo e Falha) não cobriram o assunto. Enfim.

A Tunísia é um país fascinante, mas certamente não foi dos que eu mais gostei de explorar. Nem eu nem a senhora Amiano, e para ser sincero isto é 100% por causa das pessoas que encontramos por lá. A culpa foi nossa, em parte, porque apesar de ficarmos em Hammamet (uma cidade turística) nós tentamos fugir das companhias turíisticas e das excursões, alugando um carro, pegando ônibus, achando nosso próprio hotel etc. Isso não deveria ser difícil, uma vez que os tunisinos falam francês (ao menos nas cidades de algum tamanho). Mas o tanto que tentaram (normalmente conseguindo) nos passar para trás, aliado à sujeira nos lugares públicos e privados nos deixaram uma péssima impressão. Não é como a Turquia, onde você ignora qualquer problema quando pensa nas pessoas simpaticíssimas que encontra pela rua. Eu achei o contato com as pessoas de lá muito tenso, sempre nervoso por estar perdendo dinheiro. Até nos pedágios te dão o troco errado, o que você só descobre quando já dirigiu alguns quilômetros. Eu sei que isso não é uma regra, pois tenho nuitos amigos que escavam por lá e eles adoram o povo.

O que nós gostamos mesmo foi do lugar. Nós fomos em Julho de 2007, aterrisamos em Tunis (antiga Cartago) e pegamos um taxi até o espetacular Museu do Bardo. O museu tem uma coleção excelente de inscrições romanas, mas a coleção é mais famosa pelos mosaicos gloriosos dos séculos II a IV d.C. De lá, um táxi até a estação d eônibus, uma praça fedida e cheia de gente, onde pegamos uma kombi até Hamamet (você diz pra onde vai, entra e espera encher – parece uma van no Rio de Janeiro). Hahamet não tinha muito interesse para nós (só a praia), mas pegar um carro e dirigir pelo país foi incrível. A paisagem é digna de Mad Max, e o interior do país é visualmente muito dramático.

O Tyler Cowen publicou um post sobre os avanços estruturais realizados pelo governo da Tunísia, especialmente em termos de sua política de gestão de recursos hídricos, mas também em educação e saneamento. O que chamou nossa atenção lá foram as obras em estradas: você dirige por uma estradinha estreita, às vezes de terra batida, e de repente cai em uma enorme rodovia com 4 pistas, recém-construída, passa por pedágios que ainda não têm gente cobrando, desvia de tratores muitas vezes maiores que seu carro (o bicho é tão grande que eu até reduzi a velocidade por medo!). Foi a primeira vez que eu vi um mini ciclone se formar na frente do meu carro, levantar caixas uns 5 metros de altura e jogá-las na minha direção (foi a última também, e minha calça agradece).

Ah sim, antes que eu esqueça: a comida é uma bosta. Sério, virou moda na Europa comer Couscous, ou os infames Briks. Nem mesmo kebabs são bons, os tunisinos destroem tudo em que tocam.

Voltando ao que importa: também chamou nossa atenção o fato de que por todo o país existiam pôsteres celebrando Zine El Abidine Ben Ali, o então presidente do país. O cara foi o segundo presidente da Tunísia, tendo tomado o poder no golpe de Estado mais bizarro que eu já vi: os médicos do então presidente Habib Bourguiba o declararam incapaz de governar, e o general (e na época primeiro ministro) tomou o poder. Os tunisinos com quem conversei na época eram profundamente desiludidos da política, sem esperanças e sem interesse em mudar seu país. Os eventos deste Janeiro mostram que outros estavam mais alertas, e que mesmo 23 anos de uma opressão política selvagem não conseguiram extirpar toda a vontade de melhorar dos tunisinos. Agora só nos resta esperar, torcendo para que a violência acabe logo e a Tunísia me surpreenda, institutindo um governo islâmico moderado, secular (será possível) e democrático.

Ps: as fotos usadas aqui foram publicadas no Flickr, tem mais por lá.

O frio voltou. Eu já havia sentido muito frio antes – Helsinki, Heidelberg, Basiléia. A patroa viveu em Moscou e São Petersburgo. Mas esse ano foi demais. O problema é que, apesar de as temperaturas na Irlanda nunca baixarem tanto como na Alemanha ou na Finlândia, os irlandeses são muito menos preparados pro frio. A casa dos sogros é uma casa georgiana, de 1790. O isolamento térmico não é atualizado desde que Marat foi assassinado. A janela do banheiro tinha gelo. A máquina de lavar roupas congelou. Dois aquecedores ligados no máximo em nosso quarto trouxeram a temperatura para 14 graus.

Eu nunca pensei que iria dizer isso, mas estou com saudades do calor…

Tá chegando a hora! As malas estão arrumadas, os brinquedos de natal do filho já estão ensacados, tá quase tudo pronto. Amanhã partimos para Dublin, vemos o resto da família e terça de manhã partimos rumo à terra da enchente relâmpago (antiga terra da garoa).

Viajar não é tão fácil quanto costumava ser. A Sra Amiano e eu sempre tivemos em comum a paixão pelas viagens, e nos anos que passaram exploramos um bocado. Com o filho, no entanto, fica tudo mais complicado – naturalmente. E olha que Amianinho é da pesada: ele se adapta bem em qualquer lugar, gosta de provar comidas diferentes, gosta de conhecer pessoas novas, enfim, um verdadeiro explorador. Mas com 19 meses o baixinho sofre com instabilidade, e com isso a gente também sofre (noites sem dormir viram uma rotina quando saltamos muito de um lugar pro outro).Enfim, só mais dois dias – e se o Amiano estiver devagar esta semana, vocês já sabem por que.

 

Eu havia falado de ‘Stab City’ alguns posts abaixo. Bom, até o Stewie, do Family guy, foi lá:

Limerick city é a capital do condado de Limerick, e a terceira maior cidade da Irlanda. a cidade em si é bonitinha, tem um castelo e uma universidade, mas normalmente o que faz com que ela apareça na imprensa é a criminalidade: o apelido da cidade é ‘stab city’. É a única cidade onde um herói nacional foi morto por ter sido confundido com outra pessoa (dá para imaginar os assassinos pensando ‘deve ser aquele cara, o rosto me lembra alguém’).

Recentemente a cidade voltou às primeiras páginas dos jornais, mas desta vez por um motivo bem mais positivo, apesar da controvérsia. O duo The Rubberbandits, dois caras que vestem máscaras de plástico e passam o tempo insultando todo mundo além de falando de drogas. Eles apareceram em um show de tv, Republic of Telly, que nem é tão bom assim, mas algumas semanas atrás lançaram o single Horse Outside, com um vídeo que se tornou um hit instantâneo no You Tube.

O vídeo é brilhante porque resume tudo o que existe de bom no humor irlandês: a profanidade, o sarcasmo, a auto-ironia. Os dois caras vão a um casamento, onde as damas de honra, bem vulgares, estão saindo com uns idiotas que tiram onda porque possuem carros – velhos, de segunda mão, mas são carros. Está tudo ali: a economia medíocre da região, a elite vulgar, o padre, etc. O vídeo atraiu grande controvérsia, por causa do refrão, ‘Fuck your Mitsubishi, I have my horse outside’, e porque eles ‘dão os dedos’ repetidamente (na Irlanda dar os dois dedos, ao invés de apenas o dedo médio, é um grande insulto). O vídeo também atraiu o apoio de celebridades no rádio e tv, que ajudaram a tornar o single o maior hit do natal irlandês.

Para quem quer ver mais, os Rubberbandits gravaram também um guia para quem for visitar a cidade de Limerick (aqui).

 

Uma diferença fundamental entre o pub irlandês e o pub inglês é que o inglês, no geral, pertence a uma grande corporação; o irlandês pertence ao fulano de tal que está ali te servindo o pint. Isso é mais verdadeiro no interior do que em Dublin. E faz uma diferença brutal pra qualidade do pint que te servem. Passei o período de Festivus em Clogheen, County Tipperary, uma aldeia com cerca de 400 pessoas, um açougue, uma igreja, uma agência dos correios e dois pubs (e um bar). Um dos pubs é o Nedeens’s, arrumado, com aquecimento central e frequentado pela fina flor da elite da aldeia – ou seja, gente de meia idade com uma cintura maior do que a minha. O outro é o Mary Halley’s, mais – digamos assim – popular.

Mary é uma senhora muito simpática. Ela não trabalha mais ali, porque em 2007 ela entornou uma panela cheia de óleo fervendo sobre si própria e ficou meses no hospital. Seu sobrinho, John, é quem administra o lugar. E que lugar: um boteco com piso de plástico, paredes imundas, balas que estão em exposição desde 1974, um banheiro daqueles em que você não lava as mãos por nojo da pia, um aquecedor pequenininho que fica ligado ao máximo, que faz com que quem está em pé (não tem cadeiras ou mesas) acabe se queimando, e quem está a um metro de distância passa frio.

Minha preferência (e da família) é naturalmente pelo Mary Halley’s, devido à qualidade infinitamente superior da Guinness de lá. Mas tem coisas que te fazem repensar estas escolhas. Não é só porque dia 24 de dezembro, véspera de natal, o lugar está cheio de velhos bêbados e a juventude entediada e perdida do lugar. Mas por causa do que aconteceu ontem.

Estava eu com meus dois cunhados, bebendo, quando um sujeito completamente bêbado adentrou o recinto. Existe uma parede no meio do bar, e por isso não vimos onde ele foi parar. Mas ele trouxe um cachorro, que ficou correndo e latindo pra todo mundo. Passada uma hora, um dos sujeitos comigo apontou pra porta e falou: ‘agora a gente só sai daqui pela janela’. Lá estava o cachorro defecando na entrada do bar – do lado de dentro. O primeiro incauto que abrisse a porta e entrasse iria certamente pisar no pudim.

Resolvemos assim avisar o rapaz que estava servindo (John, que estava de folga, estava lá também, mas não gosta de ser perturbado – nem mesmo quando está a serviço). O rapaz convenceu o bebum a limpar a sujeira: lá foi o cara com 4 (eu contei) quadradinhos de papel higiênico, catar o presente do seu cachorrinho e jogar pra fora do pub. O fedor foi inacreditável. Mesmo a Guinness a 3.60 euros servida há poucos minutos pareceu pouca razão para ficarmos no bar. Mas nós ficamos. Por que esse é o preço que você paga para não beber em uma franquia de um Irish Pub e beber Guinness aguada e mal tirada. Merda de cachorro.

Duas mudanças já percebidas na cidade eterna: minha pizza al taglio preferida desapareceu; essa é a pior. A outra é que o pai do meu barbeiro não está mais entre nós.

Para quem nunca passou por isso, é importante saber que nada é mais traumático, para mim, do que cortar o cabelo em qualquer lugar que nãos eja no salão do Donga, em Niterói. Isso significa que minha vida tem sido muito dura nos últimos 8 anos. Explicar como você gosta, a necessidade de fazer conversinha, estas coisas. Em Roma isso foi muito duro porque tem muito salão, mas eu gosto mesmo é de barbeiro. Pagar 10 euros por um corte vá lá, mas 25-30 é um absurdo. Foi com isso em mente que eu achei um barbeiro em Prati, perto do Vaticano.

Dois homens de uma certa idade, um bem idoso, pai e filho, os dois grisalhos. O lugar é espetacular, do ponto de vista barbeirístico: sempre tem uns velhos com aquela jaqueta cor de diarréia que os italianos idosos gostam tanto, tem um poster com um desenho de uma dona pelada imitando uma pose famosa da Marilyn Monroe em um lugar discreto, e a mobília é espetacular. Você se sente entrando num barbeiro dos anos 70.

Os dois fumavam loucamente, e isso era o maior inconveniente – eu saía de lá com a cabeça fedendo, pois eles fumavam dentro do salão enquanto cortavam meu cabelo. Meu e de todo mundo: me lembro de uma ocasião em que uma senhora trouxe o filho, e o velho, consciente da presença da criança, ia lá para fora dar cada tragada (ou seja, a cada 90 segundos), enquanto cortava o cabelo do menino segurando o cigarro.

Enfim, voltei lá ontem, o velho sumiu. Tem uma foto dele presa no espelho, não sei se é para assustar os clientes. O barbeiro parou de fumar. Mesmo os romanos mais encruados mudam.

Postar aqui anda complicado: estou enrolado com a organização de um colóquio que vai acontecer daqui a duas semanas no instituto alemão de arqueologia de Roma, sobre o saque de Roma em 410 d.C. Em meio a preparar um trabalho partindo do zero, estou envolvido com emails confirmando vôos dos palestrantes, hotéis (todos querem trazer a mulher, nenhuma quer trazer o marido – interessante), comida, patrocínio etc. Isso vai me valer dois meses perambulando pelas terras outroras dominadas pelo império, se eu não morrer de infarto (ou seria enfarto) antes.